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Língua Afiada

Ler comentários nos jornais

É um passatempo parvo, só serve para perder ainda mais a fé nas pessoas e constatar que se está a perder uma qualidade imprescindível para a sobrevivência da nossa espécie, o diálogo.

Não o diálogo de eu falo agora, falas tu depois, esse também porque se fosse possível as pessoas escreveriam como falam todas ao mesmo tempo, refiro-me ao diálogo que nos enriquece, que nos proporciona troca de conhecimentos e pontos de vista, onde mesmo existindo uma opinião diferente existe cordialidade e respeito.

Entendo que alguns temas nos alterem o espírito, pessoalmente, não suporto comentários machistas, racistas e xenófobos, salvo essas situações e, apesar de não gostar que me contradigam, sei respeitar uma opinião que apresente argumentos, que seja minimamente fundamentada.

 

O problema é que raramente vejo as pessoas apresentarem argumentos e quando aparece alguém ponderado que faz um comentário pertinente acontecem duas situações: é mal interpretado e recebe (não) argumentos insultuosos; é acusado de se achar intelectualmente superior.

É realmemente complicado explicar algo a alguém que não quer entender, por mais paciência e diplomacia que se tenha a pessoa irá sempre refutar a nossa opinião porque não quer sequer dar-se ao trabalho de tentar entender.

A par da falta de diálogo, existe uma incapacidade de compreensão incrível, não é um problema de interpretação, é mesmo um problema de compreensão, o que acontece quando alguém não compreende um texto? Faz a sua própria interpretação e ainda faz extrapolações e ilações e escrevem nas entrelinhas, o que é realmente estranho.

 

Pois que a única coisa que se recordam das aulas de português é a decomposição e análise dos textos: Porque é a descrição do Ramalhete é tão importante no livro os Maias?

Tínhamos uma ideia de resposta, uma linha orientadora dada por estudiosos e entendidos em literatura, mas ninguém sabia exatamente as razões, se estivéssemos a estudar Fernando Pessoa ou algum dos seus heterónimos, as deduções complicavam-se ainda mais.

 

Recordo-me que essas ilações eram uma das maiores dificuldades dos alunos a português, tal como em filosofia, existia alguma dificuldade de abstração do seu Eu para se projetarem nas opiniões dos autores, um exercício que curiosamente se faz nas formações de marketing e vendas, porque será?

É por isso estranho que hoje nos comentários existam tantas análises a textos, as que fazem dos blogs ainda entendo, bons ou maus, conhecidos ou incógnitos, somos autores e os textos deixam sempre margem para a ilação, mas de notícias?

 

Não são deduções como as que fazíamos na escola, para essas tínhamos de nos colocar de parte e não só calçar os sapatos do autor, como caminhar pelas ruas dos seus pensamentos, as novas ilações são feitas com base no Eu, no que Eu suponho, no que Eu penso, no que Eu acho, no que Eu sinto, no que Eu considero certo.

Não importa o tema, todos têm uma opinião formada (formatada) e inalterável, mesmo quando não entendem sequer o que está em discussão.

 

A notícia do idoso de 101 anos que casou com a emprega de 52 anos foi uma dessas notícias em que das parcas linhas escritas sobre a vida do senhor, da sua recente esposa e dos seus filhos foram suficientes para que todos soubessem em detalhe as relações da família.

Não deixa de ser curioso ver que se critica sempre quem casa com uma pessoa mais velha quando esta tem posses, fala-se logo no amor pelo dinheiro, mas quando existe uma possível neglicência por parte dos filhos, essa crítica passa de imediato para os filhos, a pessoa mais nova passa de aproveitadora e alpinista social para heroína, salvadora da pátria, tudo para que os filhos não fiquem com a herança do pai.

Mais interessante ainda é ver que todos são entendidos em leis, mesmo que não tenham a mais pálida ideia de como se faz a divisão de uma herança todos pretendem ser advogados da sua razão.

 

Não faltará muito para que todas as profissões sejam extintas, já que todos parecem entender de tudo e saber fazer tudo, o que não sabem o Google explica, qualquer um é advogado, médico, professor, engenheiro, arquiteto, designer, gestor, basta querer, nem sequer é preciso saber.

Talvez isso explique as casas com divisões impensáveis, doentes devido à automedicação, pais que dizem aos filhos que os professores estão errados, pessoas que não fazem valer os seus direitos porque acham que não vale a pena ou porque acham que conhecem a lei, produtos e serviços com logótipos e marcas pavorosas e empresas em falência técnica por má gestão.

 

Num país onde todos parecem perceber de tudo, onde todos têm opinião sobre tudo, onde todos sabem inquestionavelmente tudo, ninguém sabe comunicar, a comunicação que é a base da civilização está doente, seja pelos constantes erros ortográficos e gramaticais que proliferam por todo lado, seja pela inabilidade de dialogar sem recorrer ao insulto fácil, à prepotência e à arrogância, o respeito, a consideração e o discernimento caíram em desuso.

 

Não existe comunicação, não existem diálogos, apenas monólogos de diferentes intervenientes, discursos que não são ouvidos, muito menos percebidos, batem de frente com o discurso do oponente, e assim sem se saber bem como estão várias pessoas a falarem do mesmo tema sem estarem realmente a falar, elas falam, mas não comunicam.

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