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Língua Afiada

A falácia dos conteúdos #1

Antes de mais importa definir o que é o conteúdo:
Conteúdo é tão abrangente quanto as áreas existentes passíveis de serem preenchidas, tudo pode ter conteúdo, o frasco, o texto, o programa, a música, até as pessoas, tudo é conteúdo mesmo que não exista conteúdo nenhum.


Em comunicação, conteúdo é um termo utilizado para identificar o que preenche a sua forma, grelhas televisivas, linhas editoriais, páginas de internet, programas de rádio.


Os meios de comunicação têm espaço disponível para divulgar a determinada audiência, o que se mostra nesse espaço tem basicamente dois formatos: conteúdo e publicidade.
A publicidade existe para financiar o conteúdo, já que dor detrás do conteúdo, independentemente do meio, existe uma equipa responsável por o produzir.

No caso dos blogs o conteúdo é da responsabilidade do autor/autores, a maioria dos bloggers escreve por gosto ( e também porque é moda) e são poucos os que têm patrocínios/financiamento, embora exista a ideia que quase todos recebem pelo que escrevem.

Na imprensa os conteúdos são pagos pelas assinaturas, pelo valor da capa e pela publicidade, na rádio a publicidade é a principal fonte de receita.

No caso da televisão a publicidade é responsável por maior parte do orçamento dos canais livres, enquanto os canais estatais recebem também apoio do Estado proveniente de uma das muitas taxas que pagamos todos os meses na fatura da eletricidade, por sua vez os canais cabo têm também o financiamento pela via das assinaturas.

Na Internet os formatos de publicidade são muito variados e estão constantemente a evoluir e é cada vez mais frequente existir um custo para ter acesso a conteúdos mais exclusivos.

Teoricamente isto funciona de forma clara: alguém produz os conteúdos de forma isenta e idónea e a publicidade e as assinaturas pagam esses conteúdos, na teoria seria assim, mas na prática não é assim tão simples.

Nunca existiu tanta promiscuidade entre conteúdo e publicidade, os dois enrolam-se, misturam-se e no fim é difícil distingui-los.


Curiosamente parece que só um tipo de publicidade camuflada chama à atenção do público, a que existe nos blogs, o importante é aquela blogger que que escreve sobre determinado produto porque lhe foi oferecido e é uma vergonha não dizer que foi oferecido e estar a enganar os leitores.
É de estranhar que não existam reclamações de publicidade disfarçada de conteúdo que nos impingem todos os dias em todos os outros meios.

A imprensa deve ter sido o primeiro meio a perceber que o conteúdo vale muito mais do que a publicidade, é claro que uma notícia, uma reportagem ou artigo de opinião vale muito mais do que uma publicidade.
Começou-se por trocar páginas de publicidade por notícias relevantes, uma forma de agradar as marcas era transmitir as suas novidades, na verdade as novidades são notícias e não vinha daí nenhum mal ao mundo.
Rapidamente se passou para as publireportagens, que não são mais que publicidades pagas mascaradas de conteúdo, alguns meios identificam-nas como publicidade, outros já o deixaram de fazer há muito.

O cúmulo chegou quando a imprensa começou a oferecer reportagens em troca de páginas de publicidade, uma equipa desloca-se às empresas, faz entrevistas, tira fotos, pesquisa a sua história, mas e é um grande mas, a reportagem só sai se em troca a empresa adjudicar uma página de publicidade.
Existem equipas de duas e três pessoas cujo trabalho só é remunerado se a empresa aceitar pagar a publicidade, organizam-se por zonas para minimizarem custos de produção, inventam cadernos especiais, criam rúbricas com nomes pomposos, tudo para convencerem as empresas a constarem das suas páginas. Tudo para conseguirem sustentar o emprego, precário e mal pago.

Na televisão o paradigma não é diferente, levamos com blocos de anúncios de vinte minutos de trinta em trinta minutos, mesmo em canais pagos, praticamente todos os programas são patrocinados por uma, duas ou três marcas, mas mesmo assim inventam formas de ganhar mais dinheiro e de nos impingirem publicidade.
Também na televisão o conteúdo vale mais do que a publicidade, não foi preciso muito para que produtos e serviços aparecessem magicamente nos programas televisivos, começou-se pelo Product Placement que consiste na presença passiva de um produto/serviço na cena, rapidamente se evoluiu para o Soft Sponsoring que envolve a manipulação do produto/serviço por parte de uma ou várias personagens e a explicação das suas vantagens.


Esta forma de publicidade é tão agressiva nos programas televisivos em Portugal que chegam a existir cenas consecutivas com divulgação de dois produtos seguidos, no caso das telenovelas, o Soft Sponsoring chega a interferir claramente com o enredo levando a algumas situações absurdas e completamente descontextualizadas.

No entanto, a camuflagem não se esgota na manipulação do produto, vai mais longe, é tudo uma questão de dígitos seguidos de um € se forem muitos é possível produzir conteúdos totalmente dedicados a uma marca ou empresa, formatando e construindo o próprio programa à volta disso.


A possibilidade de conteúdo por encomenda abriu outra possibilidade de exploração, a das produtoras, os canais televisivos, tal como a imprensa, contactam as produtoras para que estas lhes apresentem conteúdos, conteúdos esses financiados externamente por marcas e empresas, muitos deles criados para divulgação dessas marcas e empresas de forma criativa ou no âmbito das suas relações públicas, o cúmulo reside no detalhe que para além dos canais receberem os conteúdos a custo zero, solicitam ainda uma verba para os transmitirem às marcas/empresas que os financiaram em primeiro lugar.

As produtoras veem-se assim cativas do financiamento, sendo o financiamento que decide se um programa irá ou não para o ar, pois ter bom conteúdo quase sempre não é suficiente para que o programa seja transmitido.


Na rádio o paradigma não é diferente, para além de blocos publicitários, cada vez maiores, a publicidade surge camuflada nas conversas dos radialistas sem qualquer quebra como sendo uma conversa natural e casual, mais grave ainda é desenharem ou adaptarem programas de entretenimento para falar de determinada marca.


Todos os dias somos bombardeados com publicidade dissimulada, mascarada de conteúdo, um espetador atento conseguirá facilmente detetar essa publicidade nos mais variados contextos, mas a maioria não se apercebe que o que perceciona como conteúdo não é nada mais, nada menos do que uma manipulação.


Esta falácia, este engodo escala a uma velocidade vertiginosa e pelo caminho mais do que enganar as pessoas contribui para o empobrecimento dos meios de comunicação e para o trabalho precário de jornalistas, fotojornalistas, fotógrafos, produtores, guionistas, operadores de câmara, realizadores, editores, revisores entre outros que veem o seu trabalho depender do financiamento de terceiros.


Não é surpreendente que cada vez menos se encontrem boas peças de jornalismo e menos programas com conteúdos interessantes e culturais.
Quando o dinheiro domina os conteúdos é natural que os conteúdos não sejam os melhores e os desejáveis.

 

(Para a semana a perspetiva das marcas e dos profissionais de marketing.)

 

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