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Língua Afiada

Os Portões da Vida

Há alturas na vida em que procuramos incessantemente um caminho, uma luz, algo que nos guie na direção certa.

Procuramos incessantemente oportunidades nas conversas, indagamos possibilidades nas coisas banais, conjeturamos hipóteses nos sonhos, pesquisamos soluções nas entrelinhas, investigamos a fundo a teoria, inquirimos os desejos e as preferências, dissecamos a fundo os estudos, sondamos e medimos as aspirações, compilamos os dados e as projeções na esperança de deslindar o caminho.

 

Quando a vida nos fecha uma porta, diz o ditado que nos abre uma janela, a janela a saída de emergência, o local por onde podemos escapar em caso de perigo, a luz que ilumina a escuridão que a porta encerrou.

Procuramos sofregamente essa janela, essa luminosidade esperançosa, na expectativa de encontrar a força que precisamos para seguir em frente, o desenho do rumo a tomar.

Perscrutamos as ruas e as ruelas, os cantos e os recantos, as travessas e as vielas na esperança de vermos uma janela iluminada e seguimos às escuras palmilhando a calçada que é cada vez mais suja e sinistra.

Mergulhamos na escuridão tateando com as pontas dos dedos o calor, expondo a face confiando que seja afagada pelo brilho dos pontos de claridade que se vão apagando à medida que percorremos o caminho cada vez mais escuro, fechado e velado.

Escorregamos na lama pegajosa num equilíbrio precário, cresce em nós a vontade de bater novamente à mesma porta, aquela em que sabemos não ser bem-vindos.

Endireitamos as costas, espetamos o nariz numa atitude desafiante e seguimos caminho.

 

Paramos para descansar numa praça, está silêncio, há uma pequena lamparina que desafia a escuridão da noite, temos luz suficiente para olharmos em redor.

No meio da penumbra, perfilam-se diante de nós uma dezena de portas, todas alinhadas, todas exatamente iguais, todas escondem uma possibilidade, não sabemos qual, não há luz para perceber a quem pertencem.

Todas parecem interessantes, mas ao mesmo tempo todas parecem dúbias e intimidantes, quedamos ali por algum tempo no anseio de perceber se alguma esconde o que desejamos.

 

Subitamente sentimos um ar cálido nas costas que nos toca suavemente, quase reconfortante, viramo-nos e não queremos acreditas no que os nossos olhos enxergam.

Um colossal portão aberto para um caminho ladeado de sebes e flores, candeeiros alinhados numa simetria perfeita flanqueiam todo o percurso até à entrada de uma mansão, à porta alguém nos acena, vislumbramos um lustre a refletir mil reflexos de luz dourada.

Levantamo-nos de um pulo, corremos para o portão que vê-mos começa lentamente a fechar-se, corremos com mais força, gritamos no vão esforço que alguém nos ouça, mas está tão longe ainda e quanto mais corremos mais o portão se fecha.

Deixamos de ver o reflexo do lustre, a porta foi fechada, corremos num esforço final mas quando chegamos afogueados ao portão este já está trancado.

Ficamos impotentes ao ver os candeeiros apagarem-se dois a dois, cada vez que um par se apaga perdemos mais um pedacinho da esperança de entrar naquela sala iluminada, apagam-se todos, ficamos às escuras.

 

Muitas vezes perdemos tempo à procura de uma janela quando temos um portão escancarado à nossa frente.

Percorremos ruas quando devíamos percorrer avenidas.

Na busca por uma lâmpada acesa esquecemo-nos de procurar o sol.

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