Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

Sou especial, mas serei mais especial que os outros?

Algures no tempo não sei precisar quando, mas terá sido pouco depois de ter consciência de mim, assumi que era especial, especial porque era diferente, muito desenrascada, muito determinada, muito senhora de mim mesma quando ainda me faltavam mais dentes dos que tinha.

Não tinha grandes certezas, apenas a certeza que queria fazer a diferença, meti na cabeça que o futuro me reservava grandes coisas, que iria ser grande de alguma forma, famosa talvez, tinha aptidão natural para as artes e à vontade para o público.

Gostava de ser o centro das atenções e era-o muitas vezes, demasiadas vezes tenho noção agora, não que os meus pais me incentivassem, pelo contrário, mas fazia parte de mim ser assim e procurava a atenção porque gostava dela.

 

Na escola continuei com a mesma sensação, era excelente aluna, protegida pela professora e querida pelos colegas, mas percebi que não era sempre a maior porque haviam literalmente alunos maiores do que eu e até uma que não gostava nada que eu fosse o centro das atenções.

No liceu a minha perspetiva do mundo e de mim não mudou muito, continuava crente nas minhas capacidades e dotes, nem as desilusões amorosas mudaram o cenário, só uma alfinetada na amizade me fez perceber que as coisas talvez não fossem tão cor-de-rosa.

 

No secundário deu-se uma lenta transformação do sonho para a realidade, mais motivada pelas hormonas do que pela consciência, no turbilhão de emoções e sentimentos contraditórios, eu era realmente especial, mas nem sempre um especial bom, muitíssimo complicada e complexa no que sentia e exprimia era completamente impossível entenderem-me quando eu estava completamente perdida.

Algures entre o secundário e a faculdade quebrou-se o sonho, deu-se a minha primeira frustração, depois de 12 anos a ser boa aluna vi o meu percurso manchado por uma nota má, um ano perdido num caminho que tinha tão bem traçado.

Na altura não tive consciência do que este contratempo tão simples implicou na minha vida, mas a verdade é que diminuiu a minha confiança, fechei-me, contive os sorrisos e tornei-me muito mais introspetiva e soturna.

Nada que não fosse curável com a adrenalina da juventude, após um período a viver para dentro voltei a viver para fora e o resultado extravasou mais do que desejaria, resquícios da rebeldia que sempre tive.

 

Não demorei a entrar no mercado de trabalho e não foi preciso muito tempo para esquecer que era uma pessoa especial, o especial deu lugar ao normal, mais uma pessoa a tentar singrar no meio de tantas, a tentar um lugar ao sol.

Lentamente a normalidade e a rotina conquistaram mais espaço do que deviam, alargaram-se a outros campos da vida e perdi algumas qualidades e sendo franca alguns defeitos que me davam um carisma de rebelde, passei a ser uma pessoa regular com uma vida normal.

 

Hoje tenho uma vida tão normal como qualquer outra pessoa e sinto-me mais uma pessoa que só faz diferença na vida de quem me rodeia, nada de grandezas, de fazer grandes coisas, de sonhos e ilusões megalómanas.

Olho para trás e penso na criança que era e na adulta que me tornei, tento encontrar respostas no caminho que me trouxe até aqui, penso de quem foi a culpa de ter seguido este caminho, tento culpar os outros, as circunstâncias, tento fugir da responsabilidade de me ter tornado naquilo que sou hoje, mas sei que estou onde estou porque escolhi estar aqui.

É difícil não me reconhecer nos meus sonhos e assumir as culpas por isso, mas seria uma infantilidade culpar o mundo, quando a culpa é exclusivamente minha.

Eu que sempre quis ser diferente, que sempre me considerei especial, mesmo que nunca o tenha dito em voz alta, que sempre tive a ilusão de seguir um caminho alternativo, acabei por tomar todas as decisões contrárias a isso, seguindo o curso natural da vida, deixando-me levar pelo normal, pela lógica dos acontecimentos.

 

Hoje, sinto sentimentos contraditórios, se por um lado não tenho forças nem vontade para traçar um caminho alternativo, para fazer algo diferente, por outro sinto-me insatisfeita e defraudada pela vida, que teima em negar-me algumas coisas básicas e lógicas.

Sempre disse sonhar é em grande, deixei de sonhar, deixei de ser especial.

Ou nunca terei sido mais especial do que os outros?

Fui apenas uma criança sonhadora que não viu o seu sonho concretizado.

Isso é mau?

Não, é apenas a vida.

Picos!

Ando com picos de humor e com picos de adrenalina, uns dias bem-disposta e cheia de energia e outros em que só penso no meu sofá.

Dormi mal a noite passada e só penso no sofá, podia ter feito tanta coisa útil hoje, mas o meu cérebro é teimoso, fiquei-me pelo essencial, vá lá que consegui fazer um ponto de situação para amanhã tratar de tudo o que não fui capaz de tratar hoje.

E termo é mesmo capaz, porque se há dias em que me sinto capaz de carregar o mundo, outros há que parece que o mundo me esmaga e comprime e sinto-me pequenina e não sou capaz de fazer algumas tarefas.

Escrevi, até consegui agendar um post, uma coisa que já não acontecia há séculos aqui neste cantinho, como sempre escrevo para organizar ideias e para exorcizar demónios, foi o que fiz hoje.

Sinto um peso temendo nos ombros, estou cansada de me sentir cansada, preciso de uma pausa, mas uma pausa da vida, pode ser? Adorava passar uns dias como milionária nas Maldivas e esquecer os problemas.

Só preciso de uma noite bem dormida, amanhã estarei melhor e com mais energia.

 

Todo este drama também pode ser só falta de café... Amanhã saberei.

Assédio, piropos e galanteios e onde andam os cavalheiros?

Qual a linha que separa um galanteio de um piropo?

Qual a linha que separa um piropo de assédio?

 

Ontem no programa “E se fosse consigo?” abordaram o assédio a mulheres, foi desconcertante perceber a inação das pessoas perante tal comportamento, mas ainda mais desconcertante foi perceber que a maioria das mulheres escolhe ignorar este comportamento.

Ignorar comentários impróprios e seguir o nosso caminho com a cabeça erguida foi a solução que nos transmitiram, não vamos dar-lhes o gosto de uma resposta, até porque tal comportamento não é digno de nós e por isso não pode sequer ser dirigido a nós.

Mas o que fazer quando esse comportamento ultrapassa a nossa capacidade de ignorar ou quando o assédio verbal passa a físico?

 

Conseguimos ignorar uma frase jocosa, conseguimos ignorar até um piropo mais atrevido, mas conseguimos realmente ignorar um comentário ou uma proposta obscena? Ou ficará ele a entoar-nos na mente durante o dia, enquanto remoemos as possíveis respostas que gostaríamos de lhes ter dado?

E um assédio físico? É possível ignorar? Não. Não é possível.

As mulheres deveriam conseguir caminhar na rua com a roupa que lhes aprouver sem serem incomodadas por homens das cavernas que não controlam os seus instintos mais básicos, que em vez de neurónios têm imagens água no cérebro.

 

Ao ver o programa pensava, no Porto, há ou pelo menos havia mais resposta, culturalmente as mulheres são mais explosivas e não se ensaiam muito em desfiar um rol de respostas, algumas igualmente impróprias a quem ousar dirigir-lhes comentários, as respostas podem ir de um simples – “Sou muito areia para o teu camião” até um desfilar de injúrias que fazem corar até as pedras da calçada.

Se é isso que se espera de uma senhora? Não, mas pelo menos não ficam a remoer aquelas palavras que têm o poder de nos infligir vergonha quando o comportamento vergonhoso não é nosso.

Quando o assédio é físico a coisas complicam-se, nem sempre a reação é imediata, por vezes sentimo-nos tão impotentes e fragilizadas que não sabemos como agir, o que responder o que fazer.

 

No liceu, andava eu no sexto ano, quando os rapazes acharam que era boa ideia começarem com os chamados “apalpões” ao rabo das colegas de turma, o comportamento que não se sabe bem como começou escalou e em poucos dias passou a ser recorrente, já não sabíamos o que fazer, não os conseguíamos apanhar a todos, nem puni-los, alguns levaram estalos, pontapés, insultos mais que muitos, mas isso não parecia surtir o efeito desejado que era parar o comportamento.

Um dia combinei com as minhas colegas que no intervalo seguinte em vez de nos tentarmos proteger iríamos retaliar, não com insultos ou estalos, mas com apalpões, em menos de um fósforo a moda terminou pois eles não gostaram nada de estarem constantemente a ser incomodados e assediados.

 

Se esta técnica resultou com crianças não é possível de executar com adultos, aliás o ideal seria que este comportamento não sucedesse com adultos, mas como os homens quando andam em bando tendem a ser primitivos, há ainda quem ache que normal assediar mulheres.

Sempre existiram homens rudes, primitivos e com comportamento impróprios, mas antigamente existiam mais cavalheiros, homens sempre dispostos a defender a honra de uma mulher como se fosse sua mãe, irmã, esposa ou filha, conscientes que se hoje era uma estranha no dia seguinte poderia ser uma pessoa das suas relações.

 

Os homens distintos e honrados são uma espécie em extinção, providos de um instinto protetor, são os mesmos que num momento tratam uma mulher com delicadeza extrema e no momento seguinte desferem um soco a um malcriado.

Este tipo de homem é aquele que não consegue ficar impávido e sereno quando vê uma mulher ser alvo de um ataque grotesco seja um comentário obsceno, seja um assédio físico, pois sente o dever de se opor a tão vil comportamento.

É este homem também que é capaz de ser galanteador e ter sempre uma palavra cordial ou até um mimo para as mulheres que o rodeiam, sejam família, amigas ou colegas de trabalho, é o homem que sabe distinguir um galanteio de um piropo e sabe até onde é permitido ir sem invadir o espaço da mulher ou coloca-la numa posição embaraçosa ou desconfortável.

Até para se fazer um elogio é preciso ter-se bom senso, bom senso que parece ter caído em desuso em todas as vertentes da nossa vida.

 

O papel da mulher evoluiu na sociedade, mas mulheres emancipadas não são algo recente, sempre as existiram, embora em menor número e isso nunca significou que pudessem por isso serem tratadas de forma diferente.

A afirmação da mulher na sociedade, a sua igualdade de direitos e oportunidades, não pode e não deve ser impedimento de serem tratadas com respeito e consideração, não pode ser a desculpa para os homens deixarem de ser cavalheiros, assim como não é desculpa para as mulheres deixarem de ser damas. (Não confundir com as damas do hip pop).

 

Respeito, honra, integridade, retidão, educação, dignidade, decência, proteção, empatia e solidariedade parecem valores ultrapassados sobrepostos pelo egoísmo e foco no próprio umbigo e para horror da humanidade o instinto protetor e o dever de auxílio tem sido substituído pelo instinto da fama, do aparecer, do mostrar, do querer ser o primeiro a relatar, o herói passou a ser quem divulga a vítima e não quem salva a vítima.

Como seriam as bandas desenhadas se os heróis em vez de salvarem as vítimas as fotografassem e filmassem?

 

A linha que separa um galanteio de um piropo é clara e definida, é a diferença entre um cavalheiro e um bronco.

A diferença entre um piropo e assédio é simples, ambos não deveriam existir.