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Língua Afiada

Páginas soltas #1

Para a Mula que para me inspirou a desanuviar...

 

Não senti nada, senti apenas que estava a ser levada lentamente para longe, não sentia dor, medo, pena ou desespero, apenas um ligeiro desapego à medida que me tornava mais leve.
Senti-me então a flutuar, a planar, o vácuo deu lugar à luz e comecei a sentir-me inundada de paz. Não consegui ter noção do tempo nem do espaço, não sei quanto tempo passou.
Despertei e percebi que estava morta, vi-me no meu funeral, percebi aí que deveria estar estado em transe há bastantes horas.
Mas mais uma vez não senti dor, vi a minha família e amigos a velar-me tristes, mas não desesperados, tinha chegado a minha hora, tinha vivido uma vida longa, plena e feliz. Senti-me preenchida, afaguei-lhes um a um o rosto num gesto simbólico.
Demorei-me a abraçar os meus filhos e sei que naquele instante, embora sem lhes tocar realmente, eles sentiram um calor e um reconforto que nunca esqueceriam ou saberiam explicar.
Afastei-me lentamente e deixei-me guiar por algo que me chamava, à medida que me despedia das coisas terrenas mais forte era esse clamor, algo familiar me esperava de braços abertos, era ele, era o meu amor.
Apressei-me, os meus pensamentos fluíram para os seus. Reencontramo-nos, não os nossos corpos, mas as nossas almas, que estavam agora mais juntas, mais interligadas que nunca.
Afinal sempre soube que era a minha alma gémea e agora mais do que saber, sentia, a união a comunhão, o amor. Estávamos juntos e em paz.

 

 

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