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Língua Afiada

Ainda sobre o racismo e sobre a ignorância

Sabem que mais ainda bem que se fala e muito sobre este tema porque tenho lido tantas asneiras por essa Internet que até reviro os olhos, a ignorância, o desconhecimento, a leveza com que alguns falam do assunto e as parvoíces que debitam fazem com que seja urgente que se escreva e fale mais sobre o assunto para ver se as pessoas aprendem alguns conceitos e alguma história.

Li por aí que só existem raças de animais irracionais…

O quê? Mas estas pessoas acham que o termo racismo deriva de que palavra?

Vamos esclarecer então com a ajuda do dicionário:

ra·cis·mo
(raça + -ismo)

Substantivo masculino

  1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria.
  2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc.

"racismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

Falemos de raças racionais, são três a Caucasiana a que vulgarmente chamamos de branca, a Negróide mais conhecida por negra e a Mongolóide designada muitos vezes por amarela, esta classificação científica que não se limitou a dividir as pessoas conforme as suas caraterísticas físicas descrevendo também as suas caraterísticas mentais ignorando completamente as diferenças culturais serviu precisamente de base para o racismo, já que para os estudiosos os brancos eram mais inteligentes e mais evoluídos, civilizados e essa classificação rudimentar e sem qualquer base científica ainda hoje tem repercussões.

Porquê?

Porque independentemente da raça sempre foi proveitoso explorar os mais indefesos, fossem eles negroides ou mongoloides e por isso mesmo sabendo-se que era errado, os fins justificavam os meios e a suposta inferioridade dos povos, igualá-los a animais era a desculpa perfeita para lhes ceifar a vida e roubar territórios e conseguir dormir à noite sem temer Deus que os mandava amar a todos os homens como irmãos, mas os “selvagens” não seriam filhos de Deus e por isso não eram seus irmãos para amar.

Infelizmente volvidos séculos e séculos o racismo não desapareceu e muitos brancos ainda se consideram mais inteligentes e superiores, nem o facto dos genes negros serem dominantes, considero esta a maior ironia dos tempos e a ciência ter provado que afinal somos todos descentes dos negroides de África parece ter sido o suficiente para que o racismo fosse desarraigado.

 

A nossa sociedade é altamente preconceituosa e há uma tendência enorme para gozarmos com que é diferente, todos as formas de discriminação são más, mas não vamos confundir racismo com bullying são coisas completamente distintas, podem andar juntas uma vítima de racismo é frequentemente vítima de bullying, mas nem sempre o bullying é racismo.

O racismo ultrapassa o bullying de formas que penso que nenhum branco consegue realmente ter noção, estará perto das dificuldades que as mulheres têm em afirmar-se como iguais aos homens, continuamos a ter de trabalhar mais, a ter de provar o nosso valor, anos e anos após a conquista ao voto e da emancipação continuamos a ser vistas como inferiores, menos capazes, menos inteligentes, só porque somos mulheres, eles continuam a ser vistos como inferiores só pela cor da sua pele, mas nem o preconceito sob as mulheres é tão grave, pois apesar de em seu nome se terem cometido crimes hediondos, não podemos compara-los à chacina, escravidão, subjugação, humilhação e até extinção de alguns povos de raça negroide ou mongoloide.

Talvez tenha sido por outra grande ironia dos tempos e da biologia que as mulheres não tenham sido extintas, os homens julgaram-se sempre superiores, mas sempre foram as mulheres que providenciavam a sua descendência.

 

Tal como muitas mulheres escolhem ignorar o machismo, algumas até compactuam com ele, muitas pessoas escolhem ignorar o racismo, ele não lhes toca no dia-a-dia, não é algo que as afeta, muitas até são racistas, mas acham que se não o disserem em voz alta não tem importância e por isso acham que este assunto é só mais polémica passageira que passará tão depressa quanto se instalou, uma pena, uma pena que não se usem estas oportunidades para se gritar alto e bom som – Não toleramos qualquer tipo de racismo, seja direto ou por meio dos símbolos.

O nome macaco está para os negros como a cruz suástica está para os Judeus, talvez assim em linguagem de brancos entendam o que significa ver um negro apelidado de macaco, mesmo que seja o mais fixe, a cruz suástica é bonita e só por si inofensiva, no entanto, ostenta-la envia uma mensagem clara e inequívoca de nazismo, a associação de um negro a um macaco é uma mensagem clara e inequívoca de racismo.

Só não entende isto, quem não quer. Até a H&M entendeu e por isso pediu desculpas e retirou a imagem e a camisola de circulação.

Este assunto ultrapassa a publicidade da H&M é um tema muitíssimo sério e atual, há um longo caminho a percorrer contra o racismo e todas as oportunidades são boas para o fazer.

O racismo está na cabeça das pessoas, mas alguém disse o contrário?

A publicidade da H&M sobre a qual escrevi aqui, teve dois tipos de leitura bastante opostas, um grupo de pessoas condenou fortemente a foto pelo teor racista da mensagem e outro grupo considerou que o racismo reside na cabeça das pessoas e só quem é racista ou está demasiado centrado nisso é que vê a foto como racista.

Na minha opinião só quem desconhece a associação profundamente enraizada no racismo que apelida indivíduos de raça negra de macacos é que pode considerar este caso um não tema ou uma polémica desnecessária.

Como branca não terei legitimidade para me dizer ofendida, mas não preciso de o fazer foram várias pessoas, algumas bem conhecidas, negras que o fizeram no primeiro instante, condenando inequivocamente a imagem, se eles se sentiram ofendidos quem somos nós para dizer que não têm esse direito?

 

Tenho a certeza que todos os que se insurgiram e que até deram exemplos de ofensas que receberam com o termo macaco só se sentiram magoados porque têm o racismo na cabeça, na situação deles também eu teria, quem lida diariamente com esse preconceito não tem como contorná-lo.

Existem palavras que carregam em si muito mais significado do que aquele que o dicionário explica, macaco é uma dessas palavras, não é o único animal que serve de insulto, cabra, vaca são nomes que não queremos ver estampados numa camisola usada por uma mulher, mas ovelha já não parece ferir suscetibilidades.

Compraria uma camisola que dissesse “ Ovelha mais fofa”, mas não compraria uma camisola que dissesse “ A cabra mais fofa” e mesmo assim estes exemplos estão longe de serem tão maus quanto o da H&M.

 

É impossível desassociar a imagem do menino negro com aquela camisola de racismo, é impossível porque é uma relação demasiado forte e terrível que fez e continua a fazer sofrer demasiadas pessoas.

Claramente que quem nunca foi vítima dessa comparação se esquece facilmente da associação, mas isso não quer dizer que ela não exista e que não deva ser levada em consideração, especialmente por uma marca que comunica para milhões de pessoas e que como tal tem o dever e a responsabilidade de escrutinar tudo o que comunica.

 

Este caso é como as piadas racistas, as pessoas que as contam não são necessariamente racistas, contam-nas apenas porque lhes acham piada, só que com ou sem intenção cada vez que alguém conta uma piada racista está a ajudar a que o preconceito se propague e prolongue no tempo, podemos não ter essa consciência, mas cada vez que se conta uma anedota contribui-se para a estigmatização da raça negra como inferior porque particamente todas são à volta desse tema, ridicularizam uma raça inteira de forma sobranceira e petulante para gaudio dos brancos.

 

O racismo está realmente na cabeça das pessoas porque existem pessoas racistas que não demoram a julgar, a rir e a espezinhar os negros só pela sua cor, seriam essas que ao verem um menino negro com a dita camisola ririam na sua cara, apontariam o dedo e fariam piadas com a frase.

As pessoas que não são racistas só podem ter dois tipos de comportamento não se aperceberem da situação e seguirem com a sua vida ou perceberem que realmente a palavra macaco tem uma herança pesada e que colocar um menino negro a usar uma camisola com a frase “o macaco mais fixe” é coloca-lo numa posição vulnerável e é dar armas aos racistas que aproveitam todas as ocasiões para manifestarem o seu ódio.

 

Nunca fui vítima de racismo, mas já fui vítima de preconceito, sei que ele existe e sou incapaz de ignorar e desvalorizar esta situação, porque não é justa, porque por cada pessoa que só vê um menino giro há uma que se sente magoada e outra que se prepara para a atacar, é uma questão de justiça, de proteção, de não passar a mensagem errada. Não temos obrigação de passar a mensagem certa, mas temos obrigação de não passar mensagens erradas ou dúbias.

O racismo está na cabeça das pessoas, em demasiadas, porque há demasiadas pessoas racistas e demasiadas pessoas vítimas de racismo.

H&M que vergonha!

As marcas, especialmente as grandes marcas de grandes empresas, globais que chegam a milhões de pessoas têm de ser socialmente responsáveis a todos os níveis, desde a base que passa por dizer não à exploração laboral ao topo cuidando das mensagens que transmitem, toda a cultura empresarial e identidade da marca deve ser socialmente responsável, é o mínimo exigível.

A nova publicidade da H&M é vergonhosa, miserável e completamente irresponsável.

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Querem que acreditemos que ninguém reparou na mensagem? Que foi um erro inocente?

Foi coincidência colocarem o menino negro com a mensagem “o macaco mais fixe da selva” e o menino branco com a mensagem "especialista em sobrevivência".

Não há muito que enganar ou a marca fez questão de passar uma mensagem de racismo ou a equipa responsável pela campanha e pelas mensagens estampadas foram incompetentes e negligentes.

 

A ideia de apelidar uma criança de macaco já é infeliz, mas entendo que em alguns países é um termo carinhoso, mas deixarem passar uma foto de uma criança negra com essa frase demonstra uma total inabilidade e insensibilidade social.

Infelizmente todos sabemos que durante séculos a raça negra foi comparada e “equiparada” aos macacos, desvalorizando-se seres humanos apenas por causa da sua cor, iremos pagar esse crime por muitas e muitas gerações, pois os crimes de ódio transitam no ADN por serem demasiado marcantes, todos temos o dever de ultrapassar os preconceitos e as barreiras para que um dia sejamos todos vistos como iguais.

 

Não podemos permitir e perdoar uma situação como esta, mesmo que não tenha sido deliberado (tenho as minhas dúvidas) não pode passar em branco, para além de a marca ser responsabilizada, deve ser, há que debater o poder das marcas e a sua responsabilidade em transmitir os valores e ideais certos, os característicos de uma sociedade igualitária e evoluída.

Devemos exigir mais das grandes empresas, das grandes marcas, estes devem ser um exemplo a seguir e não o contrário, não deveria ser necessário o público agir como polícia do politicamente correto e do que é moralmente certo, mas quando as empresas se recusam a ser responsáveis e a fazerem corretamente o seu trabalho, temos de ser nós consumidores a dizer a última palavra.

Que este caso seja um exemplo, que a contestação se eleve e resulte efetivamente na diminuição das vendas e consequentemente nos lucros da empresa, devemos dizer alto e bom som que não iremos tolerar qualquer mensagem racista, preconceituosa, machista ou xenófoba.

 

Não adianta desculparem que se fosse um menino branco não haveria problema, as coisas não funcionam assim, as pessoas sozinhas já são suficientes ignorantes e preconceituosos, não vamos deixar agora grandes marcas que comunicam para todo o mundo alimentar as suas ideias com mensagem destas que servirão com certeza de bandeira.

É preciso responsabilizar os grandes comunicadores cujas mensagens sejam a milhares, a milhões de pessoas, é preciso dizer basta, queremos uma sociedade que nos aceite a todos como iguais independentemente da raça, da etnia, do credo, do sexo, da proveniência, só assim conseguiremos fazer do mundo um local de paz.