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Língua Afiada

Fragmentos #1 - A dor da incerteza da confirmação

Enquanto sinto a água quente a escorrer-me pelas costas penso no quanto quero que o tempo pare, desejo ficar ali até a dor da pele martirizada pelo calor me acordar daquele torpor.

Queria desligar o mundo e desligar-me dele, será possível?

Não creio.

Penso nas mil e uma coisas sem sentido na minha vida e agarro-me àquelas que me parecem dar-lhe todo o sentido.

Percorro mentalmente a conversa à procura de uma resposta, não a encontro, entre os devaneios, os sonhos e as quimeras fica o vazio.

Porquê eu? Questiono-me sem cessar? Terei feito alguma coisa tão cruel que a vida tenha sentido necessidade de me punir tão impiedosamente.

Mais uma vez não tenho respostas.

Perscruto o silêncio, o que estará ele a pensar?

Estará a lamentar ter-me escolhido? Estará a encontrar a melhor forma de partir? Estará apenas triste comigo? Será que me culpa?

Não. Não, eu não tenho culpa.

Não fiz nada para que isto acontecesse, nasci assim.

Penso em Deus, mas há muito que a fé me abandou, ou terei sido eu a abandona-la?

Sinto o vazio novamente, um vácuo no fundo do colo, uma dor inexplicável, contraio-me, contorço-me de tal forma que sou obrigada a sentar-me.

Percebo que a dor é por não conseguir respirar, estou ofegante, soluço convulsivamente, sinto o coração a galopar, os pulmões em esforço, a garganta a fechar-se num grito mudo.

Acalma-te, acalma-te, acalma-te.

Tranquilizo lentamente a respiração, canto uma canção em pensamento, começo lentamente a recuperar a calma e o controlo do meu corpo, respiro profunda e demoradamente dez vezes, enxugo as lágrimas, mordo os lábios, levanto-me, embrulho-me na toalha e saio.

Ele entra e pergunta:

- Estás bem?

- Estou.

Pergunta-me se preciso de alguma coisa, olho-o nos olhos e percebo que estão vermelhos, esteve a chorar sem lágrimas. Reconheço aquele contorno avermelhado, aquele marejar baço no olhar que fica quando as lágrimas não brotam.

- Não preciso de nada.

Quando queria dizer-lhe preciso de ti, preciso tanto de ti.

Não houve necessidade de palavras, ele desvendou nos meus olhos todas as falas presas nos meus lábios trémulos.

Envolveu-me num abraço apertado e disse:

- Estarei sempre aqui, não irei a lugar nenhum.

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