Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

Igualdade salarial na Islândia – Todos deviam seguir o exemplo.

A Islândia tornou-se o primeiro país do mundo a estabelecer por lei a igualdade salarial entre homens e mulheres. De acordo com a lei, empresas privadas e agências governamentais que tenham mais de 25 funcionários passam a ser obrigadas a obter uma certificação oficial das suas políticas de igualdade salarial de género, as entidades não cumpridoras serão multadas pelo Estado.

O atual governo islandês liderado por Katrín Jakobsdóttir, uma ecologista, pacifista e feminista considerada em 2016 como a personalidade política de maior confiança pelos islandeses quer erradicar as desigualdades salariais até 2020.

 

É lamentável que em 2018 ainda seja necessário legislar sobre a igualdade salarial entre os géneros, uma vez que a mesma deveria ser natural, se duas pessoas desempenham a mesma função devem ser renumeradas da mesma forma.

Ainda mais lamentável é ler os comentários às notícias desta lei, impressionante a quantidade de pessoas alienadas da realidade e perturbadora a quantidade de pessoas machistas e antifeministas.

Os salários, os prémios e as progressões na carreira são um tema complexo, as pessoas não trabalham todas da mesma forma e umas são efetivamente mais competentes do que outras, isso infelizmente nem sempre é refletido nas remunerações, há injustiças um pouco por toda a parte.

Há pessoas mais eficientes, mais trabalhadoras, mais esforçadas, mais focadas, há, mas não é o género que dita se são mais competentes ou aptas para determinada função, mas a personalidade e as caraterísticas da própria pessoa.

 

Os homens e até algumas mulheres costumam usar a desculpa das capacidades físicas, da força, nem esse argumento é válido, primeiro porque há mulheres com extraordinária força física e homens que não podem com um saco de batatas, depende muito da genética e do exercício e esforço físico que se vai fazendo ao longo da vida, além, disso quando uma mulher se propõe a fazer um trabalho que envolve força é porque tem força suficiente para o desempenhar.

Durante a Segunda Guerra Mundial as mulheres tiveram que assegurar todo o tipo de trabalhos que envolviam um enorme esforço físico, a que se juntava racionamento que resultava numa alimentação deficiente, nem por isso as fábricas pararam, continuaram a laborar.

É preciso acabar de uma vez por todas com este estigma, não podemos pagar mais a um homem só porque é homem, não inventem desculpas esfarrapadas pois com certeza que Katrín Jakobsdóttir quando pensou na lei não estava a pensar nos trabalhos mais pesados realizados maioritariamente por homens, estava a pensar em trabalhos onde o esforço físico está ao nível de mexer olhos e dedos à medida que se debita, introduz, lê, processa, converte, desenha, escreve informação em frente a um PC.

 

Aqueles que acham que não existem desigualdades salariais do género em Portugal ou estão inseridos num meio privilegiado ou gostam de enterrar a cabeça na areia para ver se os outros também não as conseguem ver.

Portugal e todos os outros países deveriam seguir o exemplo, deixando claro que não é admissível qualquer diferença que assente na diferença do género. Isto válido para os ordenados e para todas as outras situações seja no mundo empresarial, seja no mundo social.

Todos temos os mesmos deveres, todos devemos ter os mesmos direitos.

 

Nestlé Chocolates com publicidade machista.

Vivemos numa sociedade patriarcal, onde homens assumem poderes de liderança e mulheres ainda fazem a maior parte das tarefas domésticas e cujo papel principal continua a ser a maternidade, no meu mundo ideal homens e mulheres nunca serão iguais, mas devem ser vistos como tal e terem as mesmas oportunidades e direitos, e não devem de tudo ser estigmatizados em nenhum campo da sua vida pessoal ou profissional.

Nos últimos tempos têm sido várias as polémicas que em torno deste assunto, a mais audível terá sido a do Bloco de Atividades para Menina e para o Menino, tal como escrevi na altura não vejo problemas que existam livros para meninos e livros para meninas, é uma segmentação como outra qualquer, e não sendo obrigatórios os pais terão a última palavra a dizer, mas há estigmas que não podem continuar a entrar-nos em casa em horário nobre sistematicamente sem que ninguém fale deles.

Vejam o novo anúncio da Nestlé Chocolates

 

O anúncio estigmatiza a mulher e o homem, colocando a mulher como mãe e o homem como um profissional de sucesso, compreendo a tentação, a primeira parte do anúncio é gira, embora não seja o ideal em termos de educação, pois creio que podiam oferecer a uma mãe ou pai a quantidade de chocolates que quisessem que qualquer um que visse aquela parede iria ficar extremamente irritado, mas é fofinho, a mensagem dos filhos é bonita e a mãe enternece-se com a intenção.

Estaria tudo muito bem se o anúncio terminasse ali, mas a Nestlé resolveu a seguir mostrar um homem de sucesso no seu escritório a deliciar-se com mais uma conquista profissional, não há propriamente uma ligação e nada nos diz que é o pai das crianças, mas há margem suficiente para ser.

A conclusão que fica do anúncio para uma criança é que a mulher é mãe e o pai um homem de negócios.

Não sou fundamentalista, esta situação facilmente poderia ser atenuada se colocassem uma terceira situação neutra, mas da forma como é apresentado é machista.

 

O que é que a Nestlé faz? Outro vídeo machista: 

 

 

Primeiro vemos um menino que quer aprender e está a brincar de cientista e de seguida vemos uma avó a ensinar a neta a fazer doces. Poderá existir estigma maior do que colocar as mulheres na cozinha e os meninos a fazer experiências?

Os vídeos isolados parecem inofensivos, mas em conjunto são altamente preconceituosos e se o intuito era relembrar-nos que o chocolate está presente nos melhores momentos da nossa vida, no meu caso só serviu para me recordar que continuo a ser vista como mãe e cozinheira.

 

Segundo o jornal Briefing “ A campanha materializa-se em quatro filmes - dois dos quais estão a passar em TV, durante o mês de dezembro -, que mostram momentos vividos por várias gerações com os chocolates Nestlé, em diferentes contextos do quotidiano: em família, em casal, com amigos e até a sós.”

Vi um terceiro vídeo que mostra dois casais apaixonados de idades diferentes, nada de extraordinário, não consegui encontrar o quarto.

 

O que me pergunto é como deixam passar uma situação destas? Não há ninguém que analise os conteúdos que pense em como as pessoas reagirão à mensagem? Devemos tentar prever todos os cenários, todas as reações e sendo impossível de prever tudo esta reação é quase imediata, bastou-me ver uma vez o anúncio uma única vez para pensar – Mais um anúncio tipicamente machista.

O machismo na publicidade é recorrente, mas esta mais do que na hora de mudarem esta estratégia, primeiro porque não faz sentido e segundo porque o consumidor esta cada vez mais atento a estas situações.

Let It Go – O legado de Frozen

Os filmes de animação, as BD, os contos e as fábulas para além de entreter servem para aprender.

O que é que eu aprendi com a Frozen?

A Let It Go que alguém se lembrou de traduzir para “Já passou” (nunca entendi muito as traduções para português de algumas músicas e títulos de filmes, mas isso fica para outro post), na verdade a tradução é - Deixa Ir ou numa expressão que faça mais sentido para nós – Esquece, no Brasil traduzem para – Deixe para lá e faz todo o sentido.

A tradução é irrelevante o que interessa é o significado que é esquecer, deitar para trás das costas, seguir em frente, não dar importância.

 

Não perder tempo com trivialidades é fácil, é uma questão de exercício, de nos focarmos nas coisas importantes, de priorizarmos, mas deixar de racionalizar o que não concordamos de todo, atitudes que nos afetam diretamente e que não podemos mudar é muito, mas muito mais difícil, especialmente quando sabemos que nos obrigam a ter trabalho desnecessário ou que serão em vão, é uma dor de cabeça relevar, deixar passar algo que nos revolta as entranhas.

Dizer aos outros para não pensar tanto, para ignorar é fácil, no fundo todos sabemos que não há lógica em tentar mudar o que não temos poder de mudar e que não ganhamos nada em consumirmos o nosso tempo e a nossa paciência a reclamarmos e a tentar encontrar sentido onde ele não existe, só que por vezes não há alternativa, temos mesmo de processar as coisas, falar sobre elas para conseguirmos seguir em frente.

 

Estou a aprender a Let It Go, não tem sido um processo fácil, nunca foi, sempre detestei fazer fosse o que fosse que não concordasse, o que é um pesadelo na minha vida profissional, junto a isso teimosia e persistência e acabo por ser demasiado insistente, cansativa e muitas vezes sem grande resultado, porque raramente quem decide ouve opiniões contrárias.

Tenho ainda outro defeito, não consigo calar-me quando mais tarde se vem a provar que tinha razão, e não basta dizer uma ou duas vezes, digo-o sempre que se toca no assunto, é mais forte que eu, é um impulso de demonstrar que deviam ter confiado no meu julgamento.

 

Porque é que faço isso? Porque as pessoas têm memória curta e tendem a esquecer de quem foram as ideias e apoderam-se delas como sendo coletivas, nada contra, falar em equipa em trabalho de grupo é excelente, o único problema é que mais tarde num novo conflito de ideias esquecem-se de quem é que esteve certo todas as vezes e tendem a cometer o mesmo erro de ignorar opiniões.

Num ambiente masculino como mulher tenho muitas vezes dificuldade em fazer-me ouvir, a juntar a isso sou das pessoas mais novas do grupo e para ajudar sou naturalmente simpática, uma combinação que não abona em nada a minha credibilidade, não raras as vezes tenho de esticar o pescoço, fazer um olhar frio, elevar uns decibéis à voz num tom firme e grosso para que me ouçam.

Modéstia à parte raramente me engano, no que toca a estratégias em quase 10 anos nesta empresa nunca me equivoquei. Alguém se lembra disso? Para além das pessoas do meu departamento, ninguém se recorda ou preferem fazer de conta.

 

Na vida pessoal as coisas não são muito diferentes, tenho a mesma necessidade de afirmar e reafirmar a verdade, de repetir as vezes que forem necessárias que não pode ser e no caso de alguém ser injustiçado, é motivo para andar dias e dias a pensar no assunto e sempre que se fala do tema, falo porque não consigo ficar calada.

Ninguém gosta de ouvir verdades que incomodam, frontalidade e sinceridade só ficam bem nas cifras dos murais das redes sociais, depois na vida real todos têm medo de falar, porque ferir suscetibilidades é arriscado, quem é que quer ser visto como desmancha-prazeres?

Se me inibo de ser desagradável por educação, se me inibo de dar opinião quando a mesma não é pedida, quando me pedem opinião ou me envolvem nos assuntos não consigo mentir, tendo ser o mais cordial possível e há formas inteligentes de dizermos que não concordamos, mas se o assunto é sério e me afeta diretamente ou a alguém que me é querido, o filtro desaparece e basicamente o meu discurso deixa de ser polido e passa ser frio e direto e por vezes até cruel.

Esta frontalidade é muitas vezes mascarada pela feminilidade e simpatia o que faz com que algumas pessoas fiquem estupefactas quando me zango, dá imenso jeito porque no meio do espanto nem têm tempo de reação.

Apesar de ser uma pessoa com pouca paciência é preciso bastante para perder as estribeiras, mas quando isso acontece roço a loucura de tanta fúria que liberto.

 

Não devemos guardar dentro de nós mágoas, assuntos por resolver, fúrias, desgostos, ressentimentos, mas nem sempre é bom ser explosivo por isso é que estou a aprender a ser moderada e a não me importar tanto, não posso estar constantemente revoltada com o mundo, não o conseguirei mudar por isso mais vale concentrar-me no que consigo mudar e deixar de lado o que não posso ou que não me compete.

É difícil, para mim é especialmente difícil fazer isto, não faz parte de mim, mas a vida ensina-nos a mudar para melhor e sobretudo a viver melhor e eu para viver melhor não me posso importar tanto.

Por isso canto com um sorriso nos lábios:

Let It Go

Let It Go