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Língua Afiada

Livros de atividades para rapazes e raparigas de novo à venda

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A Porto Editora decidiu colocar novamente os polémicos livres à venda, já dei a minha opinião sobre este assunto aqui e depois a minha conclusão aqui, que não deverá ter sido muito diferente da conclusão da editora.

Muito já se escreveu e falou sobre o assunto mas penso que o comunicado feito pela Porto Editora resume na perfeição o que se passou que afirma que uma “lamentável manipulação” levou a que fosse suspensa a venda para análise do seu conteúdo e a conclusão foi a seguinte:

 

“Tendo-se concretizado os objetivos pretendidos e comprovado a não existência de qualquer discriminação, põe-se fim à suspensão da venda daqueles livros no quadro do exercício pleno da liberdade de expressão da autora e das ilustradoras, bem como da liberdade de edição, respeitando estes valores fundamentais”.

 

Curioso que a medida proposta pela candidata Joana Amaral Dias à Câmara Municipal de Lisboa bem mais discriminatória e preconceituosa que estes livros não tenha causado nem um décimo de indignação por parte da população que tanto defende a igualdade do género.

Carruagens só para mulheres? E se fossem só para homens?

E se Lisboa tiver carruagens só para mulheres? Esta foi a proposta apresentada por Joana Amaral Dias, candidata pela Nós, Cidadãos! à Câmara Municipal de Lisboa.

A proposta levantou desde logo polémica, nem se poderia esperar outra coisa, mas se a proposta fosse colocada ao contrário qual seria a reação:

 

E se Lisboa tiver carruagens só para homens?

 

Alguém propusesse isto e ficaria para sempre na lista negra dos políticos, seria o caos nas redes sociais, petições com milhares de assinaturas, manifestações pela igualdade, pedidos de demissão, pedidos de prisão e não me admiraria que sofresse um atentado, seria atacado por insultos e quem sabe levaria com uns ovos podres no próximo comício.

Estas medidas contraditórias à busca pela igualdade são contraproducentes e perigosas, há semelhança do festival exclusivo para mulheres na Suécia, a regra nunca deverá passar pela exclusão dos homens e pela segregação, como escrevi na altura não podemos cair na tentação de elevar o protesto a regra.

 

O intuito desta medida seria o mesmo, marcar uma posição, mostrar aos homens que não são dignos de privar com as mulheres, em primeiro lugar a medida penaliza todos os homens colocando-nos a todos na mesma posição, em segundo lugar tratando-se de uma separação de géneros que não contribui nada para a igualdade.

Isolar as mulheres não as protege, apensas as fragiliza, as categoriza e as exclui.

 

Como podemos querer um mundo onde as mulheres são vistas como iguais quando propomos medidas como estas que as isolam?

Num dia temos feministas que querem abolir as diferenças de género, basta recordar a recente polémica dos livros de atividade, no outro temos feministas que defendem locais específicos para mulheres nos transportes públicos.

O que se segue? Locais de diversão noturna só para mulheres? Hotéis só para mulheres? Restaurantes e bares só para mulheres? Praças, ruas só para mulheres? Empresas só para mulheres?

Afinal são todos locais onde mulheres são vítimas de assédio físico e verbal. Vamos criar ambientes seguros para as mulheres ou vamos garantir que todos os locais são seguros para as mulheres?

 

O assédio combate-se com educação, civismo, não com segregação.

Até porque não sei em que mundo tem andado Joana Amaral Dias, mas hoje há a mesma probabilidade de sermos assediadas quer por um homem, quer por uma mulher, desengane-se quem pensa que só os homens são trogloditas, as mulheres também o são, quer seja com mulheres, quer seja com os homens, já vi muitos homens serem assediados e apalpados descaradamente e ainda terem de levar com o rótulo de homossexuais por reclamarem.

Para mim é tão abusivo e desprezível ser assediada por um homem como por uma mulher, o que propõe Joana Amaral Dias para combater isto? Criar carruagens segundo a orientação sexual?

 

Nunca se poderá combater o machismo sendo-se machista, criar carruagens específicas para mulheres é assumir o machismo. A igualdade obtém-se com igualdade nunca com limitações à liberdade de escolha de qualquer cidadão ou com segregação mesmo que opcional.

Ou será legítimo impedir um homem que se sente numa carruagem onde existem lugares sentados só porque é homem? E o que fazer com os homens que escolhem vestir-se de mulher?

Esta medida só fomenta a desigualdade e o machismo, até porque não seria necessário esperar muito até que alguns homens nas carruagens mistas convidassem as mulheres a saírem para as suas carruagens exclusivas deixando-os assim mais à larga e mais à vontade.

 

Este é problema do feminismo, a falta de coerência e assertividade, não se pode num dia promover a igualdade dos géneros e no dia seguinte promover atividades, locais específicos apenas para um dos géneros.

O que faz falta há igualdade dos géneros é uma estratégia concertada com medidas eficazes e eficientes com resultados inequívocos e não com duplo significado.

Livros de Atividades da Porto Editora – Conclusão

Escrevi o primeiro texto sobre o assunto antes da publicação do relatório, antes de o fazer procurei informação sobre os livros, uma vez que não tive oportunidade de os desfolhar.

Agora após ler o relatório da Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género (GIG) a minha opinião mantem-se, não concordo com o estereótipo de associarem as atividades das meninas às tarefas domésticas, como referi no primeiro texto, mas não vejo nenhum motivo que justifique a retirada dos livros do mercado.

 

Os argumentos apresentados pela CIG foram três:

Segregação.

A comissão diz que o facto de existirem dois cadernos um para menina e outro para menino os livros estão a negar a possibilidade de as meninos e os meninos de acederem às atividades do outro sexo.

A considerarmos esta premissa verdadeira teremos de eliminar toda e qualquer situação que impeça que uma menina ou menino, homem ou mulher de usufruir de uma publicação, espaço ou objeto, desde a sua conceção á sua utilização.

Isso implica deixarmos de ter por exemplo brinquedos que nas suas embalagens tenham a imagem de uma menina ou de um menino, impedindo assim que as meninas brinquem com brinquedos de meninos e vice-versa.

Transpondo esta premissa para todo o universo das crianças, deveremos também eliminar as roupas destinadas apenas a um género uma vez que constituem uma segregação, podendo até ser considerado como discriminação não existirem vestidos e saias na secção de roupas dos meninos.

 

Reforço dos estereótipos

A CIG diz que as ilustrações reforçam os papéis estereotipados de mulheres e homens na sociedade, é verdade que as ilustradoras poderiam ter optado por usar temas mais abrangentes, remeter as meninas para o universo do lar e os meninos para a aventura é de certa forma dizer-lhes que esse é o seu lugar.

Mas não terão sido escolhidos estes temas por serem estes temas os relacionados com as atividades que as crianças desempenham na sua vida real?

Conhecerão os representantes da CIG crianças dos 4 aos 6 anos? Eu conheço e posso dizer que a sua maioria gosta exatamente dos temas que as atividades propõem.

Tal como referi anteriormente isto não é reforço de estereótipo é marketing, é adequar o produto ao seu utilizador.

Se a diferenciação de uma publicação por sexo é um estereótipo teremos então de acabar com todas as publicações que têm como público alvo só homens ou só mulheres.

Acabem-se já com as revistas femininas que definem as mulheres como fúteis, consumistas estouvadas, sonhadoras e ocas contribuindo assim para o seu estereótipo.

Acabem-se com as revistas dos jornais desportivos que definem os homens como fanfarrões, bêbedos, arruaceiros, fanáticos e ocos contribuindo assim para o seu estereótipo e deixem de lado as capas de mulheres seminuas.

 

Diferenciação por sexo do grau de dificuldade das atividades

Nos livros, segundo a CIG, comparando o mesmo tipo de exercícios existem seis atividades mais difíceis para meninos e três mais difíceis para meninas, ou seja, no fundo existem apenas três atividades mais difíceis para os meninos. Não consegui saber qual o número total de exercícios, mas é bem mais do que seis, será o rácio de três suficiente para se afirmar que as atividades no seu total são mais difíceis para os meninos?

Na minha opinião não, especialmente depois de saber que as ilustrações foram realizadas por pessoas diferentes, que ilustraram provavelmente sem terem conhecimento da ilustração semelhante constante do outro livro.

 

O meu primeiro texto era principalmente sobre a exagerada indignação e divulgação do tema, bastou uma simples pesquisa para verificar que os motivos para tal indignação eram redutores e insignificantes tendo em conta o universo das crianças dos 4 aos 6 anos, mas foram distribuídos até à exaustação pela comunicação social sem qualquer análise ou estudo com o intuito de gerar cliques, comentários, partilhas e visitas.

 

Este texto é sobre outra coisa, é sobre os limites, sobre o bom senso, sobre o que deve ou não ser escrutinado pela chancela do Estado.

Analisando os factos a recomendação da CIG é mais um ato de censura do que de defesa, é levar ao extremo o politicamente correto, sem ter em conta os hábitos e acima de tudo as preferências das crianças, retirando completamente a autoridade aos pais e educadores que têm o direito de escolher o que dar aos seus filhos e interferindo com a liberdade editorial de uma editora.

 

Já alguém parou para pensar o que isto significa? O que este ato representa? O exemplo que estabelece?

Deverá o Estado interferir nas publicações privadas fora do âmbito previsto na lei?

 

Não, não deve, porque isso significa regredir e não podemos enaltecer e promover a igualdade dos géneros atentando contra o primeiro valor a ser defendido, a liberdade, a liberdade de expressão, a liberdade de publicação, a liberdade de escolha, a liberdade de produção.

 

O mundo não deve ser dividido entre cor-de-rosa e azul, mas também não é preto e branco, é uma mancha colorida que toca muitas vezes nos extremos das duas cores, não desejemos agora que o mundo seja de uma só cor, renegando o arco-íris.