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Língua Afiada

Esperança e desolação, a ambiguidade do desejo

Desejo-te tanto só para te perder, sempre que partes, fica a esperança de te alcançar.

Esfumas-te pelos meus dedos, tento agarrar-te, prender-te com laços inexistentes, ainda por criar, deslaças-te, ofuscas-te nos meandros do sonho irrealizado.

Sinto-me desolada, abandonada por quem nunca me acolheu, as minhas frágeis aspirações quebram-se, aniquilam-se pelo esmagador desânimo da derrota.

Novos mundos edifico na minha mente, realidades onde aconteces, pertences, dominas, qual perfeição almejada impossível de concretizar, mas tão certa, tão correta, tão feliz, tão radiante, tão minha e concreta que é desconcertante acordar para a verdade sem ti.

Não fazes parte de mim, mas acompanhaste-me durante toda a minha existência, não existo sem ti e no entanto, vivo, respiro, desejo só para me desesperar pela tua ausência.

Um dia despertarás em mim e eu despertarei do sonho para vida, num apogeu tudo fará sentido, desejo e objeto alinhar-se-ão como astros celestiais, o meu universo fundir-se-á com os castelos encantados das minhas quimeras, um novo cosmos onde anseios e verdades se encontram e completam.

Desejo-te, perco-te, a desolação assola-me, só para a esperança gritar bem alto, espera, acalma-te um dia ele chegará, nesse dia a felicidade entrará pela tua vida e nunca mais te abandonará.

Crescer magoa

Crescer magoa, não os ossos mas a alma.

O fardo da vida estilhaça-nos as fantasias.

A realidade dilacera as ilusões.

Sentimos a dor de cada objetivo perdido, de cada sonho desfeito em nada.

Certezas que passam a insignificâncias.

Verdades basilares que se transformam em mentiras descaradas.

Valores que passam a mesquinhezes.

Importâncias que se revelam pequenezes.

Camada a camada esfolamos a pele interna da inocência.

Sangramos um sangue inócuo e transparente.

Não se vê, sente-se, a escorrer pelas veias do pensamento.

Crescer magoa, sangra sem sangrar.

Abre feridas invisíveis e terríveis

As piores de curar, algumas incuráveis

Ficam como chagas abertas na memória

Que trazemos presente todos os dias.

Crescer magoa, não a carne mas a alma.

O meu puzzle

Quando tudo parece alinhar-se para formar o quadro perfeito, mas há uma peça que não tem lugar, não conseguimos resolver o puzzle.

As adversidades da vida fazem-nos crescer, amadurecer e ganhar resistência, moldam-nos para que a massa de que somos feitos endureça, fique mais rígida para resistir aos mais violentos golpes sem quebrar.

Somos capazes de resistir a muito mais do que imaginamos, a capacidade de recuperação do ser humano é infinita, só precisamos de duas coisas amor e determinação.

Somos capazes de ultrapassar dificuldades, dilemas, desgostos, erguemo-nos das cinzas, das tragédias, do nada, mas não fomos feitos para esperar, não sabemos lidar com a incerteza, com o acaso e com a dúvida.

Uma espera, uma angústia, uma incerteza, uma dúvida, qualquer sentimento que se transforme em ansiedade é o mais terrível fardo de carregar, é um nó impossível de desfazer, não há fio condutor, a certeza de não saber é a pior das certezas, só comparável à angústia da certeza da morte.

Não falamos da morte porque não suportamos a certeza que ela um dia virá sem nunca sabermos quando, é um saber sem saber, um facto sem data, impossível de situar, é um paradoxo.

O puzzle é um quadro bonito, feliz, sereno, levemente agitado apenas pelos pequenos distúrbios do dia-a-dia, mas falta uma peça, que por mais que tente, não consigo encaixar, não consigo completar o quadro.

Todas as peças que fui posicionando gentilmente acabaram por se revelar maravilhosas, livrei-me das peças gastas, das disformes e das que me faziam sentir triste, selecionei apenas as que interessavam, e preparei a vinda de peças futuras, pois o puzzle, o meu puzzle bem sei nunca estará completo, nunca será definitivo. Mas há uma peça que não encaixa, uma peça que não tenho previsão de encaixar.

Esta incerteza, esta ansiedade silenciosa, é como um poço fundo que me suga toda a vitalidade, retira-me vontade, criatividade, iniciativa, deixa-me cansada, exausta.

Que puzzle bonito! Penso olhando para ele, porque é que esta peça não se enquadra?

Já tentei coloca-la de todas as formas, já tentei esquece-la, arruma-la numa prateleira, mas ela assombra-me à noite, à socapa, grita para ser colocada, mesmo sem lugar.

A vida tem destas coisas, quando tudo parece que encontrou lugar, quando tudo parece fazer sentido, quando estamos preparados para colher os frutos de anos de preparação e dedicação, eis que falta uma peça para completar o puzzle e somos incapazes de desfrutar da nossa obra de arte.

Num momento estamos estasiados com a conquista, no seguinte, derrotados com a falha, um carrossel de emoções desgastante e enlouquecedor.

Assim é a vida, incerta e indefinida, felizes dos que ainda acreditam que é possível planeá-la, desenhá-la, dividi-la em pequenas peças que simplesmente precisam de colocar na ordem e no local certos para pintarem o seu quadro.