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Língua Afiada

É preciso mais coragem para ir ou para ficar?

De um lado o sonho, do outro a realidade.

De um lado o desconhecido, do outro os factos.

De um lado a ilusão, do outro a consciência.

Ficar com o que conhecemos ou partir à descoberta do desconhecido?

Ter a coragem de recomeçar de novo…

Ou ter coragem de ficar e reinventar a realidade?

Entregar a saudade à adrenalina ou despedaçar o desânimo pela proximidade?

Dar uma oportunidade à sorte ou mudar a sorte à sorte dos dias?

É preciso coragem para ir.

É preciso coragem para ficar.

Aconteça o que acontecer podemos sempre voltar.

Aconteça o que acontecer podemos sempre partir.

Não são mais corajosos os que partem, não são mais corajosos os que ficam.

São corajosos todos os que cá ou lá lutam pela vida.

Nem todos os que partem são aventureiros, nem todos os que ficam são comodistas.

Não há vencedores, não há derrotados.

Não há heróis, não há vilões.

Há os que escolhem ir, há os que escolhem ficar.

É preciso coragem para ir.

É preciso coragem para ficar.

Saudades do diário de papel

Abro a folha em branco, observo as letras do teclado, troquei o papel pelo ecrã, a caneta pelas teclas, já não tenho espaço para desenhar enquanto aguardo que as ideias fluam.

Não sinto a inspiração do cheiro das folhas, não sujo os dedos com tinta permanente, não rasuro as palavras, não faço riscos, não cubro de borrões o que não quero ver lido.

Perdi as inúmeras correções que fiz ao texto, esqueci-me da palavra que escrevi e apaguei, falta-me o desenho da nuvem a acompanhar o pensamento nublado e a lágrima que desenhava sempre que estava triste.

Faltam-me os olhos, os olhos que esboço após esboço mais se assemelhavam aos olhos do coração e os lábios que lhe davam voz.

As palavras brotam uma após outra dando forma aos pensamentos, mas estão sozinhas, falta-lhes a companhia dos esquiços, dos devaneios, dos contornos indefinidos da minha alma que desenhava continuamente nas folhas dos meus adorados diários.

Saudades do tempo dos meus diários de papel, dos dias em que os minutos pareciam infinitos dentro dos breves instantes dos meus pensamentos que duravam horas.

Paradoxo da Vida – A Morte

Passamos a vida a fazer planos, a organiza-la para alcançar metas e sonhos, delineamos objetivos e traçamos o caminho para lá chegar.

Na esperança de cumprir um sonho ou de garantir o futuro adiamos muitas vezes a vida, porque sabemos que é melhor prevenir agora do que nos vermos remediados ou aflitos no futuro.

Temos imenso medo da morte, a morte pode ser até considerada assunto tabu, é difícil pensar na própria morte e no que isso significa.

 

Eu, penso desde cedo, penso no que aconteceria às pessoas que amo e me rodeiam se eu morresse, penso quem sentiria a minha falta e penso no que eu perderia do tempo com elas, é uma sensação agoniante pensar em tudo o que poderíamos perder.

Não fazemos ideia do que o futuro nos reserva, mas só a noção da falta de um futuro dá-nos um aperto no estômago, não saber, não estar, não viver, não é uma sensação que queiramos sentir.

 

Se sentimos tanto receio da morte, se não sabemos quando ela chegará, porque não aproveitamos nós o presente e pensamos tanto num futuro que não sabemos se existirá?

 

Se hoje alguém vos dissesse irás morrer daqui a um ano, o que fariam?

Continuariam a viver a vida exatamente da mesma forma?

Mudariam completamente a forma de ver o mundo?

Tentariam cumprir algum sonho?

Teriam desculpas a pedir?

Teriam algum perdão a conceder?

Olhariam para a vida com outros olhos?

 

É difícil calçarmos os sapatos de uma pessoa que sabe quando a sua vida terminará, temos a vaga ideia que tentará fazer as pazes com a vida e com o mundo, é o que é esperado, tentará cumprir promessas e sonhos e quem sabe até realizar aquele sonho que parecia impossível.

Se temos noção do que faríamos nessa posição, porque não o fazemos todos os dias?

Afinal não sabemos se amanhã estaremos vivos, quando adormecemos nunca sabemos se acordaremos no dia seguinte, todos os dias são uma dádiva, quantos deles aproveitamos como se fossem o último?

 

Este assunto tem-me assolado a mente diversas vezes nos últimos tempos, talvez porque por razões maiores, a minha vida esteja numa espécie de suspensão.

Acredito que a nossa passagem pela vida e por este mundo, havendo ou não outro, deve deixar uma marca positiva, não precisamos de descobrir a cura para uma doença rara para darmos sentido à vida, basta contribuir para que a vida de quem nos rodeia seja melhor.

 

Com este pensamento positivo e com esta visão otimista da vida, acredito que podemos ser felizes todos dos dias ao proporcionarmos felicidade aos outros, por isso proponho a mim própria começar cada dia como se fosse o último.

Não será preciso cometer nenhuma loucura, cumprir um sonho ou ser inconsequente, basta encarar a vida com otimismo, stressar menos, sorrir mais, cantar mais, conversar mais, partilhar mais, ajudar mais, amar mais, viver mais as coisas boas que a vida nos dá.

 

Todos os dias assistimos a pequenos milagres, só temos de nos deixar maravilhar por eles, como uma criança que vê o mar pela primeira vez, devemos olhar para a vida com espanto, surpresa, admiração, deslumbre e agradecimento.

Acabemos com o paradoxo da vida de temer a morte, mas desperdiçar a vida.