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Língua Afiada

A traição do espelho

Todos buscamos a perfeição seja em nós ou no que fazemos, no que desejamos ou planeamos há sempre alguma coisa em que queremos ser prefeitos, em todas as áreas ou somente numa, no trabalho, em casa, nas relações, no sucesso, há sempre algo que queremos fazer na perfeição.

 

Se todos buscamos a perfeição, todos vivemos com o hiato que existe entre o que percecionamos como perfeito e aquilo que conseguimos atingir, como seres imperfeitos e incompletos tudo o que fazemos estará imperfeito e incompleto, mesmo quando está perfeito aos nossos olhos, haverá sempre alguém que não concordará com a nossa visão.

 

A tendência dos últimos anos tem sido exagerarmos na perfeição, generalizarmo-la a tudo o que fazemos e a nós próprios, há cada vez mais pressão para que todos sejamos perfeitos, bonitos, simpáticos, elegantes, inteligentes, intelectuais, com um nível de vida acima da média que nos permita ter casa, carro, viajar frequentemente, jantar no restaurante in, usar as últimas tendências da moda, ter os gadgets mais recentes, ter uma vida social preenchida, uma família de capa de revista e, acima de tudo, sermos bem-sucedidos.

 

Somos pressionados a viver uma vida de sonho, num mundo virado do avesso, imperfeito e caótico onde os sonhos mais parecem utopias e quimeras da alma.

Neste mundo imperfeito de perfeições sonhadas, a nossa aparência nunca teve tanta importância, o que interessa é parecer, o ter é secundário, há mesmo quem defenda que o primeiro passo para o sucesso pessoal é aparentar esse sucesso:

- O primeiro passo é ter cuidado com a aparência, deve-se começar pela forma como nos vestimos, “veste-te como o homem que queres ser”.

- O segundo passo será rodear-nos de pessoas de sucesso independentemente de gostos, compatibilidades, quanto mais importantes forem melhor, o resto é acessório.

- O terceiro é possuir o máximo de objetos tendência que o orçamento permitir comprar, é importante ter bens materiais que suportem a pose e a posição pretendidas.

Supostamente com um curso superior, os amigos certos e as escolhas certas a vida perfeita seria uma questão de tempo.

 

Neste caminho quase imposto pela sociedade vamo-nos rodeando de postiços, qualidades que não temos, passatempos que não gostamos, amizades forçadas, amores contratuais, empregos insanos, objetos dispensáveis, roupas desconfortáveis, expressões fictícias, emoções falsas.

 

Vivemos uma vida de aparências e a principal máscara somos nos próprios, usamos todos os artifícios que temos ao nosso alcance para sermos perfeitos, se durante décadas esta maquilhagem foi exclusiva para as mulheres, também agora os homens ressuscitaram esse direito ou obrigação, o aperfeiçoamento do nosso exterior ganhou um peso desmedido, na medida que se somos bonitos ou agradáveis por fora podemos ter todo o fel por dentro e até ter permissão para o mostrar ocasionalmente deste que a nossa posição social o permita, tudo é tolerável.

 

A beleza abre portas, encanta, cria empatia, é agradável, afinal quem não gosta do esteticamente belo? Todos gostamos. Mas será que ser esteticamente perfeito é a solução? Será que desenharmos todos os dias um boneco por cima da nossa pele é o caminho?

Maquilhamos, polimos, disfarçamos todos os nossos defeitos para que ninguém os perceba, a nossa imagem quer-se impecável, afinal é essa a imagem que queremos passar.

Nessa construção não colocamos só camadas de base, pó, sombras, batons, colocamos barreiras ao nosso âmago, construímos paredes de betão que contêm sentimentos, emoções, pensamentos, motivações, desejos. Enquanto nos embonecamos criamos um boneco.

 

À noite no silêncio, no conforto da nossa casa retiramos camada a camada e o nosso verdadeiro eu aparece, cru, sem artifícios, exposto, refletido no espelho, estamos lá mas não nos vemos, não nos reconhecemos, fazemos de conta que aquela imagem é passageira.

No dia seguinte construímos novamente o boneco, saímos de casa confiantes vestindo a personagem que criamos para nos nós próprios.

 

No café de todos os dias, sentamo-nos e pedimos o de sempre, enquanto esperamos passamos os olhos pelas notícias das redes socias, vemos as notificações numa foto de nós próprios, abrimos para ler os comentários e sorrimos com os elogios. Por momentos paramos absorvidos pela foto, afinal quem é aquela pessoa tão perfeita que sorri abertamente? Parece tão diferente de nós.

Sentimos necessidade de confirmar, procuramos o espelho dourado da parede, curvamos os lábios num sorriso, somos nós, tal e qual a imagem da fotografia.

Prestes a mudar o olhar de direção fixamos o nosso próprio olhar, vemos a azáfama que nos rodeia, estamos ali sós, o nosso olhar mirra, encolhemo-nos em nós próprios. Os nossos olhos estão diferentes, passivos, tristes, baços, os lábios curvam-se ao contrário, contraem-se, tremem um pouco, os olhos marejam.

 

Olhamos fixamente e vemos refletida a imagem da noite anterior.

O espelho da alma não mente.

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