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Língua Afiada

"As mulheres portuguesas são parvas"



Este é o título da crónica de Maria FilomenaMónica no jornal Público e eu não poderia concordar mais com otítulo e com o todo o texto.
As mulheres portuguesas são parvas porque continuam a acharque é sua obrigação tomar conta da casa e de todos os seus afazeres.
Maria Filomena Mónica resume tudo na frase:

 “De certa forma, odestino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de serpior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriaçãocontinuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintadose a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. Asmulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionaiscompetentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia.”

Hoje em dia espera-se tudo das mulheres, basicamente o quese espera é a perfeição, é ter tempo para tudo e ser boa em tudo e quando nãosomos quem é que mais nos ataca? As outras mulheres.
Eu tento, eu juro que tenho ser boa em tudo.
Tento ter a casa em ordem, arrumo, limpo e organizo tudo damelhor forma, mas tento sempre faze-lo durante a semana à noite para ter osfins-de-semana livres, mas é claro que não consigo manter uma casa impecávelcom as horas que lhe dedico, acaba sempre por falhar uma coisa ou outra e voltae meia lá ouço o homem reclamar que o interior de uma gaveta já tem pó.
As roupas para mim são um dilema detesto passar a ferro earrumar a roupa, a verdade é que não gosto de tarefas rotineiras e dessas estaé que menos gosto.
Trabalho 8 horas por dia e tenho a sorte de raramente ter detrabalhar fora de horas, consigo normalmente gerir o tempo de forma a trabalharapenas as 8h diárias e consigo ter o meu trabalho em dia. Mas para além do meutrabalho de 8 horas tenho outros projetos, uma loja online, algumas páginaspara gerir e este escape, já que criei o blog mesmo para extravasar mas acabapor me tomar algum tempo.
A verdade é que mesmo que pudesse não conseguiria ser donade casa, não me sentiria realizada.
Trabalho no que gosto, mas poderia ter um emprego melhor seestivesse disposta a arriscar mais e a dedicar-me mais horas a um emprego, mascomo tenho outras prioridades e gosto do que faço, por enquanto, não penso emmudar.
Em casa sou responsável por todas as compras do supermercado,gestão da dispensa, gestão dos menus e execução dos mesmos. É raro o meu maridocozinhar, somente quando não posso ou porque quer mesmo ser ele a fazer algocomo omeletes que ele faz melhor do que eu.
Considero-me uma boa cozinheira e gosto bastante de inovarna cozinha, cozinhar dá-me prazer mas só em certas situações. Não me importo depassar 3h na cozinha para preparar um jantar requintado para um grupo deamigos, mas no dia-a-dia fazer uma refeição simples de 30m pode deixar-meinfeliz. Às vezes olho para o sofá, normalmente ocupado pelo marido, e pensoque bem que me sabia estender-me ali e só ser chamada na hora de jantar.
Outras vezes estou só tão cansada que nem me apetece comerquanto mais fazer.
Normalmente arrumo à quarta-feira, às quintas corro e nassextas à ida para casa passo pelo supermercado para fazer as compras semanais.
O que me irrita quando me esqueço de alguma coisa, normalmentedigo, que mxxxa esqueci-me de comprar ovos! Qual a resposta do marido? - Atéparece que custa muito fazer uma lista? Só compras o que está em promoção!
Prefiro que ele não me ajude a arrumar as compras porquequando o faz gosta de fazer uma ronda pela dispensa para verificar o que estáfora de validade, para perguntar porque raio tenho 3 embalagens de qualquercoisa que nunca usei ou porque comprei morangos se eles se estragam sempre?
Às vezes parece que o meu inconsciente me pede para comprar morangos sópara o chatear! Já que no supermercado tenho sempre vontade de os comer edepois em casa passam-me ao lado.
E as ementas? Bem as ementas confesso para mim são umterror, ter de estar sempre a pensar no que vou fazer chateia-me. Podia fazerum plano? Podia, claro que podia, mas depois tinha-me de me cingir a isso e nãofazer a gestão do dinheiro conforme o que está com 50% de desconto. Desde quecasei as coisas aumentaram 50%, gasto mais ou menos o mesmo em mercearia, oranão é difícil de fazer a conta para gastar o mesmo sem cortar tenho de compraras coisas a metade do preço.
Já disse que tento ter os fins-de-semana livres de tarefasdomésticas? Já, inclusive compras que homem abomina supermercados. Esse sítioonde se perde imenso tempo e onde se apanha uma valente seca.
Mas depois ao sábado é preciso sempre fazer alguma coisa ouno jardim ou nas varandas ou porque está sol e tenho de aproveitara para secara roupa… A verdade é quando chego a sábado sem nada para fazer raramente meapetece fazer alguma coisa porque depois estou demasiado cansada para sair dosofá.
Mas há que ter sempre vontade de fazer programas giros econvém ter ideias para os mesmos, já que eu na adolescência tinha sempregrandes ideias mas ultimamente gasto a criatividade noutras coisas (nos menuspor exemplo). Pergunta-me ele assim com ar triste não sabes o que fazer hoje detarde? Respondo eu ainda mais triste – Não tenho ideias! (Na verdade, muitasdas vezes o que queria era sentar-me no sofá a comer pipocas e ver um filme semser interrompida.)
E cuidar de mim? Bem outro drama porque ou se gasta umafortuna em cabeleireiro ou esteticista ou então tem de se perder tempo em casa.Tempo que poderia ser aproveitado para muita coisa, sim eu sei, mas só existemduas opções gastar dinheiro ou gastar tempo.
Demoro uma eternidade no WC, claro tenho o cabelo pelo meiodas costas, nem pensar em cortar muito porque ele não gosta, mas quer que eutome banho e esteja pronta em 10m para sair. Já consigo fazer essa proeza em20m mas fico num estado de nervos.
Para não falar que depois de um dia cheio não me apetecemuito aperaltar-me toda para sair, vestir um vestido e calçar uns sapatos de10cm. Ah as mulheres ficam tão bem de vestido! Pois ficam mas primeiro épreciso comprares os vestidos e depois é preciso estares com vontade de osusares.
Voltando às ementas que é um ponto importante lá em casa. O jantarhoje não está grande coisa, o arroz está duro, a carne não presta, este frangonão está bem temperado… Depois de ter aprendido a cozinhar mais como a mãe deledo que como a minha (ambas cozinham muitíssimo bem) demorei pelo menos 3 anos afaze-lo esquecer os temperos da mãe para se habituar aos meus, mas mesmo assim àsvezes ainda aparece uma nota ou outra dos pratos que a mãe cozinha.
- Ah na cozinha é preciso amor e dedicação, só assim ascoisas saem bem. Costuma ela dizer. Experimenta ter amor e dedicação depois de um dia de trabalho,das pessoas mal-educadas que ouviste ao telefone e da falta de civismo no trânsito…
Mas o que me irrita mesmo é ter de ter a dispensa recheadade coisas boas, acompanha-lo nos petiscos e de preferência saber prepara-los,mas ter que ouvir se queres emagrecer tens de cortar à boca. Mas ele acha quese eu começar a fazer dieta ele não começa também? E acha que se eu estiver de dietavou ter 10 variedades de bolachas na dispensa?
E acha que as pessoas que passam a vida com restrições alimentaressão felizes? Não, não são especialmente se gostarem de comer. Ter em casa umatop model que come o que lhe apetece é quase impossível.
E depois, e depois claro é preciso ter a disposição sexualde uma ninfomaníaca que se vier acompanhada do contorcionismo de uma ginasta e asensualidade de uma stripper profissional melhor ainda. Não interessa nada queuma pessoa tenha 1001 coisas na cabeça, o que interessa é estar disponível. Nãoque tenha problemas com isso, felizmente estou sempre disponível ou quasesempre mas acredito que muitas mulheres não sejam assim.
Depois há a cultura, sim temos de saber falar de tudo esobre tudo e temos de ser inteligentes porque os homens não gostam de mulheresburras, mesmo quando o meu cérebro está a 30% tenho se ser intelectualmentesuperior.
Antes de casarmos assumi que me encarregava das tarefas dacasa, arrependo-me tanto dessa decisão…
Sempre que sou eu a tratar de tudo em casa sinto-me a trairos meus ideais mas sempre que reclamo sinto que estou a reclamar de umasituação com a qual concordei.
E o pior de tudo, é que se não tenho a casa em ordem, asroupas em ordem e se eu não estou em ordem sou a primeira pessoa a culpar-me, atentar arranjar soluções para colocar tudo em ordem para não haver lugar a discórdiase discussões.
Pior é apanhar-me a criticar algumas mulheres que nãoconseguem ter tudo em ordem. Mas como é que eu me tornei tão parva? Quando metornei tão parva? Algures no noivado.
Quando a discussão estala o homem diz-me que toma outrasresponsabilidades como tratar dos carros, não sei é quando! Já que o meu carronão toma banho há mais de um ano e preciso de trocar por um novo e ele aindanão me apareceu à porta. Ele bem que procura e me mostra mas ele acha mesmo quetenho conhecimentos para decidir isso? Enfim lá terei de ser a decidir porquese for mau negócio depois ele iria ter de levar com as minhas reclamações.
Depois existem as outras tarefas, cortar a relva (só nosmeses quentes), trocar as lâmpadas (acho que devem fundir no máximo duas lâmpadaspor ano), fazer pequenos reparos (menos de 1 por mês). Até há bem pouco tempoencarregava-se de sacar séries e filmes mas agora até isso às vezes passa paramim.
Ah já me esquecia faz-me o pequeno-almoço durante a semana, éde louvar assim posso ficar mais 10m na cama e eu sou muito preguiçosa para melevantar.
E é muito bom marido já que prefere sempre a minha companhiaà dos amigos e raramente saí sem mim, se há coisa que o meu marido é, éinteligente e como tal sabe que quando saem só homens a conversa é sempre amesma e não se aprende nada e o homem, como já devem ter percebido, gosta poucode perder tempo.
Às vezes tenho vontade de me transformar um robot e fazertudo perfeitinho, mas depois desce em mim uma displicência que só me apetecefazer o contrário.
Espirito de contrariedade, sempre tive, quanto mais ele reclamamenos eu faço. Se me elogiasse se calhar tinha mais sorte! Se calhar o jantarpassava a ser sempre fantástico. Mas o problema é que posso preparar-lhe omelhor jantar que consiga mas será muito difícil ele não lhe encontrar umdefeito.
O que me conforta? Caramba o homem é tão exigente que paraestar comigo eu mesmo com todas as falhas devo ser muito boa em alguma coisa. Sóque ele esquece-se de me dizer em quê.
Tudo isto para dizer que mudam-se os tempos mas as coisasverdadeiramente estão iguais, já que a maioria dos casos de divórcios eseparações que conheço são por dois motivos falta de dinheiro e reclamação deigualdade por parte das mulheres. Felizmente as mulheres agora têm independênciafinanceira e não precisam de ser escravas domésticas, sexuais e intelectuais.


PS. O meu marido é uma excelente pessoa, carinhoso,preocupado e atencioso o único defeito que tem é mesmo acreditar as obrigações domésticas pertencem à mulher, mas a culpa não exclusiva dele,é da mãe que apesar de lhe ter transmitido que as mulheres devem ser tratadascom todo o respeito se esqueceu de lhe explicar que esse respeito se estende àdivisão de tarefas. A culpa é também minha que compactuo com ele e ainda maisminha quando quero ser eu a fazer tudo e tenho receio de lhe pedir ajuda. Porquepasso a vida a tentar ser perfeita quando não levo jeito nenhum para o ser.

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