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Língua Afiada

Fragmentos #2 - Os desenhos de Catarina - Capítulo I

Catarina recorda-se de ser diferente desde sempre, lembra-se de como as pessoas ficavam surpreendidas ao ouvir o seu nome e de olharem os seus pais de forma estranha.

Desde de muito pequeno Catarina gostava de brinquedos diferentes, o seu amigo Alex não conseguia entender o motivo de ele não gostar de brincar com blocos de construção e plasticinas, Catarina gostava de desenhar e desenhava sempre uns desenhos estranhos que os amigos não conseguiam compreender.

 

Quando Catarina tinha 11 anos os seus pais foram chamados à escola, o professor relatou-lhes que o filho teria chocado os colegas com desenhos proibidos e que teria de denunciar o caso às autoridades.

- Talvez a culpa seja do nome. - Diz o professor.

O nome Catarina está aprovado na lista de nomes, não é um nome proibido. – Diz o pai y cerrando os punhos.

- Sabem que o Governo teve de alargar a lista de nomes, mas Catarina é um nome muito identificativo na minha modesta opinião.

- O nome é legal, por isso não fizemos nada de errado.

- Mas sabem que Catarina tem andado a desenhar objetos proibidos? E que incentiva as crianças a fazerem brincadeiras proibidas? – Questiona o professor.

Pai y – O nosso filho é criativo, sempre foi, não fizemos nada para incentivar isso na sua personalidade.

- Agora não há nada que possam fazer o caso já foi denunciado, serão chamados a depor, deverão receber a intimação amanhã.

- Chamei-os apenas para não serem apanhados de surpresa.

 

Eli e Dani saíram desolados da reunião, sem saber o que fazer, Catarina tinha sido o nome escolhido pelo bisavó x que antes de morrer manifestou o desenho que o bebé se chamasse Catarina e como o nome tinha sido recentemente aprovado não haviam visto mal nenhum em fazer-lhe a vontade.

No dia seguinte, como vaticinado pelo professor, receberam a intimação para comparecem no próprio dia no Tribunal da Igualdade e da Assexualidade.

Apresentaram-se à hora marcada no balção Defeitos de Assexualidade em Menores, estremeceram ao ler o nome tal como tinha acontecido no dia anterior.

Foram encaminhados para a sala de espera onde aguardaram juntamente com outros pais, todos tinham a mesma expressão cravada no rosto, um misto de receio e inquietude.

- Srs. Eli e Dani façam favor de me acompanhar.

Entraram na sala de audiência, era uma sala pequena onde estavam apenas o Juiz, um médico e um psicólogo.

- Façam o favor de se sentarem - Diz o Juiz.

- A denúncia que recebemos é deveras preocupante. – Continua o Juiz arqueando as sobrancelhas.

- Segundo o professor o vosso filho não só desenha objetos proibidos como relata a sua história e incita os colegas a recria-la.

- Têm incentivado este comportamento?

- Não Magnânima Autoridade Suprema. Nunca incentivamos o nosso filho a ter esse comportamento.

- Compreendo. Se assim é nada têm a temer. Ele partilha o vosso material genético ou tem algum material do Banco do Genoma Humano?

- Partilha o nosso material, não foi necessário recorrer ao banco.

- E vocês partilham o ADN dos vossos pais ou do Banco? E os vossos avós? Sabem esta informação ou é necessário pedir o levantamento do histórico familiar?

- Não há necessidade. – Diz o pai y. - Nós realizamos esse levantamento para a conceção do Catarina, até à geração dos nossos bisavós não foi introduzido nenhum ADN do banco. Anteriormente como sabe essa questão não se colocava.

- O vosso filho teve contacto com alguém da última Geração Natural?

- Não, quando nasceu um dos bisavôs encontrava-se vivo mas morreu ele ainda era um bebé de meses.

- O vosso caso é realmente extraordinário, não tenho conhecimento que existam muitos bebés da 4º Geração Gema que tenham um histórico de ADN sem intervenção do Banco do Genoma Humano. – Batendo com os dedos na secretária.

- Dr. Isi acha que isto poderá ter interferência na deficiência da criança? – Pergunta dirigindo-se ao médico presente especializado em procriação artificial.

- Não, sabemos que com a educação certa, as crianças não têm espontaneamente este tipo de comportamento, algum fator externo o deve ter despoletado.

- Temos aqui um caso delicado, como sabem, temos tido um grupo de loucos que querem destruir a ordem e a paz, autoproclamam-se Os Natura e querem abolir os novos métodos reprodutivos e restaurar, perdoem-me por o dizer em voz alta, a separação dos sexos.

- Sabemos que esse grupo tem tentado reproduzir-se de forma natural e tem procurado manter-se fora do Banco do Genoma Humano. – Perdoem-me mas tenho de perguntar, pertencem a esse grupo?

- Claro que não, recorremos à procriação artificial, apenas não houve necessidade de o bebé ter ADN diferente do nosso.

- Mas sabem que há aqui um padrão, há 3 gerações que as pessoas de ambas as famílias têm conseguido procriar sem ADN do banco, têm de concordar que é muita coincidência.

- Mas é isso mesmo, apenas uma coincidência.

- Perdoem-me a interrupção. – Diz Dr. Francis, o psicólogo destacado para o caso.

- Os pais não revelam sinais de estarem a mentir. Talvez a criança tenha tido contacto com algum objeto, livro, filme que tenha despertado esse instinto nela.

- Em casa não temos nenhum item da lista proibida. – Diz rapidamente o pai x. – Não vejo como Catarina possa ter tido contacto com isso.

- Sabemos que andam a recrutar crianças e pelo histórico do Catarina, podem tê-lo escolhido.

- Teremos de interrogar e estudar a criança. – Conclui o Juiz.

- É mesmo necessário? Conseguimos educa-lo em casa para que isto não volte a acontecer. – Diz o pai y.

- Impossível. Devem preparar-lhe uma mala de roupa suficiente para um mês e entrega-lo aqui amanhã de manhã às 8h.

 

Engoliram ambos em seco sabiam que isso significaria que o seu filho iria ser estudado, interrogado à exaustão para perceberem o motivo do desvio comportamental, deveriam ter estado mais atentos, deveriam ter-lhe explicado que não podia fazer aqueles desenhos na escola.

Chegaram a casa e ficaram horrorizados, toda a casa tinha sido vasculhada, inspecionaram tudo até ao mais ínfimo detalhe. Eli desata a chorar, Dani tenta reconforta-lo em vão.

- Dani devem ter encontrado as roupas de Catarina, as roupas proibidas. - Diz Eli em pánico.

Dani corre ao intercomunicador e digita o número da câmara da escola, era hora da aula de matemática aplicada, perscruta o espaço à procura do filho e nada, recua para a aula de física, não havia sinal de Catarina, recua para a aula de Química quântica e vê o filho a ser retirado da sala de aula pela polícia especial do genoma, conseguiu visualizar o registo mesmo antes de receber no ecrã a informação, o vídeo que procura não se encontra disponível.

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