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Língua Afiada

Letargia

No meio de uma estrondosa confusão de pensamentos, consigo esquematizar o suficiente para responder aos emails, o caos é interrompido ocasionalmente pelo barulho do telefone, a custo consigo articular as palavras e falar.

Um torpor assola-se o cérebro, não é preguiça, não é sonolência, é cansaço, o cansaço de dois dias intensos e preenchidos de sorrisos, gargalhadas, conversas que foram quebrados de forma abrupta, sem intervalo.

O meu corpo não gosta de mudanças bruscas, sinto-me presa à rotina do fim-de-semana, não quero horários, não quero tarefas, não quero pensar em coisas sérias, quero neste preciso momento deitar-me a uma sombra e cerrar os olhos para uma doce sesta.

Acordar revigorada e dar um longo passeio pelas margens do rio, estender uma toalha e fazer um piquenique, ler um livro, conversar, sem pressas, sem hora marcada, desfrutar de uma tarde solarenga e quente.

O Verão não foi feito para se trabalhar, foi-nos dado para apreciar e saborear, para sentir que a vida pode ficar suspensa enquanto fitamos o céu azul, ouvimos o som das ondas, sentimos a brisa amena do mar, saboreamos um gosto salgado na boca e sentimos o corpo a aquecer pelo sol, a armazenar energia, a energia que nos aquecerá o coração nas noites frias de Inverno.

Paradoxo da Vida – A Morte

Passamos a vida a fazer planos, a organiza-la para alcançar metas e sonhos, delineamos objetivos e traçamos o caminho para lá chegar.

Na esperança de cumprir um sonho ou de garantir o futuro adiamos muitas vezes a vida, porque sabemos que é melhor prevenir agora do que nos vermos remediados ou aflitos no futuro.

Temos imenso medo da morte, a morte pode ser até considerada assunto tabu, é difícil pensar na própria morte e no que isso significa.

 

Eu, penso desde cedo, penso no que aconteceria às pessoas que amo e me rodeiam se eu morresse, penso quem sentiria a minha falta e penso no que eu perderia do tempo com elas, é uma sensação agoniante pensar em tudo o que poderíamos perder.

Não fazemos ideia do que o futuro nos reserva, mas só a noção da falta de um futuro dá-nos um aperto no estômago, não saber, não estar, não viver, não é uma sensação que queiramos sentir.

 

Se sentimos tanto receio da morte, se não sabemos quando ela chegará, porque não aproveitamos nós o presente e pensamos tanto num futuro que não sabemos se existirá?

 

Se hoje alguém vos dissesse irás morrer daqui a um ano, o que fariam?

Continuariam a viver a vida exatamente da mesma forma?

Mudariam completamente a forma de ver o mundo?

Tentariam cumprir algum sonho?

Teriam desculpas a pedir?

Teriam algum perdão a conceder?

Olhariam para a vida com outros olhos?

 

É difícil calçarmos os sapatos de uma pessoa que sabe quando a sua vida terminará, temos a vaga ideia que tentará fazer as pazes com a vida e com o mundo, é o que é esperado, tentará cumprir promessas e sonhos e quem sabe até realizar aquele sonho que parecia impossível.

Se temos noção do que faríamos nessa posição, porque não o fazemos todos os dias?

Afinal não sabemos se amanhã estaremos vivos, quando adormecemos nunca sabemos se acordaremos no dia seguinte, todos os dias são uma dádiva, quantos deles aproveitamos como se fossem o último?

 

Este assunto tem-me assolado a mente diversas vezes nos últimos tempos, talvez porque por razões maiores, a minha vida esteja numa espécie de suspensão.

Acredito que a nossa passagem pela vida e por este mundo, havendo ou não outro, deve deixar uma marca positiva, não precisamos de descobrir a cura para uma doença rara para darmos sentido à vida, basta contribuir para que a vida de quem nos rodeia seja melhor.

 

Com este pensamento positivo e com esta visão otimista da vida, acredito que podemos ser felizes todos dos dias ao proporcionarmos felicidade aos outros, por isso proponho a mim própria começar cada dia como se fosse o último.

Não será preciso cometer nenhuma loucura, cumprir um sonho ou ser inconsequente, basta encarar a vida com otimismo, stressar menos, sorrir mais, cantar mais, conversar mais, partilhar mais, ajudar mais, amar mais, viver mais as coisas boas que a vida nos dá.

 

Todos os dias assistimos a pequenos milagres, só temos de nos deixar maravilhar por eles, como uma criança que vê o mar pela primeira vez, devemos olhar para a vida com espanto, surpresa, admiração, deslumbre e agradecimento.

Acabemos com o paradoxo da vida de temer a morte, mas desperdiçar a vida.

Será a sorte assim tão importante?

A sorte faz parte da vida, o estar no local certo à hora certa, conhecer as pessoas certas, até as tomadas de decisão às vezes podem ser tomadas à sorte e condicionarem todo o nosso futuro.

Se existem pessoas mais sortudas que outras? Existem, eu própria em várias ocasiões tive imensa sorte, acasos, coincidências que me proporcionaram diversas oportunidades.

Mas existirão pessoas sem sorte nenhuma? Não creio, todos somos bafejados pela sorte em alguma ocasião da vida.

O que muitas vezes acontece é que estamos demasiados distraídos para aproveitarmos as oportunidades, outras vezes achamos que não é momento certo, outras ainda confiamos demasiado na sorte.

 

A sorte só por si não chega, porque ela tão depressa aparece como desaparece, a vida é mesmo assim, hoje estamos bem e amanhã temos um percalço e tudo muda.

O que é preciso é garra, vontade de agarrar as oportunidades com unhas e dentes, fazer o que for preciso para transformar a sorte em algo real e concreto.

 

Infelizmente existem pessoas que por mais que a sorte lhes bata à porta, não sabem valoriza-la, conheço alguns casos, pessoas talentosas, normalmente queridas por todos, mas com uma incapacidade total de se agarrarem a uma oportunidade, seja uma relação, um emprego ou qualquer situação que implique responsabilidade e continuidade. São impossíveis de controlar porque não se controlam, são normalmente casos perdidos para a sociedade.

 

No entanto, as pessoas que mais me irritam são as que desperdiçam oportunidades por excesso de confiança, tomam as oportunidades por certas e não se esforçam minimamente.

Há quem diga que nem todos nascemos para ser grandes, sempre acreditei que com as oportunidades certas e os incentivos corretos todos conseguiriam evoluir e florescer na vida, mas estava enganada, existem pessoas que realmente não têm perfil, inteligência e dedicação para evoluírem.

 

Conheço uma pessoa a quem a sorte bafejou com um emprego que nunca conseguiria por si só, uma oportunidade única na vida, o que é que essa pessoa faz?

Queima essa oportunidade com uma ligeireza desconcertante e absurda, não tendo em atenção a responsabilidade que o cargo exige, falando de temas sensíveis com quem não deve, demonstrando uma total falta de respeito pela empresa e pela oportunidade que lhe foi concedida.

Este caso que conheço de perto fez-me pensar:

 

– Quantas pessoas que se queixam de falta de oportunidades terão desperdiçado oportunidades?

 

- Quantas pessoas que se queixam que a vida nunca lhes deu nada terão ficado sentadas à espera que um presente lhes caísse no colo?

 

Mais do que sorte na vida importa lutar pelo que se quer, mais do que esperar oportunidades, é preciso potencia-las e quando elas aparecem é preciso agarra-las, abraça-las e não baixar os braços até serem totalmente nossas.

Tal como as pessoas que ganham a lotaria e dois anos depois estão na miséria, a sorte, seja em que campo for, só por si não é suficiente.

 

A sorte é importante?

É, mas só se soubermos o que fazer com ela.