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Língua Afiada

O meu puzzle

Quando tudo parece alinhar-se para formar o quadro perfeito, mas há uma peça que não tem lugar, não conseguimos resolver o puzzle.

As adversidades da vida fazem-nos crescer, amadurecer e ganhar resistência, moldam-nos para que a massa de que somos feitos endureça, fique mais rígida para resistir aos mais violentos golpes sem quebrar.

Somos capazes de resistir a muito mais do que imaginamos, a capacidade de recuperação do ser humano é infinita, só precisamos de duas coisas amor e determinação.

Somos capazes de ultrapassar dificuldades, dilemas, desgostos, erguemo-nos das cinzas, das tragédias, do nada, mas não fomos feitos para esperar, não sabemos lidar com a incerteza, com o acaso e com a dúvida.

Uma espera, uma angústia, uma incerteza, uma dúvida, qualquer sentimento que se transforme em ansiedade é o mais terrível fardo de carregar, é um nó impossível de desfazer, não há fio condutor, a certeza de não saber é a pior das certezas, só comparável à angústia da certeza da morte.

Não falamos da morte porque não suportamos a certeza que ela um dia virá sem nunca sabermos quando, é um saber sem saber, um facto sem data, impossível de situar, é um paradoxo.

O puzzle é um quadro bonito, feliz, sereno, levemente agitado apenas pelos pequenos distúrbios do dia-a-dia, mas falta uma peça, que por mais que tente, não consigo encaixar, não consigo completar o quadro.

Todas as peças que fui posicionando gentilmente acabaram por se revelar maravilhosas, livrei-me das peças gastas, das disformes e das que me faziam sentir triste, selecionei apenas as que interessavam, e preparei a vinda de peças futuras, pois o puzzle, o meu puzzle bem sei nunca estará completo, nunca será definitivo. Mas há uma peça que não encaixa, uma peça que não tenho previsão de encaixar.

Esta incerteza, esta ansiedade silenciosa, é como um poço fundo que me suga toda a vitalidade, retira-me vontade, criatividade, iniciativa, deixa-me cansada, exausta.

Que puzzle bonito! Penso olhando para ele, porque é que esta peça não se enquadra?

Já tentei coloca-la de todas as formas, já tentei esquece-la, arruma-la numa prateleira, mas ela assombra-me à noite, à socapa, grita para ser colocada, mesmo sem lugar.

A vida tem destas coisas, quando tudo parece que encontrou lugar, quando tudo parece fazer sentido, quando estamos preparados para colher os frutos de anos de preparação e dedicação, eis que falta uma peça para completar o puzzle e somos incapazes de desfrutar da nossa obra de arte.

Num momento estamos estasiados com a conquista, no seguinte, derrotados com a falha, um carrossel de emoções desgastante e enlouquecedor.

Assim é a vida, incerta e indefinida, felizes dos que ainda acreditam que é possível planeá-la, desenhá-la, dividi-la em pequenas peças que simplesmente precisam de colocar na ordem e no local certos para pintarem o seu quadro.

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