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Língua Afiada

O olho gordo

Há pessoas que por melhor que estejam na vida e por mais conquistas que obtenham têm uma espécie de acidez constante que não as deixa desfrutar plenamente as suas vitórias.

Não sei se será uma sede constante de poder, uma ambição desmedida ou uma necessidade constante de se mostrarem melhores do que quem os rodeia, os motivos podem ser diferentes mas a motivação parece ser igual a todos, a necessidade de provarem alguma coisa, não a eles próprios mas aos outros.

 

Esta incapacidade de se sentirem plenamente felizes, esta insatisfação impossível de satisfazer anda por norma de mãos-dadas com a inveja, independentemente de tudo o que conseguiram alcançar há sempre algo que vão ver na vida dos outros que os irrita, faz-lhes uma espécie de cócegas no estômago, que se nuns dias é apenas um incómodo, noutros revolve-lhes mesmo as entranhas causando-lhe uma indisposição impossível de controlar.

 

O que essas pessoas não percebem é que o que lhes causa impressão é precisamente o contrário daquilo que as motiva, é a capacidade de festejar pequenas conquistas, conviver pacificamente com as pequenas derrotas e encarar a vida com a agilidade necessária para dosear as doses de alegria e as doses de tristeza, alavancando a felicidade e subestimando a tristeza, nem que para isso seja necessário alterar e ajustar objetivos, estabelecer prioridades, abicar de alguns sonhos e definir novas metas.

Para ser feliz é preciso uma certa leveza de espírito, um determinado sentido de humor, um pouco sarcástico, por vezes inconveniente e pragmatismo, saber escolher as batalhas que devemos travar e as que colocar de parte, aceitar o que não pode ser mudado é o caminho mais fácil para a serenidade que nos ajuda a ser felizes.

 

Todos temos os nossos dilemas, as nossas quimeras, os nossos problemas, sejamos sinceros não há vidas perfeitas, se relegamos as nossas conquistas para segundo plano porque nem tudo é perfeito, estamos a impedir-nos de ser felizes.

Se uma pessoa bem-sucedida se foca no exterior, na felicidade dos outros nunca poderá ser feliz, mas o olho gordo, maior do que a barriga é enganador, é tentador invejar aquilo que não se tem achando que esse é o melhor caminho para o conquistar, quando o caminho é o inverso, a felicidade conquista-se sem querer, sem pensar, sem dar muita importância, desligando-nos das mesquinhezes do mundo e apegando-nos aos sentimentos, aos pensamentos, aos valores, ao que realmente nos preenche.

 

O problema destas pessoas é terem mais olhos que barriga, já diz o ditado popular, não é a colocar no prato mais do que conseguem comer, é quererem alcançar mais do que conseguem absorver e processar com o estômago da mente, esse não dilata, tende mesmo a encolher com a idade.

 

O olho gordo engorda a tristeza, a tacanhez, a pobreza de espírito, incapacita qualquer degustação prazerosa por melhor que seja a carta servida, por mais famoso que seja o Chef, por mais exclusivo que seja o restaurante, por mais caro e mais prestigiado, até as trufas mais raras se entaliscam na garganta.

Há sapos difíceis de engolir, depois há os impossíveis, a inveja é um deles, não se mastiga, não se engole, não se dirige, é ácida, corrosiva e permanente, aloja-se ali a nível do esófago e espelha-se num rosto raivento e num sorriso postiço, impossíveis de disfarçar.

 

Há nas pessoas invejosas uma sombra, uma mancha persistente impossível de limpar, nem com todo o sucesso do mundo, não há fome que nunca acabe, nem sede que nunca termine, um dia tudo acaba, melhor passar a vida satisfeito do que uma com fome e sede impossíveis de saciar.

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