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Língua Afiada

Livros de Atividades da Porto Editora – Conclusão

Escrevi o primeiro texto sobre o assunto antes da publicação do relatório, antes de o fazer procurei informação sobre os livros, uma vez que não tive oportunidade de os desfolhar.

Agora após ler o relatório da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género (GIG) a minha opinião mantem-se, não concordo com o estereótipo de associarem as atividades das meninas às tarefas domésticas, como referi no primeiro texto, mas não vejo nenhum motivo que justifique a retirada dos livros do mercado.

 

Os argumentos apresentados pela CIG foram três:

Segregação.

A comissão diz que o facto de existirem dois cadernos um para menina e outro para menino os livros estão a negar a possibilidade de as meninos e os meninos de acederem às atividades do outro sexo.

A considerarmos esta premissa verdadeira teremos de eliminar toda e qualquer situação que impeça que uma menina ou menino, homem ou mulher de usufruir de uma publicação, espaço ou objeto, desde a sua conceção á sua utilização.

Isso implica deixarmos de ter por exemplo brinquedos que nas suas embalagens tenham a imagem de uma menina ou de um menino, impedindo assim que as meninas brinquem com brinquedos de meninos e vice-versa.

Transpondo esta premissa para todo o universo das crianças, deveremos também eliminar as roupas destinadas apenas a um género uma vez que constituem uma segregação, podendo até ser considerado como discriminação não existirem vestidos e saias na secção de roupas dos meninos.

 

Reforço dos estereótipos

A CIG diz que as ilustrações reforçam os papéis estereotipados de mulheres e homens na sociedade, é verdade que as ilustradoras poderiam ter optado por usar temas mais abrangentes, remeter as meninas para o universo do lar e os meninos para a aventura é de certa forma dizer-lhes que esse é o seu lugar.

Mas não terão sido escolhidos estes temas por serem estes temas os relacionados com as atividades que as crianças desempenham na sua vida real?

Conhecerão os representantes da CIG crianças dos 4 aos 6 anos? Eu conheço e posso dizer que a sua maioria gosta exatamente dos temas que as atividades propõem.

Tal como referi anteriormente isto não é reforço de estereótipo é marketing, é adequar o produto ao seu utilizador.

Se a diferenciação de uma publicação por sexo é um estereótipo teremos então de acabar com todas as publicações que têm como público alvo só homens ou só mulheres.

Acabem-se já com as revistas femininas que definem as mulheres como fúteis, consumistas estouvadas, sonhadoras e ocas contribuindo assim para o seu estereótipo.

Acabem-se com as revistas dos jornais desportivos que definem os homens como fanfarrões, bêbedos, arruaceiros, fanáticos e ocos contribuindo assim para o seu estereótipo e deixem de lado as capas de mulheres seminuas.

 

Diferenciação por sexo do grau de dificuldade das atividades

Nos livros, segundo a CIG, comparando o mesmo tipo de exercícios existem seis atividades mais difíceis para meninos e três mais difíceis para meninas, ou seja, no fundo existem apenas três atividades mais difíceis para os meninos. Não consegui saber qual o número total de exercícios, mas é bem mais do que seis, será o rácio de três suficiente para se afirmar que as atividades no seu total são mais difíceis para os meninos?

Na minha opinião não, especialmente depois de saber que as ilustrações foram realizadas por pessoas diferentes, que ilustraram provavelmente sem terem conhecimento da ilustração semelhante constante do outro livro.

 

O meu primeiro texto era principalmente sobre a exagerada indignação e divulgação do tema, bastou uma simples pesquisa para verificar que os motivos para tal indignação eram redutores e insignificantes tendo em conta o universo das crianças dos 4 aos 6 anos, mas foram distribuídos até à exaustação pela comunicação social sem qualquer análise ou estudo com o intuito de gerar cliques, comentários, partilhas e visitas.

 

Este texto é sobre outra coisa, é sobre os limites, sobre o bom senso, sobre o que deve ou não ser escrutinado pela chancela do Estado.

Analisando os factos a recomendação da CIG é mais um ato de censura do que de defesa, é levar ao extremo o politicamente correto, sem ter em conta os hábitos e acima de tudo as preferências das crianças, retirando completamente a autoridade aos pais e educadores que têm o direito de escolher o que dar aos seus filhos e interferindo com a liberdade editorial de uma editora.

 

Já alguém parou para pensar o que isto significa? O que este ato representa? O exemplo que estabelece?

Deverá o Estado interferir nas publicações privadas fora do âmbito previsto na lei?

 

Não, não deve, porque isso significa regredir e não podemos enaltecer e promover a igualdade dos géneros atentando contra o primeiro valor a ser defendido, a liberdade, a liberdade de expressão, a liberdade de publicação, a liberdade de escolha, a liberdade de produção.

 

O mundo não deve ser dividido entre cor-de-rosa e azul, mas também não é preto e branco, é uma mancha colorida que toca muitas vezes nos extremos das duas cores, não desejemos agora que o mundo seja de uma só cor, renegando o arco-íris.

Os portugueses não têm dinheiro para ter uma vida digna

Escrevi um texto sobre a falta de dinheiro dos portugueses em Janeiro de 2006, após ler uma notícia que referia que “Um casal de 40 anos com dois filhos um de 14 e outro de 10 necessita de 766 euros mensais para ter uma “alimentação digna”.

Este valor é assustadoramente alto para os ordenados que se praticam em Portugal, tendo em conta os restantes encargos de um casal, grande parte dos portugueses não tem dinheiro para ter filhos.

 

Ontem, após ler várias notícias sobre as conclusões do estudo "Rendimento Adequado em Portugal - quanto é necessário para uma pessoa viver com dignidade em Portugal", recordei de imediato esta problemática.

Segundo o estudo, o rendimento mínimo adequado para indivíduo em idade ativa é de 783 euros líquidos, o que significa que um indivíduo que aufere o salário mínimo recebe apenas 74% do que necessita para ter um padrão de vida digno.

Para um casal em idade ativa com um filho de 12 anos, o valor de referência para o rendimento mensal adequado é de 1796 euros. Se ambos auferirem o salário mínimo, mais benefícios em espécie, o seu rendimento mensal é de apenas 67% do rendimento adequado. Percentagem que fica em 60% no caso do valor mínimo do subsídio de desemprego e em apenas 33% no caso do rendimento social de inserção.

 

Para definir o padrão de vida digno, o estudo partiu da construção de orçamentos de referência para cada tipo de família em concelhos não atípicos de Portugal, no cálculo foram incluídos custos com habitação, alimentação e vestuário, tudo o que é necessário para um cidadão ter saúde, segurança, relacionar-se com os outros e sentir-se respeitado e integrado na sociedade.

 

A conclusão mais preocupante do estudo é que de uma forma geral o valor calculado pelas estatísticas oficiais de Portugal para o limiar da pobreza “está bastante abaixo daquilo que foi estimado como rendimento adequado para os diferentes casos apresentados" segundo o apurado no estudo.

O relatório "sugere um desajustamento das escalas de equivalência utilizadas na observação da pobreza, distorcendo o perfil da população em situação de pobreza e subestimando em particular o cálculo da pobreza infantil em Portugal".

 

Resumindo, segundo o estudo tudo estará mal calculado, o ordenado mínimo e consequentemente o subsídio de desemprego, as reformas mínimas e as prestações sociais.

 

Ao longo dos anos tenho percebido que tenho perdido poder de compra, e como eu várias pessoas, a classe média está a diminuir vertiginosamente, pois não existiu um aumento de ordenados proporcional ao aumento do custo de vida.

A propósito das discrepâncias entre os ordenados dos gestores de topo e a média dos ordenados dos colaboradores, fiz uma reflexão que me levou à mesma conclusão, a classe média é muito pequena em Portugal.

 

Um indivíduo para levar uma vida digna tem de auferir um ordenado líquido de 783 euros, o que se traduz num ordenado bruto de mais ou menos 1070 euros, que é só praticamente o dobro do ordenado mínimo.

 

Mas afinal o que é a classe média?

 

Em Portugal, ninguém parece saber, basta recuar até Setembro de 2016 quando no parlamento cada partido apresentou uma definição diferente a propósito do novo imposto sobre o património imobiliário.

 

Na altura o deputado socialista Eurico Brilhante Dias definiu o conceito abstrato de classe média ao jornal Observador como: “É aquele que ganha 800 euros, tem despesas com habitação própria, com educação dos filhos, com transportes, recorre ao Serviço Nacional de Saúde, vive essencialmente do trabalho e dos rendimentos do trabalho. Até onde iria não definiu.

 

Qual o motivo para definirem a classe média a partir de um ordenado tão baixo? A resposta é simples, quanto mais baixa a fasquia para considerar um rendimento de classe média, mais fácil é imputar-lhe impostos mais altos.

A média de ordenados em Portugal rondará os 800 euros brutos, o que dá qualquer coisa como 638,43 euros líquidos dependendo do número de titulares e dependentes.

Agora, alguém que me explique como é que se considera que uma pessoa que ganhe 800 euros brutos pertence à classe média quando:

 

O valor para ter uma vida digna é de 783 euros por pessoa?

O valor que uma família de 4 pessoas necessita para alimentação é de 766 euros?

 

O país está crescer, a dívida pública a diminuir, as contas do Estado, dizem, estão a equilibrar-se.

Mas ainda alguém acredita que a classe política saiba fazer contas?

 

O país está cada vez mais pobre, porque o país somos nós, poderia pedir-vos para olharem à vossa volta e verem quantas pessoas conhecem que ganham 1070 euros brutos, mas não é necessário, se a média é de 800 euros está a vista que há muito mais pessoas a viverem no limiar da pobreza do que se poderia imaginar.

 

As pessoas têm noção disso?

Não creio, um ordenado de 1000 euros brutos é considerado um bom ordenado, tendo por base de comparação o ordenado mínimo, só que feitas as contas, analisando-se o que se deveria ganhar para ter uma vida digna, um ordenado de 1000 euros líquido de impostos deveria ser o nosso mínimo.

 

É mais fácil pensar que os outros é que são muito ricos

do que admitir que nós é que somos pobres.

 

Estamos cada vez mais pobres e o maior problema é que vamo-nos adaptando e nem dá-mos conta de que não é normal termos uma fatia tão grande da população a contar tostões, a tentar esticar o miserável ordenado até ao final do mês, constantemente a fazer ginástica financeira para sobreviver às despesas.

A grande questão é que os nossos pobres de classe média não se veem como pobres, veem antes a verdadeira classe média como rica. É mais fácil pensar que os outros é que são muito ricos do que admitir que nós é que somos pobres.

 

Enquanto a classe média, assim classificada porque dá jeito ao fisco, não acordar para a realidade, andará a viver na amarga ilusão de uma vida digna.