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Língua Afiada

Let It Go – O legado de Frozen

Os filmes de animação, as BD, os contos e as fábulas para além de entreter servem para aprender.

O que é que eu aprendi com a Frozen?

A Let It Go que alguém se lembrou de traduzir para “Já passou” (nunca entendi muito as traduções para português de algumas músicas e títulos de filmes, mas isso fica para outro post), na verdade a tradução é - Deixa Ir ou numa expressão que faça mais sentido para nós – Esquece, no Brasil traduzem para – Deixe para lá e faz todo o sentido.

A tradução é irrelevante o que interessa é o significado que é esquecer, deitar para trás das costas, seguir em frente, não dar importância.

 

Não perder tempo com trivialidades é fácil, é uma questão de exercício, de nos focarmos nas coisas importantes, de priorizarmos, mas deixar de racionalizar o que não concordamos de todo, atitudes que nos afetam diretamente e que não podemos mudar é muito, mas muito mais difícil, especialmente quando sabemos que nos obrigam a ter trabalho desnecessário ou que serão em vão, é uma dor de cabeça relevar, deixar passar algo que nos revolta as entranhas.

Dizer aos outros para não pensar tanto, para ignorar é fácil, no fundo todos sabemos que não há lógica em tentar mudar o que não temos poder de mudar e que não ganhamos nada em consumirmos o nosso tempo e a nossa paciência a reclamarmos e a tentar encontrar sentido onde ele não existe, só que por vezes não há alternativa, temos mesmo de processar as coisas, falar sobre elas para conseguirmos seguir em frente.

 

Estou a aprender a Let It Go, não tem sido um processo fácil, nunca foi, sempre detestei fazer fosse o que fosse que não concordasse, o que é um pesadelo na minha vida profissional, junto a isso teimosia e persistência e acabo por ser demasiado insistente, cansativa e muitas vezes sem grande resultado, porque raramente quem decide ouve opiniões contrárias.

Tenho ainda outro defeito, não consigo calar-me quando mais tarde se vem a provar que tinha razão, e não basta dizer uma ou duas vezes, digo-o sempre que se toca no assunto, é mais forte que eu, é um impulso de demonstrar que deviam ter confiado no meu julgamento.

 

Porque é que faço isso? Porque as pessoas têm memória curta e tendem a esquecer de quem foram as ideias e apoderam-se delas como sendo coletivas, nada contra, falar em equipa em trabalho de grupo é excelente, o único problema é que mais tarde num novo conflito de ideias esquecem-se de quem é que esteve certo todas as vezes e tendem a cometer o mesmo erro de ignorar opiniões.

Num ambiente masculino como mulher tenho muitas vezes dificuldade em fazer-me ouvir, a juntar a isso sou das pessoas mais novas do grupo e para ajudar sou naturalmente simpática, uma combinação que não abona em nada a minha credibilidade, não raras as vezes tenho de esticar o pescoço, fazer um olhar frio, elevar uns decibéis à voz num tom firme e grosso para que me ouçam.

Modéstia à parte raramente me engano, no que toca a estratégias em quase 10 anos nesta empresa nunca me equivoquei. Alguém se lembra disso? Para além das pessoas do meu departamento, ninguém se recorda ou preferem fazer de conta.

 

Na vida pessoal as coisas não são muito diferentes, tenho a mesma necessidade de afirmar e reafirmar a verdade, de repetir as vezes que forem necessárias que não pode ser e no caso de alguém ser injustiçado, é motivo para andar dias e dias a pensar no assunto e sempre que se fala do tema, falo porque não consigo ficar calada.

Ninguém gosta de ouvir verdades que incomodam, frontalidade e sinceridade só ficam bem nas cifras dos murais das redes sociais, depois na vida real todos têm medo de falar, porque ferir suscetibilidades é arriscado, quem é que quer ser visto como desmancha-prazeres?

Se me inibo de ser desagradável por educação, se me inibo de dar opinião quando a mesma não é pedida, quando me pedem opinião ou me envolvem nos assuntos não consigo mentir, tendo ser o mais cordial possível e há formas inteligentes de dizermos que não concordamos, mas se o assunto é sério e me afeta diretamente ou a alguém que me é querido, o filtro desaparece e basicamente o meu discurso deixa de ser polido e passa ser frio e direto e por vezes até cruel.

Esta frontalidade é muitas vezes mascarada pela feminilidade e simpatia o que faz com que algumas pessoas fiquem estupefactas quando me zango, dá imenso jeito porque no meio do espanto nem têm tempo de reação.

Apesar de ser uma pessoa com pouca paciência é preciso bastante para perder as estribeiras, mas quando isso acontece roço a loucura de tanta fúria que liberto.

 

Não devemos guardar dentro de nós mágoas, assuntos por resolver, fúrias, desgostos, ressentimentos, mas nem sempre é bom ser explosivo por isso é que estou a aprender a ser moderada e a não me importar tanto, não posso estar constantemente revoltada com o mundo, não o conseguirei mudar por isso mais vale concentrar-me no que consigo mudar e deixar de lado o que não posso ou que não me compete.

É difícil, para mim é especialmente difícil fazer isto, não faz parte de mim, mas a vida ensina-nos a mudar para melhor e sobretudo a viver melhor e eu para viver melhor não me posso importar tanto.

Por isso canto com um sorriso nos lábios:

Let It Go

Let It Go

Assédio, piropos e galanteios e onde andam os cavalheiros?

Qual a linha que separa um galanteio de um piropo?

Qual a linha que separa um piropo de assédio?

 

Ontem no programa “E se fosse consigo?” abordaram o assédio a mulheres, foi desconcertante perceber a inação das pessoas perante tal comportamento, mas ainda mais desconcertante foi perceber que a maioria das mulheres escolhe ignorar este comportamento.

Ignorar comentários impróprios e seguir o nosso caminho com a cabeça erguida foi a solução que nos transmitiram, não vamos dar-lhes o gosto de uma resposta, até porque tal comportamento não é digno de nós e por isso não pode sequer ser dirigido a nós.

Mas o que fazer quando esse comportamento ultrapassa a nossa capacidade de ignorar ou quando o assédio verbal passa a físico?

 

Conseguimos ignorar uma frase jocosa, conseguimos ignorar até um piropo mais atrevido, mas conseguimos realmente ignorar um comentário ou uma proposta obscena? Ou ficará ele a entoar-nos na mente durante o dia, enquanto remoemos as possíveis respostas que gostaríamos de lhes ter dado?

E um assédio físico? É possível ignorar? Não. Não é possível.

As mulheres deveriam conseguir caminhar na rua com a roupa que lhes aprouver sem serem incomodadas por homens das cavernas que não controlam os seus instintos mais básicos, que em vez de neurónios têm imagens água no cérebro.

 

Ao ver o programa pensava, no Porto, há ou pelo menos havia mais resposta, culturalmente as mulheres são mais explosivas e não se ensaiam muito em desfiar um rol de respostas, algumas igualmente impróprias a quem ousar dirigir-lhes comentários, as respostas podem ir de um simples – “Sou muito areia para o teu camião” até um desfilar de injúrias que fazem corar até as pedras da calçada.

Se é isso que se espera de uma senhora? Não, mas pelo menos não ficam a remoer aquelas palavras que têm o poder de nos infligir vergonha quando o comportamento vergonhoso não é nosso.

Quando o assédio é físico a coisas complicam-se, nem sempre a reação é imediata, por vezes sentimo-nos tão impotentes e fragilizadas que não sabemos como agir, o que responder o que fazer.

 

No liceu, andava eu no sexto ano, quando os rapazes acharam que era boa ideia começarem com os chamados “apalpões” ao rabo das colegas de turma, o comportamento que não se sabe bem como começou escalou e em poucos dias passou a ser recorrente, já não sabíamos o que fazer, não os conseguíamos apanhar a todos, nem puni-los, alguns levaram estalos, pontapés, insultos mais que muitos, mas isso não parecia surtir o efeito desejado que era parar o comportamento.

Um dia combinei com as minhas colegas que no intervalo seguinte em vez de nos tentarmos proteger iríamos retaliar, não com insultos ou estalos, mas com apalpões, em menos de um fósforo a moda terminou pois eles não gostaram nada de estarem constantemente a ser incomodados e assediados.

 

Se esta técnica resultou com crianças não é possível de executar com adultos, aliás o ideal seria que este comportamento não sucedesse com adultos, mas como os homens quando andam em bando tendem a ser primitivos, há ainda quem ache que normal assediar mulheres.

Sempre existiram homens rudes, primitivos e com comportamento impróprios, mas antigamente existiam mais cavalheiros, homens sempre dispostos a defender a honra de uma mulher como se fosse sua mãe, irmã, esposa ou filha, conscientes que se hoje era uma estranha no dia seguinte poderia ser uma pessoa das suas relações.

 

Os homens distintos e honrados são uma espécie em extinção, providos de um instinto protetor, são os mesmos que num momento tratam uma mulher com delicadeza extrema e no momento seguinte desferem um soco a um malcriado.

Este tipo de homem é aquele que não consegue ficar impávido e sereno quando vê uma mulher ser alvo de um ataque grotesco seja um comentário obsceno, seja um assédio físico, pois sente o dever de se opor a tão vil comportamento.

É este homem também que é capaz de ser galanteador e ter sempre uma palavra cordial ou até um mimo para as mulheres que o rodeiam, sejam família, amigas ou colegas de trabalho, é o homem que sabe distinguir um galanteio de um piropo e sabe até onde é permitido ir sem invadir o espaço da mulher ou coloca-la numa posição embaraçosa ou desconfortável.

Até para se fazer um elogio é preciso ter-se bom senso, bom senso que parece ter caído em desuso em todas as vertentes da nossa vida.

 

O papel da mulher evoluiu na sociedade, mas mulheres emancipadas não são algo recente, sempre as existiram, embora em menor número e isso nunca significou que pudessem por isso serem tratadas de forma diferente.

A afirmação da mulher na sociedade, a sua igualdade de direitos e oportunidades, não pode e não deve ser impedimento de serem tratadas com respeito e consideração, não pode ser a desculpa para os homens deixarem de ser cavalheiros, assim como não é desculpa para as mulheres deixarem de ser damas. (Não confundir com as damas do hip pop).

 

Respeito, honra, integridade, retidão, educação, dignidade, decência, proteção, empatia e solidariedade parecem valores ultrapassados sobrepostos pelo egoísmo e foco no próprio umbigo e para horror da humanidade o instinto protetor e o dever de auxílio tem sido substituído pelo instinto da fama, do aparecer, do mostrar, do querer ser o primeiro a relatar, o herói passou a ser quem divulga a vítima e não quem salva a vítima.

Como seriam as bandas desenhadas se os heróis em vez de salvarem as vítimas as fotografassem e filmassem?

 

A linha que separa um galanteio de um piropo é clara e definida, é a diferença entre um cavalheiro e um bronco.

A diferença entre um piropo e assédio é simples, ambos não deveriam existir.

Quando o juiz é carrasco – libertem-se

Ainda sobre o impossível acórdão redigido pelo juiz Neto de Moura vieram agora à luz novos acórdãos não menos repugnáveis e execráveis pelo cunho do mesmo.

Em 2013 o juiz não considerou que um murro desferido a uma mulher que segurava no colo um bebé de apenas nove dias de vida e uma mordida à sua mão fosse violência doméstica.

 

"é manifesto que essa conduta do arguido não tem a gravidade bastante para se poder afirmar que foi aviltada a dignidade pessoal da recorrente [a vítima], mesmo tendo em conta que a assistente estava com o filho (então com nove dias de vida) ao colo", pode-se ler no acórdão. Neto de Moura considerou que o murro teve pouca força, uma vez que o nariz ficou apenas "ligeiramente negro de lado" e que a mão da vítima não apresentava "lesões aparentes."

O homem foi absolvido do crime de violência doméstica e foi condenado por ofensas à integridade física e ao pagamento de uma multa de 350 euros.

 

Em 2016, o mesmo juiz anulou uma sentença de dois anos e quatro meses de prisão em pena suspensa por violência domestica agravada. Qual a justificação dada?

"Uma mulher que comete adultério é uma pessoa falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral. Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira, para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus-tratos. Que pensar da mulher que troca mensagens com o amante e lhe diz que quer ir jantar só com ele 'para no fim me dares a sobremesa [sic]'?"

"Revelou-se a denunciante merecedora do crédito total e incondicional que o tribunal lhe atribuiu? A resposta só pode ser um rotundo não. Em boa verdade, a denunciante não é, propriamente, aquela pessoa em que se possa acreditar sem quaisquer reservas"

 

Há claramente uma tendência para a culpabilização da mulher e para desculpabilização do homem, os argumentos para além de grotescos e completamente ao lado da lei e da Constituição representam claramente o ponto de vista de um homem que não tem qualquer respeito pelas mulheres, é este tipo de pessoas que queremos ver a decidir a nossas vidas?

 

Os sermões dados pelo juiz não são apenas representativos a sua mentalidade retrograda, mas de uma profunda empatia para com os agressores, pois a sua moral elástica estica e encolhe conforme lhe é mais conveniente, pois soube desculpar o marido pelo adultério da esposa e que desculpa usou para atenuar a pena do amante? Terá o amante uma conduta mais adequada que a mulher, não será ele falso, hipócrita e desonesto?

E porque não foi ele buscar as leis medievais que puniam os amantes?

E qual a desculpa que ele apresenta para um marido que agrediu a esposa com o seu filho no colo? Que o golpe não foi suficientemente forte? Estava à espera de quê que ele a marcasse para toda a vida?

 

A violência doméstica é um crime com demasiada expressão em Portugal, protegido pelo medo, pela vergonha, pela cultura e quando as mulheres colocam a descoberto os crimes o que é recebem da justiça? Uma lição de moral e uma desculpabilização do agressor.

As penas são curtas, muitas vezes suspensas, as agressões são repetidas uma e outra vez e levam muitas vezes à morte das vítimas, quando algumas se defendem e no desespero acabam por cometer homicídio, raramente o mesmo é visto como legítima defesa e muitas acabam presas.

Como é que uma mulher que é constantemente vítima de agressões físicas e psicológicas, que se vê encurralada pela sociedade, desprotegida pelas autoridades, em desespero defende a sua vida e muitas vezes a dos filhos pode ser condenada?

Que justiça é esta que defende e protege os agressores?

 

Uma pena que em Portugal os julgamentos não sejam realizados por um júri, ao menos assim, as pessoas estariam sobre escrutínio do povo e não de um grupo de elitistas armados em padres pregadores da moral e dos bons costumes do tempo da Idade Média.

Gostava de acreditar que todo este mediatismo servisse para primeiro afastar o juiz em causa e em segundo para lançar o debate sobre o sistema judicial português, o código penal e a forma como as leis são aplicadas, revendo também processos e acelerando-os, pois as demoras nos julgamentos são incomportáveis.

Não acredito que nenhuma das duas aconteça.

 

Como podemos então proteger-nos da justiça, como podemos proteger-nos destes carrascos?

Não permitindo que exista violência sobre as mulheres e isso só as mulheres o podem fazer.

Unam-se, imponham-se, eduquem filhas, irmãs, primas, sobrinhas, amigas, colegas, conhecidas, eduquem-nas para serem fortes, astutas e para nunca, nunca se deixarem amedrontar, denominar e rebaixar por um homem.

E eduquem também os homens para serem nobres, cavalheiros e respeitadores, pois só os broncos, grunhos e medíocres usam a força para dominar outro ser humano.