Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

Moda portuguesa porque que és tão elitista?

Entendo o apelo de criar uma marca de luxo, cara, requintada, com produtos de qualidade, é mais fácil vender o conceito, inspirar e sobretudo fazer com que seja desejável, mas para isso não basta dizer que é 100% portuguesa, que usa materiais de alta qualidade e colocar-lhe um preço altíssimo.

Há um sem fim de marcas de vestuário, quase todas recentes, que se posicionam no segmento de preço médio-alto, não sendo produtos de luxo são produtos caros, mas quase todos de baixo valor percebido e sem qualquer estratégia de marca.

São marcas criadas para vender fora de Portugal, não têm mercado aqui onde os preços impedem que a maioria dos consumidores adquiram as suas peças, mas será que conseguem vender no exterior? Custa-me a crer que consigam uma boa penetração no mercado, pois não são assim tão diferenciadoras, tão inovadoras como querem parecer.

É tentador seguir o exemplo da indústria do calçado, mas até para copiar uma estratégia é preciso entender como funciona, a grande vantagem competitiva do nosso calçado para além da qualidade óbvia é o design, os sapatos dentro dos diversos estilos são bonitos, são inspiradores, são desejáveis.

O mesmo não se passa com a maioria das marcas de vestuário, demasiado simples, demasiado iguais às lojas de fast fashion, há claramente um desfasamento entre o preço e a vantagem percebida.

Isto pode ser só a minha opinião mas, pessoalmente, se vou investir 400€ num casaco não pode ser num modelo idêntico a um que está à venda na Zara por 120€.

O segmento de preço médio-alto é o segmento mais perigoso de todos, o mais difícil, não sei porque insistem todas em posicionar-se neste nível de preços.

Encontrar uma marca de vestuário portuguesa para vender em Portugal a preços que os portugueses comprem é quase impossível.

Indecisões, condicionalismos, burocracias e aborrecimentos vários – Simplex? Nem vê-lo.

Nunca gostei do nome Simplex, parece a cópia pobre do ”Clix custa nix”, nestas coisas sou antiquada, acho que as denominações escolhidas para organizações, entidades, programas, medidas estatais devem ser em bom português de Portugal.

E se verificarmos bem o topónimo o que parece anunciar é a junção do simples com o ex, ou seja, o simples que deixou de ser, será que ninguém fez esta interpretação? O nosso cérebro, sempre atento, assimila os termos em separado e processa-os inconscientemente, talvez por isso nunca tenha apreciado o termo.

 

Goste-se ou não da palavra, o Simplex surgiu para nos facilitar a vida ou para facilitar a vida aos fáceis, pelo menos é isso que se passa no caso da abertura de uma empresa, pois quem se preocupar com todos os detalhes, como por exemplo, quem desejar criar o nome da empresa depara-se de imediato com o primeiro condicionalismo, escolher um nome da lista que, sejamos meigos, são anedóticos ou ter o dobro do trabalho e registar o nome que pretende.

E aqui começa a saga da burocracia, dos processos, dos atrasos, houve um em particularmente interessante, necessitarmos de um documento para abrir uma conta bancária e necessitarmos de conta bancária para termos esse documento.

 

Ultrapassados todos os constrangimentos iniciais passa-se à etapa seguinte que implica abrir um estabelecimento e aqui é que as coisas se complicam, com opiniões distintas dentro do mesmo gabinete, com inspetores mal-intencionados e com as ofertas mais absurdas de serviços que não lembram ao diabo.

Não é de admirar que a maioria das empresas e estabelecimentos não cumpram a legislação porque é quase impossível, especialmente se os recursos forem limitados, cumprir com todos os requisitos e abrir em tempo útil.

 

Para além de todos estes entraves burocráticos, existem depois os nossos próprios entraves, quando nos dedicamos muito a um projeto queremos que tudo esteja perfeito e nem sempre é possível, mas para quem pensa tudo ao detalhe não conseguir esse detalhe é uma frustração e um stress.

É preciso abdicar, optar e tomar decisões que não nos agradam para que o projeto possa avançar, custa muito, morremos um bocadinho sempre que abdicamos daquela ideia espetacular por falta de tempo ou orçamento, mas não temos outro remédio.

 

Neste momento estou entre a mentalização que não é possível esperar que tudo esteja perfeito e entre a negação, ainda quero acreditar e convencer os meus sócios que é possível que tudo fique tal como imaginamos, mas começo a aperceber-me que terei de abdicar de alguns pormenores e modificar outros para que se encontre um meio-termo que não prejudique o conceito nem o prazo de execução.

Montar um negócio pode ser simples, se formos pelo caminho mais fácil ou se não tivermos constrangimentos financeiros, trilhar o próprio caminho com um orçamento restrito não é fácil.

 

Tudo que nos realiza de alguma forma é trabalhoso e envolve esforço, só assim as conquistas têm um valor especial, se voltava atrás? Nunca, não há nada mais gratificante do que ver um sonho materializar-se, nem que seja com pequenos ajustes dados pela realidade.

Os 8 tipos de empresas em Portugal

Ao entramos em contacto com empresas portuguesas para comprar, atenção escrevi comprar e não vender, deparamo-nos com as coisas mais incríveis, dei por mim a cataloga-las.

 

1 - As empresas práticas

Se é para comprar é para comprar e não há cá complicações, é só enviar catálogos, preços e condições comerciais.

 

2 - As empresas experientes

Isto vende-se, mas não se vende a qualquer um, primeiro é preciso tirar radiografia ao cliente para perceber se tem potencial, se tem uma imagem coerente com a imagem da sua marca/produto.

 

3 - As empresas colossais

Vendemos, mas para quantidades pequenas tem de comprar a um distribuidor, não vendemos diretamente, tudo certo se existe rede de distribuição é para isso mesmo.

 

4 - As empresas astronómicas

Vendem, mas só se encomendarmos quantidades astronómicas de cada referência e se esperarmos uma eternidade pelas encomendas, detalhe importante, não têm rede de distribuição, pressinto que nunca terão.

 

5 - As empresas inacessíveis

É preciso um doutoramento em investigação forense googletíca para encontrar um contacto de telefone ou e-mail, enviar mensagens pelos formulários de contacto é totalmente infrutífero pois nunca são respondidos.

 

6 - As empresas difíceis

Chega-se ao contacto por telefone, envia-se e-mail, tenta-se uma, duas, três, milhentas vezes e não se consegue passar da rececionista, a pobre coitada (sem qualquer desprestígio para a trabalhadora ou função) já não sabe que mais desculpas dar para a falta de educação da gerência.

 

7 - As empresas armadas em parvas

Só vendemos no nosso site, só vendemos nas nossas lojas e depois é ver os seus produtos à venda em todos os cantos e esquinas.

 

8 - As empresas que só fazem perder tempo

Está tudo muito bem, só facilidades, afinal é para vender e depois na hora H não existe capacidade de resposta, não existe stock, não existem recursos humanos, não existe basicamente nada, pois na verdade são uma gigantesca confusão.

 

 

Pergunto-me como é que uma empresa pode sobreviver sem qualquer estratégia de vendas, sem uma estratégia de distribuição, sem rede de distribuição interna ou externa e total incapacidade de dar resposta às solicitações dos seus clientes.

Numa altura em que o futuro passa pelo contacto direto com o cliente final, onde a cadeia de abastecimento é cada vez mais pequena, pergunto-me como se adaptará o tecido empresarial português que vive de feiras, exposições, grandes encomendas e muitas vezes de marquismo?

Sem marca, estratégia, visão e sem qualquer noção de marketing, como esperam sobrevier estas empresas?

Já escrevi anteriormente sobre o tecido empresarial português e a verdade é que quanto mais o conheço, mais desiludida e preocupada me sinto.