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Língua Afiada

Gentil Martins é um “estupor moral”

Dr. Gentil Martins esta é a minha opinião sobre si e nada tem a ver com os seus excecionais méritos na medicina, nem com os seus esforços na luta pela causa dos médicos.
Esta minha opinião refere-se apenas às suas declarações sobre o recurso a uma “barriga de aluguer”, à homossexualidade, ao aborto e à eutanásia.


Depois das declarações que fez na entrevista ao Expresso não pode ser considerado um exemplo por ninguém, especialmente pelos seus pares, felizmente que eles não se reveem nas suas palavras e há até duas médicas que pretendem apresentar queixa contra si.


A sua preocupação com que o mundo acabe não só é uma desculpa idiota como contraditória, pois no caso extremo de todos virarmos homossexuais não deixariam de existir mulheres e homens, caso não tenha conhecimento o amor entre o mesmo sexo também acontece entre mulheres, além disso na eventualidade da raça humana terminar só estaríamos a fazer um favor ao Mundo que duraria assim bem mais anos do que aqueles que durará sob o domínio e exploração dos humanos.


É extremamente infeliz que um médico classifique a homossexualidade  como “uma anomalia, um desvio de personalidade”, só falta a seguir recomendar tratamento com choques elétricos, mas para além da infelicidade da declaração, neste caso não se trata de opinião mas sim de um erro, já que esta teoria de anomolia e desvio de personalidade foi há muito descartada pela comunidade científica.

 

Ser contra o aborto sem qualquer exceção revela uma falta de empatia tremenda e uma obsessão, já que é desumano por exemplo obrigar uma criança a ter um filho do próprio pai cuja gravidez constitui um perigo para a sua própria vida, isto só para citar um exemplo onde o aborto nem deveria sequer ser opção.
É determinantemente contra a eutanásia, diz que vai contra a constituição, pois manter alguém vivo contra a sua vontade também é, já que o estamos a privar de exercer a sua liberdade.


Para alguém que é tão a favor da vida parece estranho ser contra a “barriga de aluguer” já que é a forma que muitas pessoas encontram de realizar o sonho de serem pais e mães e imagine-se dar continuidade à raça humana, que parece ser uma real preocupação para si.
Diz que toda a criança tem direito a ter uma mãe, como se isso fosse garantia de alguma coisa, como se o mundo não estivesse pejado de mães negligentes.


O que todas as crianças têm direito é a serem felizes, independentemente do tipo de família, seja monoparental, seja com dois pais ou duas mães, seja com um pai e uma mãe, o que é realmente importante é assegurar que a criança seja bem cuidada, que tenha acesso a educação, saúde e bens essenciais.
Continue a viver na sua ideia idílica de uma sociedade perfeita, onde existem bebés abandonados, dados para adoção, mães que matam recém-nascidos, pais que violam filhos, pais que matam filhos e esposas, crianças a morrer à fome, pedofilia, violência doméstica, assassinatos passionais, entre outros crimes hediondos perpetrados no seio da família, até dentro da família católica, mesmo no seu cerne, no Vaticano, que tanto preza.


Com tantos crimes e injustiças no mundo o que interessa dizer é que se é contra a homossexualidade, contra o aborto e contra a eutanásia. E, claro não esquecer, apelidar de estupor moral Cristiano Ronaldo por ter recorrido a uma “barriga de aluguer” para ter filhos.


Já agora gostava de lhe perguntar o que diria a uma criança cujos pais abandonaram numa instituição, mas que não abdicaram do direito da parentalidade?
Dir-lhe-á que tem direito a ter uma mãe e um pai, mesmo que eles sejam os maiores estupores à face da terra?


O que todos temos direito é à liberdade de viver como queremos, com quem amamos e de morrermos com dignidade, desde que respeitemos a liberdade dos outros.


Assim como temos direito de recorrer a todos os avanços da medicina disponíveis, pois cada um tem as suas próprias objeções de consciência, não precisam das suas lições de moral.


Curioso que não vejo este desdém quase generalizado por uma mulher que recorra a um banco de esperma! Então as crianças não têm direito a um pai!?

Estamos rodeados de falsos moralistas e hipócritas.

O ato egoísta de prolongar a vida

Daniel respirava com dificuldade em silêncio, não tinha energia para falar, estava a maioria das vezes com os olhos fechados, manter as pálpebras abertas era um esforço herculano.

Elsa permanecia dia e noite a seu lado, humedecia-lhe os lábios secos, lia-lhe todas as manhãs as notícias e passagens de um dos seus livros favoritos à tarde, contava-lhe todos os dias as novidades da família e dos amigos.

Penteava-lhe o cabelo, fazia-lhe a barba, cortava-lhe as unhas, nutria-lhe a pele para que não ganhasse chagas e alimentava-o, recusava que fossem as enfermeiras a dar-lhe de comer, era sempre ela, sua mulher, ninguém o fazia com mais carinho e dedicação que ela, nem mesmo a sogra que contava com a experiência do passado.

Nos breves momentos em que adormecia, Elsa acordava sobressaltada com dois pesadelos, umas vezes revivia o fatídico dia em que Daniel lhe disse – "Meu amor tens de ser forte… Estou gravemente doente, não teremos muito tempo juntos… Estou, estou a morrer."

Outras vezes sonhava que uma qualquer emergência a tinha feito sair do lado de Daniel e que no seu regresso o tinha encontrado sem vida, sem direito a despedida.

 

Tinham passado três meses desde o diagnóstico, cancro do pâncreas, estágio IV com metástases em vários órgãos, o diagnóstico era devastador, inoperável, restavam como opções a radioterapia e a quimioterapia, esperança de vida três a seis meses.

Três meses decorreram e apesar dos tratamentos não existiam quaisquer melhorias, Elsa sentia-se angustiada, temia que Daniel morresse a qualquer hora e sentia-se perdida, não estava preparada para ver o amor da sua vida partir, precisava de mais tempo, de muito mais tempo para se despedir, para conseguir equacionar a sua vida sem ele.

Daniel piorou, tinha dores lancinantes por todo o corpo, não tinha apetite e sofria de dispulia, cada vez sentia mais dificuldade em respirar e tinha de recorrer à botija de oxigénio cada vez com mais frequência.

 

Numa manhã solarenga de Junho, Daniel acordou e a custo abriu os olhos, diante de si estava uma sombra de Elsa, uma sombra do que ela haveria sido, magra, enrugada, parecia que tinha envelhecido vinte anos em três meses, mas continuava bonita, dormia profundamente, esgotada depois de ter estado acordada até às cinco da madrugada a cuidar dele, tinha sido umas das noites mais difíceis desde o seu internamento.

 

Elsa acordou e sorriu ao ver o olhar embebecido do marido, o sorriso iluminou-lhe o rosto enquanto disse:

– Bom dia meu amor!

– Bom dia minha vida! Preciso de falar contigo. Precisamos de ter uma conversa séria sobre a minha morte.

– Contra a minha vontade já decidimos tudo, apesar de achar que foi demasiado precoce decidirmos todos esses detalhes, fi-lo porque sei que é importante para ti, pensei que tínhamos acordado que depois de tudo decidido nos iríamos focar na cura e não na doença.

– Elsa, meu amor, estou a morrer! Minha querida não há ilusões é uma questão de tempo até que o meu corpo dê de si.

 

Elsa contendo as lágrimas a custo:  – Não podes pensar assim, o principal fator de cura para o cancro é acreditar na cura, a nossa mente é poderosa, a esperança é sempre a última a morrer.

- A minha esperança morreu no dia em que recebi o diagnóstico. Recusaste-te a aceitar, aceitei fazer os tratamentos por ti e pela minha mãe, mas não há mais nada a fazer, estou a morrer, morrerei em breve e a única coisa que posso mudar é a forma como o farei.

- O que queres dizer com isso Daniel? Pergunta Elsa surpreendida e assustada.

- Não quero morrer aos poucos, não quero definhar até perder a consciência, não quero sofrer mais e acima de tudo não quero que tu sofras mais. Quero morrer enquanto tenho dignidade e consciência e… quero que me ajudes, sozinho não consigo.

- Estás doido!? Queres que te ajude a morrer? Como queres que eu seja capaz de te ajudar a morrer se te amo mais do que a própria vida? Não consigo... Disse Elsa já com as lágrimas a cobrirem-lhe o rosto.

- Precisamente porque me amas e queres o melhor para mim é que me vais ajudar. Ninguém precisa de saber, será o nosso último segredo, se me amas irás conceder-me este último desejo.

- Não, não sou capaz, não consigo...

- Restam-me poucos dias bons, sei disso e quero morrer num dia bom, o Ricardo conseguiu arranjar a droga, mas eu quero que estejas presente, quero que estejas a meu lado.

- Não, és doido, falarei com o médico, a partir de hoje o Ricardo nunca mais te visita.

- Elsa por favor reconsidera, tenho direito a morrer quando quero, é a única coisa que me resta. Por favor…

 

Elsa proibibiu o melhor amigo de Daniel, de o visitar, ameaçou que se ousasse visita-lo faria uma denúncia às autoridades.

Daniel tentou por várias vezes convencê-la que era um ato de amor e de misericórdia, ela nunca acedeu ao seu pedido.

Uns dias depois Elsa é chamada de emergência ao trabalho, uma crise que exigia a sua presença, preparava-se para sair do hospital quando Daniel a trava.

- Elsa, meu amor quero que saibas que és a coisa mais importante da minha vida, que te amarei para sempre e estarei olharei sempre por ti. Quando partir quero que sigas a tua vida, quero que sejas feliz e que vivas a dobrar por ti e por mim.

- Eu sei meu amor, mas não pensemos nisso agora, estarei ausente apenas por um par de horar e logo estarei aqui para cuidar de ti.

Elsa dá-lhe um beijo carregado de amor e ternura.

- Adeus meu amor!

- Até já meu amor!

- Adeus!

 

Elsa julgou ouvi-lo dizer mais qualquer coisa, mas não conseguiu perceber o quê.

Precisamente duas horas depois Elsa entra no quarto e vê o quarto cheio de familiares e amigos.

- Tentamos ligar-te mas não atendeste…

 

Elsa caiu num choro desesperado ao perceber que Daniel estava morto, agarrou-o, sacudiu-o na esperança de encontrar ainda vida no seu corpo inerte.

- Porquê? Porquê? Eu deveria ter estado aqui.

- Ele tentou resistir até regressares, ele lutou mas não conseguiu.

 

….

Um ano depois, à saída da igreja Ricardo interpela Elsa.

- Tenho algo para te dar.

- Não quero nada que venha de ti. És um assassino, eu sei que ajudaste o Daniel a morrer.

- O Daniel pediu-me para te entregar esta carta.

Elsa engoliu em seco, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Agarrou no envelope e sem proferir uma única palavra entrou no carro, conduziu até um dos seus locais favoritos, uma falésia com vista para o mar. Respirou fundo e abriu a carta.

 

“Elsa, meu amor, minha vida,

Parti, parti com consciência, nos meus termos, feliz e rodeado de amor, comigo levo o teu amor, o teu carinho, a tua dedicação.

Perdoa-me mas não consegui aguentar mais ver-te sofrer daquela forma, matava-me por dentro, era demasiado peso para mim, doía-me mais do que as dores lancinantes do cancro.

Perdoa o Ricardo, ele sempre foi um bom amigo e quando a minha mãe lhe pediu que me ajudasse ele não hesitou, prontificou-se a ser ele a ter a responsabilidade, tentou demover-me a falar contigo, sabia que não irias concordar, mas eu queria a tua aprovação.

Não te culpo por me quereres todo o tempo que conseguisses a teu lado, sei que nada mais era do que amor.

Nada mais te desejo do que felicidade, como te disse na última vez que te vi, vive, vive a dobrar por ti e por mim.

Amar-te-ei por toda a eternidade e velarei sempre por ti.

Para sempre teu.

Daniel.”

 

Elsa chorava e gritava, não de dor, mas de raiva, por ter sido tão egoísta, um egoísmo que lhe custou não estar ao lado de Daniel no momento da sua partida.

Subitamente Elsa conseguiu decifrar as últimas palavras de Daniel quando deixava o quarto de hospital.

Até sempre meu amor

 

Tinham sido essas as últimas palavras de Daniel.

 

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Não pedimos para nascer.

A maioria de nós não faz ideia de quando a morte nos baterá à porta.

Quando sabemos que a morte está à espreita com que direito nos negam a vontade de a encontrar mais cedo e finalmente descansar?

Eutanásia ou compaixão?

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco disse em entrevista que a eutanásia "já é de alguma forma praticada nos hospitais do SNS com médicos que sugerem essa solução para alguns doentes".

Recentemente um enfermeiro que trabalha há mais 40 anos num hospital central conta, sobre anonimato, que tem visto muitos doentes serem ajudados a morrer e até explica como. Segundo o mesmo “uma das técnicas mais comuns é a injeção de ar nas veias, prática que provoca uma morte sem dor e semelhante a um ataque cardíaco, refere o enfermeiro.”

“No caso dos doentes oncológicos terminais ou com insuficiência respiratória, as bolas de morfina confortam o doente e antecipam a morte.”

Os médicos e os políticos estão numa azáfama, dizem não acreditar que a eutanásia é praticada, não acreditam que os profissionais de saúde não estão a cumprir a lei.

Não sei o que é pior termos políticos hipócritas ou ingénuos, hipócritas são de qualquer maneira, não fosse a classe deles exímia em não cumprir leis, adultera-las e muda-las a seu favor.

Eu sempre soube que em algumas situações de doentes que não tinham apelo e que se encontravam num sofrimento derradeiro a compaixão dos profissionais de saúde se sobrepunha à lei, não consigo conceber sequer que pudesse ser de outra forma.

Como em todas as classes há bons e maus profissionais, mas a maioria deles não tem outra solução do que munir-se de uma carapaça gigantesca para não se deixarem levar pela dor, sofrimento, desespero, solidão que veem todos dos dias.

Coloco-me na posição deles, vejo um doente que não tem salvação, sofre, agoniza, a família desespera e o sofrimento prolonga-se por dias a fio, sabendo eu que haveria uma forma indolor de lhe travar o sofrimento, de lhe dar a paz quando o próprio me suplicava que o deixasse morrer, seria capaz de lhe negar esse ato de compaixão e misericórdia?

Se fosse eu que estivesse a agonizar não gostaria que tivessem compaixão por mim?

Nós temos um instinto de sobrevivência tão grande, tão puro que só desejamos morrer em duas situações quando temos uma dor psicológica tão negra e profunda que nos perturba a mente ou uma dor física agonizante que sabemos, temos a certeza que nunca terá fim.

Se nos agarramos à vida mesmo a sofrer horrores é porque ainda queremos ver alguém, falar-lhe, despedirmo-nos, quando deixamos de ter esse desejo é benevolência deixarem-nos partir em paz.

Quando queremos muito magoar alguém não o matamos deixamo-lo a sofrer para sempre, na guerra os soldados dão um tiro de misericórdia ao companheiro só para lhe pouparem o sofrimento de se esvaírem em sangue sem apelo.

Não é uma novidade, nunca foi, sempre se praticou, se foram cometidos alguns erros talvez, mas nos dias de hoje a medicina está evoluída o suficiente para que não hajam erros.

A eutanásia não é uma morte assistida é um ato de compaixão, um ato de misericórdia, sempre o foi e sempre será.

Numa altura em que a gestão hospitalar vê números em vez de pessoas, onde os tratamentos mais caros e mas mais eficazes apenas são aplicados em último recurso quando muitas vezes já não servem de nada, quando se negam medicamentos por serem demasiado caros a pessoas idosas e às vezes até de meia-idade. Quando se negam exames de diagnóstico por serem demasiado dispendiosos. O Governo e o bastonário da Ordem dos Médicos estão preocupados com eutanásia?

É preciso ter muita displicência, arrogância, falta de noção, hipocrisia e dissimulação. Apressem-se a mudar a lei e deixem-se de falinhas mansas e hipocrisias.