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Língua Afiada

Sou especial, mas serei mais especial que os outros?

Algures no tempo não sei precisar quando, mas terá sido pouco depois de ter consciência de mim, assumi que era especial, especial porque era diferente, muito desenrascada, muito determinada, muito senhora de mim mesma quando ainda me faltavam mais dentes dos que tinha.

Não tinha grandes certezas, apenas a certeza que queria fazer a diferença, meti na cabeça que o futuro me reservava grandes coisas, que iria ser grande de alguma forma, famosa talvez, tinha aptidão natural para as artes e à vontade para o público.

Gostava de ser o centro das atenções e era-o muitas vezes, demasiadas vezes tenho noção agora, não que os meus pais me incentivassem, pelo contrário, mas fazia parte de mim ser assim e procurava a atenção porque gostava dela.

 

Na escola continuei com a mesma sensação, era excelente aluna, protegida pela professora e querida pelos colegas, mas percebi que não era sempre a maior porque haviam literalmente alunos maiores do que eu e até uma que não gostava nada que eu fosse o centro das atenções.

No liceu a minha perspetiva do mundo e de mim não mudou muito, continuava crente nas minhas capacidades e dotes, nem as desilusões amorosas mudaram o cenário, só uma alfinetada na amizade me fez perceber que as coisas talvez não fossem tão cor-de-rosa.

 

No secundário deu-se uma lenta transformação do sonho para a realidade, mais motivada pelas hormonas do que pela consciência, no turbilhão de emoções e sentimentos contraditórios, eu era realmente especial, mas nem sempre um especial bom, muitíssimo complicada e complexa no que sentia e exprimia era completamente impossível entenderem-me quando eu estava completamente perdida.

Algures entre o secundário e a faculdade quebrou-se o sonho, deu-se a minha primeira frustração, depois de 12 anos a ser boa aluna vi o meu percurso manchado por uma nota má, um ano perdido num caminho que tinha tão bem traçado.

Na altura não tive consciência do que este contratempo tão simples implicou na minha vida, mas a verdade é que diminuiu a minha confiança, fechei-me, contive os sorrisos e tornei-me muito mais introspetiva e soturna.

Nada que não fosse curável com a adrenalina da juventude, após um período a viver para dentro voltei a viver para fora e o resultado extravasou mais do que desejaria, resquícios da rebeldia que sempre tive.

 

Não demorei a entrar no mercado de trabalho e não foi preciso muito tempo para esquecer que era uma pessoa especial, o especial deu lugar ao normal, mais uma pessoa a tentar singrar no meio de tantas, a tentar um lugar ao sol.

Lentamente a normalidade e a rotina conquistaram mais espaço do que deviam, alargaram-se a outros campos da vida e perdi algumas qualidades e sendo franca alguns defeitos que me davam um carisma de rebelde, passei a ser uma pessoa regular com uma vida normal.

 

Hoje tenho uma vida tão normal como qualquer outra pessoa e sinto-me mais uma pessoa que só faz diferença na vida de quem me rodeia, nada de grandezas, de fazer grandes coisas, de sonhos e ilusões megalómanas.

Olho para trás e penso na criança que era e na adulta que me tornei, tento encontrar respostas no caminho que me trouxe até aqui, penso de quem foi a culpa de ter seguido este caminho, tento culpar os outros, as circunstâncias, tento fugir da responsabilidade de me ter tornado naquilo que sou hoje, mas sei que estou onde estou porque escolhi estar aqui.

É difícil não me reconhecer nos meus sonhos e assumir as culpas por isso, mas seria uma infantilidade culpar o mundo, quando a culpa é exclusivamente minha.

Eu que sempre quis ser diferente, que sempre me considerei especial, mesmo que nunca o tenha dito em voz alta, que sempre tive a ilusão de seguir um caminho alternativo, acabei por tomar todas as decisões contrárias a isso, seguindo o curso natural da vida, deixando-me levar pelo normal, pela lógica dos acontecimentos.

 

Hoje, sinto sentimentos contraditórios, se por um lado não tenho forças nem vontade para traçar um caminho alternativo, para fazer algo diferente, por outro sinto-me insatisfeita e defraudada pela vida, que teima em negar-me algumas coisas básicas e lógicas.

Sempre disse sonhar é em grande, deixei de sonhar, deixei de ser especial.

Ou nunca terei sido mais especial do que os outros?

Fui apenas uma criança sonhadora que não viu o seu sonho concretizado.

Isso é mau?

Não, é apenas a vida.

Uma manhã de sexta e planos para o fim-de-semana.

Acordo a pensar nas prioridades do dia, se ligo primeiro para o fornecedor X ou se encomendo a peça do fornecedor Y, oriento o dia com o cérebro ainda a meio vapor, por entre a névoa do olhar ensonado percebo que tenho de passar a blusa a ferro, poderia escolher outra, mas tenho uma reunião e não tenho tempo para escolher outro coordenado e não posso vestir propriamente a primeira peça que encontro.

Oriento-me para esticar os minutos cronometrados que tenho para me arranjar, tenho uma borbulha daquelas impossíveis na face, sei que não devia, mas rebento-a na esperança que desvaneça, reduziu tapo-o com maquilhagem.

Maquilho-me, ao calçar-me percebo que os botins não ficam bem, busco outros, martirizo-me por não ainda não ter substituído o calçado de verão pelo de inverno, calço outro par, corro apressada para o casaco, qual?

Impossível tantos casacos e falta-me sempre o que preciso, o vermelho pisca-me o olho, ainda não me sinto totalmente confortável de vermelho, mas acabo por o vestir, preparo o lanche e o almoço e voo para o carro.

 

Na viagem revejo novamente o dia e preparo até o dia seguinte, tento encontrar nos espaços das tarefas obrigatórias espaço para as facultativas, desdobro-me em ideias e saltito de uma para outra sem terminar nenhuma.

A preocupação deu lugar à imaginação e a ansiedade deu lugar é euforia, regozijo-me está tudo encaminhado e é essa certeza que me faz vibrar e apaixonar de novo pelo projeto.

E os outros projetos? É uma identidade gráfica é uma estratégia comercial, tudo para tratar durante o fim-de-semana.

 

Está sol e sorrio, será de ser sexta?

Será da energia do casaco vermelho? As cores fortes alegram-me.

 

Canto, pela primeira vez emociono-me com uma música nova, que aproveito para dedicar a ti, que por entre os meus impulsos e devaneios és a minha âncora, o meu porto seguro.

É sexta, tenho trabalho para o fim-de-semana, mas o plano principal é passear e namorar sob a paisagem de outono ao som de:

 

PavorWikipedia: Pavor is a German technical death metal band, formed in 1987. The band has released two albums in a twenty-year career and have chosen to be independent all that time.

Estou rodeada de pessoas que me enervam

É esta a conclusão que chego, é claro que depois o nível de stress escala, é impossível ignorar, ultrapassar e assimilar tanta coisa que me enerva, tantas atitudes descabidas e incompreensíveis.

A lista de atitudes inexplicáveis é extensa e só pode ser explanada pelos dias agitados que vivemos acrescidos pela falta de bom senso e nos casos mais sérios por maldade e estupidez.

A falta de coerência é a atitude que mais me corrói, porque é impossível saber o que esperar, com o que contar, lidar com o inesperado quando as premissas são as mesmas é frustrante porque supostamente se a pessoa é a mesma, se os dados da equação são os mesmos o resulto final deveria ser o mesmo.

Fosse o comportamento das pessoas como um cálculo matemático e a vida seria bem mais simples, não sou fã de cálculos, mas antes cálculos com resultados certos do que atitudes e comportamentos incertos, aleatórios e imprevisíveis.

Como humanos somos imprevisíveis mas há alguns campos na nossa vida, como o profissional que não o podemos ser, há limites para imprevisibilidade ou caímos na anarquia.

 

A falta de capacidade de algumas pessoas perceberem e aceitarem as coisas como elas são desgasta-me, mas alguém acredita mesmo que algum dia vai conseguir que o mundo seja como deseja e sonha? Porque é que se passa a vida a reclamar, a indagar sobre coisas que são simplesmente como são, não vamos nunca estar todos na mesma página, os outros não vão concordar sempre connosco, não vão querer fazer as mesmas coisas que nós, nos mesmos horários, da mesma forma, é assim tão difícil ceder um bocadinho? É preciso estar sempre revoltado, a bater no ceguinho, a reclamar e a encher a paciência dos outros com a mesma conversa?

Revoltarmo-nos é bom mas apenas se for com coisas importantes e revelantes, revoltar só porque sim, só porque que alguém disse que não quando queríamos que dissesse sim não é querer fazer do mundo um lugar melhor, é infantilidade.

A autocomiseração que algumas pessoas têm também transcende-me, tanta piedade sentem por si mesmas e nem um pingo de consideração pelo sofrimento dos outros, egoísmo, narcisismo ou será necessidade de chamar a atenção, não entendo a necessidade de demonstrarem constantemente que estão piores do que todos os outros, quando claramente não estão.

 

Irresponsabilidade, incompetência, desleixo, uma coisa é ser descontraído outra é não levar nada a sério e não ter respeito nenhum pelos outros, uma coisa é ter dias em que não nos apetece trabalhar tanto, outra é pendurarmo-nos constantemente no trabalho dos outros, é triste.

Julgar pela sua bitola, algo típico das pessoas pouco honestas, capazes de atos impróprios julgam que também os outros são capazes das mesmas atitudes, achando que é normal que os outros tenham tido perante elas o mesmo comportamento que elas têm, imagine-se atacando quando elas são as primeiras a agirem mal, incapazes de reconhecerem o seu comportamento impróprio, ainda acusam os outros cheias de razão, psicopatas, não encontro outra explicação.

 

A incapacidade de reconhecer os limites dos outros, as pessoas são muitas vezes compelidas a levar situações e pessoas ao extremo, abusam da paciência, massacram até que alguém explode e claro quem explode é no fim de contas o culpado, mesmo que esteja apenas a dar o troco ao massacre constante, mas a culpa é de quem explode.

As pessoas incapazes de perceber que passaram o ponto de retorno e que quanto mais filosofam sobre um rumo que nas suas cabeças é um plano espetacular, um sonho, a verdade é que na realidade a cada palavra, a cada atitude se distanciam mais desse plano utópico, só elas é que não percebem isso.

As pessoas que dizem uma coisa, anunciam aos quatro ventos toda uma doutrina, conduta e depois fazem exatamente o oposto, esperando que os outros não notem ou não se importem e quando chamadas a atenção, a desculpa? Pasmem-se os que chamam à atenção também fazem, mesmo que seja em circunstâncias completamente diferentes, mas isso para elas é irrelevante.

Pessoas que nunca têm culpa de nada irritam-me, tão profundamente como aquelas que estão sempre a atribuir culpas aos outros, quase sempre são as mesmas, pois a culpa nunca é delas e às tantas é do mundo.

 

Não há pessoas espetaculares que nunca se chateiam com nada, isso não existe, existem sim pessoas mais calmas, mais práticas, diria até mais sábias que não se chateiam por uma palavra torta, mas que nunca mais vos dirigem uma palavra de conforto, distanciam-se e ignoram, mas as atitudes não são esquecidas, só porque não respondem não significa que sejam parvas.

Mil vezes pior quando uma pessoa deixa de responder, de se importar, de se enervar, de se impor, é sinal que esta prestes a sair de cena.

Neste momento é o que apetece fazer, mudar completamento o rumo da minha vida e deixar para trás todas as pessoas que me enervam. Bem sei que as enervo também, que ninguém é perfeito.

O meu erro? Deixar acumular, acumular, na esperança que um dia as coisas mudem, já deveria saber que as pessoas não mudam para melhor, tendem a mudar para pior, isso é certo.

Eu deixei de me importar tanto, refreei o ímpeto da resposta na ponta da língua e isso o que é que me garantiu? Sossego, paz, calma? Nada disso, apenas consegui ter um ataque de ansiedade, eu uma das pessoas mais descontraídas do mundo, consegui explodir internamente num pânico assustador.

Nunca mais, não gostam? Têm bom remédio afastem-se, paninhos quentes, palavras dóceis, sorrisos amarelos, respirar fundo, pensar antes de falar jamais, cada um receberá o que merece, perdi a paciência.