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Língua Afiada

Há um gato pardo no telhado

El paraiso de los gatos_Ana Juan.jpg

 

Na beira do telhado vermelho senta-se um gato pardo de olhos pequeninos, altivo, elegante, caçador e mirone. Desafiando as leis da gravidade, pula de telhado em telhado, arrisca a copa de uma árvore, desce habilmente cravando as unhas fortes na casca do pinheiro, salta e aterra majestosamente.

Avista uma borboleta precipita-se a correr na sua direção, a borboleta voa, o gato pula de patas abertas tentando tocar-lhe, ela voa mais alto e esquiva-se, o gato abandona-a e resolve seguir a lagartixa que ao percebe-lo se escondeu.

De baixo da pedra, a lagartixa aguarda que o gato se canse de esperar, ele finge cansar-se, perde a posição de ataque, deita-se na erva fofa e cerra os olhos, a lagartixa espreita, recolhe-se, volta a espreitar e decide aventurar-se.

O gato deixa-a sentir-se segura, deixa-a avançar confiante e quando ela já se encontra a uma certa distância onde se julga a salvo, o gato faz um voo e aterra com as patas dianteiras na sua cabeça com uma precisão inacreditável, a lagartixa sabe que foi apanhada, finge-se de morta, mas sabe que o gato não irá simplesmente larga-la, aguenta estoicamente cada golpe desferido pelas suas unhas afiadas, sente a pele grossa e seca a ser trespassada pelos dentes finos e aguaçados, é atirada violentamente contra a terra, repetidamente, mas mantém-se inerte, aparentemente morta, mas vividamente ferida. Finalmente o gato cansa-se e abandona-a à sua sorte, ela permanece jazida no chão por longos minutos, o tempo que julga suficiente para que o gato prado a esqueça.

O gato dorme profundamente ao sol, parece inofensivo assim tão sereno, é apenas uma bola de pelo fofo, sem dentes e sem unhas. A lagartixa corre até ao seu esconderijo e agradece por estar viva, as feridas sararão a seu tempo.

O gato prado acorda, espreguiça-se, rebola um pouco o dorso na terra, estica-se e passeia pelo jardim enfadado, não demora muito tempo a avistar nova presa, um pardal que saltita entre os arbustos alegremente, o gato aproxima-se silenciosamente, aninha-se junto ao arbusto e segue o pardal apenas com os olhos, parece hipnotizado, mas num gesto inesperado, de um salto abocanha o pássaro que apanhado desprevenido definha espetado pelos dentes.

O gato sacode o pequeno pardal com violência, não quer brincar, quer matar, larga-o quando pressente que já não respira, dá-lhe patadas violentas, não responde, retira-lhe com perícia as penas e come a sua carne tenra e macia. No final do banquete restam apenas penas.

O gato refastela-se ao sol, lambe, limpa e amacia o pelo, está de barriga cheia, inspeciona cada centímetro de pelo, lustre todos os fios. Está completamente dedicado ao banho quando escuta um movimento, num ápice coloca-se de pé e pula em direção ao ruído, tem algo de baixo das patas, levanta uma pata, observa o que apanhou, é a lagartixa, que em vão se finge de morta, pois o gato crava-lhe os dentes na cabeça, agita-a com força, deixando-a cair para logo de seguida a atirar de pata em pata, esmaga-a, mata-a e deixa-a ali inerte a esturricar a sol.

Levanta-se e caminha elegantemente até ao pinheiro, escala o tronco com agilidade, salta de ramo em ramo e quando está a uma altura suficiente salta para o telhado, deixa-se ficar na extremidade, estica as patas dianteiras, estica as patas traseiras, enrola-se e adormece.

E há um gato pardo no telhado impávido e sereno enquanto a vida continua no jardim, a borboleta terminará o dia, mas não viverá para ver o amanhecer, a lagartixa foi recolhida pelas formigas e as penas do pardal foram levadas pelo vento.

Há um gato pardo no telhado.

 

Ilustração Ana Juan

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