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Língua Afiada

O racismo está na cabeça das pessoas, mas alguém disse o contrário?

A publicidade da H&M sobre a qual escrevi aqui, teve dois tipos de leitura bastante opostas, um grupo de pessoas condenou fortemente a foto pelo teor racista da mensagem e outro grupo considerou que o racismo reside na cabeça das pessoas e só quem é racista ou está demasiado centrado nisso é que vê a foto como racista.

Na minha opinião só quem desconhece a associação profundamente enraizada no racismo que apelida indivíduos de raça negra de macacos é que pode considerar este caso um não tema ou uma polémica desnecessária.

Como branca não terei legitimidade para me dizer ofendida, mas não preciso de o fazer foram várias pessoas, algumas bem conhecidas, negras que o fizeram no primeiro instante, condenando inequivocamente a imagem, se eles se sentiram ofendidos quem somos nós para dizer que não têm esse direito?

 

Tenho a certeza que todos os que se insurgiram e que até deram exemplos de ofensas que receberam com o termo macaco só se sentiram magoados porque têm o racismo na cabeça, na situação deles também eu teria, quem lida diariamente com esse preconceito não tem como contorná-lo.

Existem palavras que carregam em si muito mais significado do que aquele que o dicionário explica, macaco é uma dessas palavras, não é o único animal que serve de insulto, cabra, vaca são nomes que não queremos ver estampados numa camisola usada por uma mulher, mas ovelha já não parece ferir suscetibilidades.

Compraria uma camisola que dissesse “ Ovelha mais fofa”, mas não compraria uma camisola que dissesse “ A cabra mais fofa” e mesmo assim estes exemplos estão longe de serem tão maus quanto o da H&M.

 

É impossível desassociar a imagem do menino negro com aquela camisola de racismo, é impossível porque é uma relação demasiado forte e terrível que fez e continua a fazer sofrer demasiadas pessoas.

Claramente que quem nunca foi vítima dessa comparação se esquece facilmente da associação, mas isso não quer dizer que ela não exista e que não deva ser levada em consideração, especialmente por uma marca que comunica para milhões de pessoas e que como tal tem o dever e a responsabilidade de escrutinar tudo o que comunica.

 

Este caso é como as piadas racistas, as pessoas que as contam não são necessariamente racistas, contam-nas apenas porque lhes acham piada, só que com ou sem intenção cada vez que alguém conta uma piada racista está a ajudar a que o preconceito se propague e prolongue no tempo, podemos não ter essa consciência, mas cada vez que se conta uma anedota contribui-se para a estigmatização da raça negra como inferior porque particamente todas são à volta desse tema, ridicularizam uma raça inteira de forma sobranceira e petulante para gaudio dos brancos.

 

O racismo está realmente na cabeça das pessoas porque existem pessoas racistas que não demoram a julgar, a rir e a espezinhar os negros só pela sua cor, seriam essas que ao verem um menino negro com a dita camisola ririam na sua cara, apontariam o dedo e fariam piadas com a frase.

As pessoas que não são racistas só podem ter dois tipos de comportamento não se aperceberem da situação e seguirem com a sua vida ou perceberem que realmente a palavra macaco tem uma herança pesada e que colocar um menino negro a usar uma camisola com a frase “o macaco mais fixe” é coloca-lo numa posição vulnerável e é dar armas aos racistas que aproveitam todas as ocasiões para manifestarem o seu ódio.

 

Nunca fui vítima de racismo, mas já fui vítima de preconceito, sei que ele existe e sou incapaz de ignorar e desvalorizar esta situação, porque não é justa, porque por cada pessoa que só vê um menino giro há uma que se sente magoada e outra que se prepara para a atacar, é uma questão de justiça, de proteção, de não passar a mensagem errada. Não temos obrigação de passar a mensagem certa, mas temos obrigação de não passar mensagens erradas ou dúbias.

O racismo está na cabeça das pessoas, em demasiadas, porque há demasiadas pessoas racistas e demasiadas pessoas vítimas de racismo.

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