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Língua Afiada

No supermercado # 1 - A senha da charcutaria

A propósito do texto de ontem em conversa com a Sofia lembrei-me deste episódio passado no supermercado, uma daquelas cenas que envergonham as pedras da calçada e que uma pessoa tem de respirar fundo e cerrar os lábios para não falar ou rir às gargalhadas.

No texto de ontem referia-me à interação com pessoas que têm importância na minha vida, quando as situações visam estranhos ou conhecidos só tenho duas reações responder de imediato ou rir, e como me rio de algumas pessoas.

 

Voltando ao episódio, os supermercados são um local excelente para se realizar estudos sociais, o comportamento dos sujeitos é nu, sem filtros, há qualquer coisa no ambiente que faz com que as pessoas sejam primitivas, talvez sejam os corredores exíguos que nos fazem sentir encurralados e com vontade de fugir dali o mais rapidamente possível.

Era sexta ao final da tarde, depois de uma semana de trabalho só queria chegar a casa e gozar de um fim-de-semana tranquilo, mas como gosto de ter produtos frescos em casa passo sempre pelo supermercado para fazer as compras da semana.

O meu plano é sempre o mesmo, dirijo-me de imediato para a zona da charcutaria para tirar a senha e ver se tenho 2 ou 20 pessoas à minha frente, nesse dia a minha senha era a 58 e o número que figurava no placard era o 45, mais de dez pessoas para serem atendidas antes de mim.

Sem problemas, a zona da fruta e dos legumes é mesmo em frente pelo que começo a escolher maçãs, laranjas, alface, batatas, até que ouço a menina da charcutaria a chamar números a uma velocidade estonteante, pouso as batatas, deixo o cesto no meio do caminho e corro até à charcutaria enquanto o placard muda do 54 ao 61 em menos de 30s, estava muito perto, mas num supermercado lotado percorrer 2m pode ser uma aventura.

 

Quando lá cheguei a menina da charcutaria estava a atender o número 61, dirigi-me a ela e disse-lhe:

- Tenho o número 58, estava a controlar mas passou os números tão rápido que não consegui chegar aqui.

A menina sorriu e disse: Atendo-a a seguir.

Foi o suficiente para uma Sra. que estava ao meu lado rodar a baiana e gritar

– Esta menina (Eu) não vai à minha frente. Quem é que pensa que é?

- Também vou rodar a loja toda e depois chego aqui e sou atendida.

- As pessoas têm de esperar aqui pela sua vez, não vai à minha frente.

 

Deviam estar umas quatro pessoas na situação dela, ninguém reclamou só ela.

A funcionária explicou-lhe que as senhas existiam para isso mesmo para que as pessoas não precisassem guardar a vez e que existia tolerância de dois números ou de duas pessoas atendidas.

Eu não disse nada limitei-me a esperar que a funcionária servisse quem estava a servir até que me servisse a mim, mas a outra não se calava. Como vi que teria problemas, disse à funcionária:

- É melhor chamar o gerente, eu vou ser atendida a seguir, mesmo que a tolerância seja de 2 números, só atendeu uma pessoa depois do meu número e passou 7 números em 30 segundos, se eu não tivesse visto tirava outra senha como vi terá que me atender tal como disse que faria.

O escândalo da outra:

- Também quero que chame o gerente, quero o livro de reclamações.

Chega o gerente que perante a situação chama outra funcionária e manda servir ambas ao mesmo tempo. Só havia um pequeno problema a queixosa tinha 4 pessoas à frente dela e recusava-se a ser atendida antes delas, mesmo elas não tendo reclamado porque naquela altura já toda a gente queria era que ela se calasse.

 

Já impaciente disse ao gerente:

- Não me importo com quando é que ela é atendida eu vou ser atendida agora ou quem escreve no livro de reclamações sou eu.

A funcionária começa a servir-me a outra continua a barafustar, eu começo a rir-me, a minha vontade era dar gargalhadas mas limitei-me a sorrir, a funcionária também sorria, mas disfarçadamente. A outra aceita ser servida e continua a reclamar eu continuo a rir, ela fita-me pronta a explodir e rio ainda mais.

No fim limito-me a dizer.

- Tanta indignação e a Sra. é que acabou por passar à frente de 4 pessoas, até parece que fez de propósito para passar à frente.

Nem preciso de descrever o rosto dela, vermelha como um tomate acho que consegui ver espuma a sair-lhe por entre os dentes cerrados.

 

Até hoje não sei se a tolerência é apenas de dois números ou de duas pessoas, mas depois da funcionária me dizer que me ia atender não ia tirar outra senha muito menos iria dar esse gosto a uma cliente arrogante e mal-educada.

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