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Língua Afiada

“Casas perfeitas para fazer uma escapadinha discreta com a sua amante” WTF?

Não, não é o título de um romance de cordel, é o título de uma notícia.

A NiT que por acaso é uma publicação que sigo e que costumo ler com regularidade, estava a ficar com falta de títulos chamativos e resolveu dar este a uma lista de locais recônditos onde passar uma noite romântica.

Locais à parte, que são lindos e merecem uma visita, o título da notícia e o texto são desconcertantes.

 

Na última vez que me informei adultério é crime e para além de ser crime não é um comportamento aceitável socialmente, ou não deveria ser, especialmente nos casos onde a pessoa traída não sabe que o é, o exemplo dado na notícia.

 

“Este texto foi pensado para os leitores que passam muitas noites fora de casa sob o pretexto de que têm viagens de negócios super importantes. Não temos nada a ver com isso e nem sequer vamos entrar num debate moral sobre isso. Até porque pode muito bem ser verdade. Vamos limitar-nos a dar soluções para o caso de estar entediado — da vida, do emprego, do que o rodeia — e precisar de um sítio escondido onde ninguém o consegue encontrar.”

 

O texto está tão carregado de estereótipos, preconceitos e ideias preconcebidas, que só faltava mesmo descrever o marido como galã, a esposa como totó e a amante como sexy.

Para além do teor sexista e machista como só os homens tivessem direito a uma escapadinha do tédio da vida, há ainda uma caraterização do sexo masculino que traí, homem de negócios, com uma vida preenchida, supostamente com monotonia em casa e com predisposição para trair.

 

Depois de ler as observações aos locais sugeridos ainda fiquei ainda mais abismada, atentem nas preciosidades:

“Pronto, não precisa de dois quartos, mas o que interessa mesmo é aquele que fica no último piso, em open space.”

“Não se preocupe, estão suficientemente longe uma das outras.” Referindo-se a existirem várias casas.

“(caso se sinta suficientemente seguro para dar uma voltinha)” referindo-se a atividades disponíveis nas imediações.

“dois quartos — quando ficar farto de um, já sabe que tem o outro. É que isto de estar sempre dentro de casa também cansa.”

 

Bem sei que sugestões destas não fazem ninguém trair, a predisposição para isso já tem de existir, no limite pode ser a último incentivo para isso, mas este tipo de notícias dá legitimidade ao comportamento, é uma espécie de bênção pública, a autora escusa-se de julgamentos morais, mas ao fazer esta notícia já o faz, faz parecer um comportamento normal, aceitável e esperado, que só por isso seria mau, mas ela confere-lhe ainda o toque machista para ficar ainda pior.

Esta notícia faz lembrar as publicações dos anos dourados, quando as mulheres liam revistas de boas maneiras e as revistas de negócios estavam reservadas aos homens que dedicavam mais tempo às secretárias do que às esposas.

A tudo isto ainda acresce o estigma que uma noite a sós num local edílico está reservada para a amante como se um casal de esposos ou de namorados não pudesse querer esconder-se do mundo e ter uma noite de amor.

 

A esta altura não esperava que uma mulher escrevesse um texto destes, é demasiado mau.

Não, não é falta de sentido de humor, porque o texto não é humorístico, nem sequer tenta ser engraçado, é mesmo só totalmente descabido.

Filhos de quatro patas?

Adoro animais, cresci rodeada deles, sempre tive animais de estimação cães, gatos e mais do que uma espécie de pássaros, houve também um pato selvagem, para além dos animais de estimação tínhamos os animais de criação, coelhos e galinhas e na quinta da minha tia a estes juntavam-se ovelhas, vacas, porcos, cabras, chinos, granizos, patos, gansos, perus e todos os animais que podemos encontrar numa quinta.

 

Deixei de comer carne de coelho porque lhes criei tal afeição que simplesmente não consigo conceber essa ideia, seria incapaz de comer carne de cavalo e só como outras carnes porque entretanto deixei de conviver com animais de criação, pois o próximo passo seria provavelmente deixar de comer cabrito e assim sucessivamente.

 

Tenho um profundo respeito pelos animais, mas cresci a vê-los serem criados para matar e comer, por isso a exploração pecuária para mim é natural, não me repudia e não me incomoda, incomoda-me sim que sejam criados muitas vezes em condições deploráveis e alimentados à força para crescerem rapidamente.

 

Nas pequenas criações, pelo menos as que conheço e conheci, os animais são criados com respeito e até amor, isto pode parecer estranho para quem não conhece esta realidade, mas não é incomum os donos falarem com eles, darem-lhes nomes e até carinho, os cabritos por exemplo são animais muito dóceis e é quase impossível não os acarinhar.

Todo o carinho e respeito não impede que tenham o destino traçado, são criados para comer, muitos apenas para consumo próprio, outros para realizar pequenas vendas na comunidade local.

 

A matança do porco é sempre uma festa em qualquer casa, junta-se a família e os vizinhos e é um dia onde a comida e a bebida não faltam, se esta festa tem um lado grotesco e primitivo? Hoje, tenho consciência que sim, já que o animal sofre, especialmente se o matador não for experiente.

Como é possível conviver com isto e ter um amor desmesurado pelos animais?

Não em perguntem pois não sei explicar, mas sei que tenho.

 

Também não consigo entender quem chama filhos aos animais e quem diz que os ama como tal, compreendo que os animais fazem parte da nossa família, os meus fazem, as minhas gatas fazem parte da minha vida e o amor que sentem por nós é mágico e comovente, mas daí a chamar-lhes filhas, para mim, vai uma longa distância.

 

Depois de muito pensar sobre o assunto penso que os coloco noutro patamar por uma razão prática, não é natural os pais verem os seus filhos morrerem, é suposto os filhos darem continuidade aos pais, por isso como encarar como descendência um ser vivo que sabemos à partida não sobrevirá a nós?

 

Todos sabemos que os cães os gatos têm uma esperança de vida muito inferior à nossa, tenho uma ligação especial com gatos e lembro-me do meu primeiro gato, acompanhou-me nos primeiros anos de vida e quando morreu foi um trauma tão grande que a minha mãe só me deixou ter outro gato um par de anos mais tarde, quando morreu a história repetiu-se só muito mais tarde tive outro, pois o desgosto foi tão grande que era preciso tempo para fazer o luto e a história voltou-se a repetir uma e outra vez, os gatos são animais livres, caçadores, a probabilidade de lhes acontecer algo é muito grande.

 

Com os cães passou-se o mesmo, a primeira cadela morreu quando tinha 3 anos, tenho vaga memória dela, mas segundo a minha mãe, falava dela todos os dias, adotamos outro cão, era uma alegria, brincava connosco como se fosse nosso irmão, um dia soltou-se e morreu atropelado, ficámos desolados, dias depois trouxeram-me um cachorrinho lindo, andava com ele para todo o lado como se fosse um bebé, infelizmente adoeceu e morreu uns meses depois, não quis mais cães.

 

Quem adota uma animal deve ter para com ele a mesma responsabilidade que tem com um filho, pois tal como os filhos quando nascem dependem de nós para se alimentarem, carecem de abrigo e proteção.

Os nossos animais devem ser bem tratados e respeitados, devemos retribuir-lhes o carinho e amor que nos dão incondicionalmente.

 

Mas chamar-lhes filhos? Só mesmo em sentido figurado.

Não consigo conceber a dor que é perder um filho, conheço a dor de perder um animal e não pode sequer ser comparável, dói, deixa saudades, deixa um vazio, mas não é a mesma coisa.

A responsabilidade é a mesma, o amor pode ser comparável por ser infinito, mas a dor?

A dor de perder um animal, por mais amor que lhe tenhamos, jamais pode ser comparada à dor de perder um filho ou um ente querido.

Por isso para mim não existem filhos de quatro patas, existem amigos, companheiros, família se quiserem, mas nunca filhos.

Chega de politiquices

 

Em Portugal, e acredito que no mundo, tudo é pretexto para fazer política, perdão, politiquice, seja pela parte dos partidos políticos no poder, seja por parte dos partidos da oposição.

Quanto maior a tragédia maior o placo para os políticos atuarem, parecem astros da sétima arte, só lhes falta distribuir autógrafos, já dão abraços e beijos e até já tiram selfies, só falta mesmo começarem a assinar a testa das pessoas.

 

Perante uma calamidade não importa ajudar o mais rapidamente possível, auxiliar as pessoas, fazer o necessário para que se retome a normalidade, não da vida, mas das rotinas, porque a vida essa já sabemos nunca mais será igual, nada disso é importante, o prioritário é descartar responsabilidades, ficar bem no retrato e garantir os cargos, tranquilizar que foi feito tudo que estava ao seu alcance, passar uma imagem de consternação, descansar a população para que esta se conforme rapidamente, se cale e se esqueça.

 

Quando se questiona alguma coisa, recebemos o mesmo discurso, está tudo esclarecido, está tudo tratado, está a ser feito tudo o que é possível, as autoridades estão a investigar, agora até o Segredo de Justiça é desculpa para ganhar tempo.

 

Na oposição erguem-se as vozes contrárias, exigem-se explicações, até se fazem ultimatos, basicamente fazem o que quem está na oposição faz sempre e por isso ninguém os leva a sério, estão simplesmente a usar os erros de quem esta no poder para obter o poder mais depressa.

 

Que os políticos façam politique eu entendo, embora não concorde, entendo, já que para eles o importante é chegar ao poder, desengane-se quem pensa que eles se sentem incumbidos de salvar o país, de operar uma grande mudança, de deixarem Portugal melhor do que antes o encontraram, o que eles querem é assegurar uma pensão vitalícia e constar na história e para isso não precisam de fazer algo relevante, assumirem o cargo é suficiente para constarem da lista.

 

O que me surpreende é que o próprio povo faça politiquice e que o jornalismo seja conivente com isso, não se pode questionar nada, se questionamos é porque somos fascistas ou comunistas e estamos contra o Governo.

 

É impressionante como as pessoas incorporam os ideais partidários, os seus dirigentes ultrapassam-nos, moldam-nos a seu gosto, pisam-nos, fazem o que for preciso para conseguirem chegar ao poder, mas o povo continua fiel aos princípios de cada cor, cegos, tão cegos que batem com a cabeça na parede uma e outra vez, mas a cruz na folha de voto tem lugar cativo.

Será assim tão difícil descolar do ideal de um partido para fazer uma análise isenta das situações? Parece quase que estamos a falar de clubes de futebol, onde a cegueira é tanta que até se o jogador partisse a perna do adversário dentro da área continuariam a dizer que não era penálti.

 

Questionar a atitude do Governo, pedir responsabilidades, exigir respostas não significa que queremos ver o Governo cair, significa apenas que estamos atentos e que queremos respostas.

Sr. Primeiro-Ministro António Costa não está tudo esclarecido, antes pelo contrário, não está nada esclarecido, não sei se acreditam nisso, se estão a tentar ganhar tempo para apresentar uma desculpa mirabolante como o material obsoleto de Tancos ou a tentar que a tragédia caia no esquecimento, independentemente da estratégia tenha uma certeza, o povo não esquecerá, não deixará passar em branco.

 

Exigimos a verdade, queremos transparência e rigor.

Já agora deixem o discurso politicamente correto e as operações de charme e façam alguma coisa concreta para ajudar as vítimas, o dinheiro angariado de nada serve se não chegar a quem de direito.