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Língua Afiada

Crescer magoa

Crescer magoa, não os ossos mas a alma.

O fardo da vida estilhaça-nos as fantasias.

A realidade dilacera as ilusões.

Sentimos a dor de cada objetivo perdido, de cada sonho desfeito em nada.

Certezas que passam a insignificâncias.

Verdades basilares que se transformam em mentiras descaradas.

Valores que passam a mesquinhezes.

Importâncias que se revelam pequenezes.

Camada a camada esfolamos a pele interna da inocência.

Sangramos um sangue inócuo e transparente.

Não se vê, sente-se, a escorrer pelas veias do pensamento.

Crescer magoa, sangra sem sangrar.

Abre feridas invisíveis e terríveis

As piores de curar, algumas incuráveis

Ficam como chagas abertas na memória

Que trazemos presente todos os dias.

Crescer magoa, não a carne mas a alma.

O meu puzzle

Quando tudo parece alinhar-se para formar o quadro perfeito, mas há uma peça que não tem lugar, não conseguimos resolver o puzzle.

As adversidades da vida fazem-nos crescer, amadurecer e ganhar resistência, moldam-nos para que a massa de que somos feitos endureça, fique mais rígida para resistir aos mais violentos golpes sem quebrar.

Somos capazes de resistir a muito mais do que imaginamos, a capacidade de recuperação do ser humano é infinita, só precisamos de duas coisas amor e determinação.

Somos capazes de ultrapassar dificuldades, dilemas, desgostos, erguemo-nos das cinzas, das tragédias, do nada, mas não fomos feitos para esperar, não sabemos lidar com a incerteza, com o acaso e com a dúvida.

Uma espera, uma angústia, uma incerteza, uma dúvida, qualquer sentimento que se transforme em ansiedade é o mais terrível fardo de carregar, é um nó impossível de desfazer, não há fio condutor, a certeza de não saber é a pior das certezas, só comparável à angústia da certeza da morte.

Não falamos da morte porque não suportamos a certeza que ela um dia virá sem nunca sabermos quando, é um saber sem saber, um facto sem data, impossível de situar, é um paradoxo.

O puzzle é um quadro bonito, feliz, sereno, levemente agitado apenas pelos pequenos distúrbios do dia-a-dia, mas falta uma peça, que por mais que tente, não consigo encaixar, não consigo completar o quadro.

Todas as peças que fui posicionando gentilmente acabaram por se revelar maravilhosas, livrei-me das peças gastas, das disformes e das que me faziam sentir triste, selecionei apenas as que interessavam, e preparei a vinda de peças futuras, pois o puzzle, o meu puzzle bem sei nunca estará completo, nunca será definitivo. Mas há uma peça que não encaixa, uma peça que não tenho previsão de encaixar.

Esta incerteza, esta ansiedade silenciosa, é como um poço fundo que me suga toda a vitalidade, retira-me vontade, criatividade, iniciativa, deixa-me cansada, exausta.

Que puzzle bonito! Penso olhando para ele, porque é que esta peça não se enquadra?

Já tentei coloca-la de todas as formas, já tentei esquece-la, arruma-la numa prateleira, mas ela assombra-me à noite, à socapa, grita para ser colocada, mesmo sem lugar.

A vida tem destas coisas, quando tudo parece que encontrou lugar, quando tudo parece fazer sentido, quando estamos preparados para colher os frutos de anos de preparação e dedicação, eis que falta uma peça para completar o puzzle e somos incapazes de desfrutar da nossa obra de arte.

Num momento estamos estasiados com a conquista, no seguinte, derrotados com a falha, um carrossel de emoções desgastante e enlouquecedor.

Assim é a vida, incerta e indefinida, felizes dos que ainda acreditam que é possível planeá-la, desenhá-la, dividi-la em pequenas peças que simplesmente precisam de colocar na ordem e no local certos para pintarem o seu quadro.

É preciso mais coragem para ir ou para ficar?

De um lado o sonho, do outro a realidade.

De um lado o desconhecido, do outro os factos.

De um lado a ilusão, do outro a consciência.

Ficar com o que conhecemos ou partir à descoberta do desconhecido?

Ter a coragem de recomeçar de novo…

Ou ter coragem de ficar e reinventar a realidade?

Entregar a saudade à adrenalina ou despedaçar o desânimo pela proximidade?

Dar uma oportunidade à sorte ou mudar a sorte à sorte dos dias?

É preciso coragem para ir.

É preciso coragem para ficar.

Aconteça o que acontecer podemos sempre voltar.

Aconteça o que acontecer podemos sempre partir.

Não são mais corajosos os que partem, não são mais corajosos os que ficam.

São corajosos todos os que cá ou lá lutam pela vida.

Nem todos os que partem são aventureiros, nem todos os que ficam são comodistas.

Não há vencedores, não há derrotados.

Não há heróis, não há vilões.

Há os que escolhem ir, há os que escolhem ficar.

É preciso coragem para ir.

É preciso coragem para ficar.