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Língua Afiada

Filhos de quatro patas?

Adoro animais, cresci rodeada deles, sempre tive animais de estimação cães, gatos e mais do que uma espécie de pássaros, houve também um pato selvagem, para além dos animais de estimação tínhamos os animais de criação, coelhos e galinhas e na quinta da minha tia a estes juntavam-se ovelhas, vacas, porcos, cabras, chinos, granizos, patos, gansos, perus e todos os animais que podemos encontrar numa quinta.

 

Deixei de comer carne de coelho porque lhes criei tal afeição que simplesmente não consigo conceber essa ideia, seria incapaz de comer carne de cavalo e só como outras carnes porque entretanto deixei de conviver com animais de criação, pois o próximo passo seria provavelmente deixar de comer cabrito e assim sucessivamente.

 

Tenho um profundo respeito pelos animais, mas cresci a vê-los serem criados para matar e comer, por isso a exploração pecuária para mim é natural, não me repudia e não me incomoda, incomoda-me sim que sejam criados muitas vezes em condições deploráveis e alimentados à força para crescerem rapidamente.

 

Nas pequenas criações, pelo menos as que conheço e conheci, os animais são criados com respeito e até amor, isto pode parecer estranho para quem não conhece esta realidade, mas não é incomum os donos falarem com eles, darem-lhes nomes e até carinho, os cabritos por exemplo são animais muito dóceis e é quase impossível não os acarinhar.

Todo o carinho e respeito não impede que tenham o destino traçado, são criados para comer, muitos apenas para consumo próprio, outros para realizar pequenas vendas na comunidade local.

 

A matança do porco é sempre uma festa em qualquer casa, junta-se a família e os vizinhos e é um dia onde a comida e a bebida não faltam, se esta festa tem um lado grotesco e primitivo? Hoje, tenho consciência que sim, já que o animal sofre, especialmente se o matador não for experiente.

Como é possível conviver com isto e ter um amor desmesurado pelos animais?

Não em perguntem pois não sei explicar, mas sei que tenho.

 

Também não consigo entender quem chama filhos aos animais e quem diz que os ama como tal, compreendo que os animais fazem parte da nossa família, os meus fazem, as minhas gatas fazem parte da minha vida e o amor que sentem por nós é mágico e comovente, mas daí a chamar-lhes filhas, para mim, vai uma longa distância.

 

Depois de muito pensar sobre o assunto penso que os coloco noutro patamar por uma razão prática, não é natural os pais verem os seus filhos morrerem, é suposto os filhos darem continuidade aos pais, por isso como encarar como descendência um ser vivo que sabemos à partida não sobrevirá a nós?

 

Todos sabemos que os cães os gatos têm uma esperança de vida muito inferior à nossa, tenho uma ligação especial com gatos e lembro-me do meu primeiro gato, acompanhou-me nos primeiros anos de vida e quando morreu foi um trauma tão grande que a minha mãe só me deixou ter outro gato um par de anos mais tarde, quando morreu a história repetiu-se só muito mais tarde tive outro, pois o desgosto foi tão grande que era preciso tempo para fazer o luto e a história voltou-se a repetir uma e outra vez, os gatos são animais livres, caçadores, a probabilidade de lhes acontecer algo é muito grande.

 

Com os cães passou-se o mesmo, a primeira cadela morreu quando tinha 3 anos, tenho vaga memória dela, mas segundo a minha mãe, falava dela todos os dias, adotamos outro cão, era uma alegria, brincava connosco como se fosse nosso irmão, um dia soltou-se e morreu atropelado, ficámos desolados, dias depois trouxeram-me um cachorrinho lindo, andava com ele para todo o lado como se fosse um bebé, infelizmente adoeceu e morreu uns meses depois, não quis mais cães.

 

Quem adota uma animal deve ter para com ele a mesma responsabilidade que tem com um filho, pois tal como os filhos quando nascem dependem de nós para se alimentarem, carecem de abrigo e proteção.

Os nossos animais devem ser bem tratados e respeitados, devemos retribuir-lhes o carinho e amor que nos dão incondicionalmente.

 

Mas chamar-lhes filhos? Só mesmo em sentido figurado.

Não consigo conceber a dor que é perder um filho, conheço a dor de perder um animal e não pode sequer ser comparável, dói, deixa saudades, deixa um vazio, mas não é a mesma coisa.

A responsabilidade é a mesma, o amor pode ser comparável por ser infinito, mas a dor?

A dor de perder um animal, por mais amor que lhe tenhamos, jamais pode ser comparada à dor de perder um filho ou um ente querido.

Por isso para mim não existem filhos de quatro patas, existem amigos, companheiros, família se quiserem, mas nunca filhos.

Será a sorte assim tão importante?

A sorte faz parte da vida, o estar no local certo à hora certa, conhecer as pessoas certas, até as tomadas de decisão às vezes podem ser tomadas à sorte e condicionarem todo o nosso futuro.

Se existem pessoas mais sortudas que outras? Existem, eu própria em várias ocasiões tive imensa sorte, acasos, coincidências que me proporcionaram diversas oportunidades.

Mas existirão pessoas sem sorte nenhuma? Não creio, todos somos bafejados pela sorte em alguma ocasião da vida.

O que muitas vezes acontece é que estamos demasiados distraídos para aproveitarmos as oportunidades, outras vezes achamos que não é momento certo, outras ainda confiamos demasiado na sorte.

 

A sorte só por si não chega, porque ela tão depressa aparece como desaparece, a vida é mesmo assim, hoje estamos bem e amanhã temos um percalço e tudo muda.

O que é preciso é garra, vontade de agarrar as oportunidades com unhas e dentes, fazer o que for preciso para transformar a sorte em algo real e concreto.

 

Infelizmente existem pessoas que por mais que a sorte lhes bata à porta, não sabem valoriza-la, conheço alguns casos, pessoas talentosas, normalmente queridas por todos, mas com uma incapacidade total de se agarrarem a uma oportunidade, seja uma relação, um emprego ou qualquer situação que implique responsabilidade e continuidade. São impossíveis de controlar porque não se controlam, são normalmente casos perdidos para a sociedade.

 

No entanto, as pessoas que mais me irritam são as que desperdiçam oportunidades por excesso de confiança, tomam as oportunidades por certas e não se esforçam minimamente.

Há quem diga que nem todos nascemos para ser grandes, sempre acreditei que com as oportunidades certas e os incentivos corretos todos conseguiriam evoluir e florescer na vida, mas estava enganada, existem pessoas que realmente não têm perfil, inteligência e dedicação para evoluírem.

 

Conheço uma pessoa a quem a sorte bafejou com um emprego que nunca conseguiria por si só, uma oportunidade única na vida, o que é que essa pessoa faz?

Queima essa oportunidade com uma ligeireza desconcertante e absurda, não tendo em atenção a responsabilidade que o cargo exige, falando de temas sensíveis com quem não deve, demonstrando uma total falta de respeito pela empresa e pela oportunidade que lhe foi concedida.

Este caso que conheço de perto fez-me pensar:

 

– Quantas pessoas que se queixam de falta de oportunidades terão desperdiçado oportunidades?

 

- Quantas pessoas que se queixam que a vida nunca lhes deu nada terão ficado sentadas à espera que um presente lhes caísse no colo?

 

Mais do que sorte na vida importa lutar pelo que se quer, mais do que esperar oportunidades, é preciso potencia-las e quando elas aparecem é preciso agarra-las, abraça-las e não baixar os braços até serem totalmente nossas.

Tal como as pessoas que ganham a lotaria e dois anos depois estão na miséria, a sorte, seja em que campo for, só por si não é suficiente.

 

A sorte é importante?

É, mas só se soubermos o que fazer com ela.

Xenofobia ou Opinião

Depois das declarações polémicas de Gentil Martins, sobre as quais tive oportunidade de falar aqui, a polémica estalou com as declarações de André Ventura na entrevista ao Jornal I.

André Ventura candidato à Câmara de Loures pelo PSD e com o apoio do CDS fez uma série de considerações sobre a etnia Cigana.

 

O que é que ele disse? O que a maioria das pessoas pensa, mas não diz numa entrevista, acusam-no de tentar ser popular, penso que aqui o mais grave não é propor medidas que agradem às massas, afinal todos os políticos o fazem em campanha, o mais grave é atacar uma minoria, uma atitude xenófoba e inadmissível.

Por mais que me custe a hipocrisia, pois se existe uma minoria que é ostracizada em Portugal é a etnia cigana, não posso aceitar que um candidato fale assim de um grupo, seja que grupo for.

 

Acredito que as suas intenções sejam as melhores, de fazer valer a lei para todos da mesma forma, pois se todos temos direitos, todos temos obrigações, acredito que as injustiças que conhece, também eu as conheço, o façam querer tomar uma atitude.

Mas só conhecemos nós injustiças perpetradas pelos Ciganos? Não existem pessoas de outras culturas a praticar os mesmos crimes? A viver dos mesmos subsídios? A viver à margem da lei?

Serão os Ciganos os donos das confeções que fazem a contrafação? Serão os Ciganos a fazer a distribuição massiva dos seus produtos?

Serão os Ciganos que importam as drogas?

 

Há pessoas de todas as culturas e de todas as classes envolvidas nos mais diversos crimes e, arrisco dizer, que quanto mais perto do topo da cadeia criminosa se chega, mais pessoas com uma imagem inocente e perfeitamente incluídas na sociedade encontraremos.

Se existe algo que a sociologia nos ensina e que a história já nos demonstrou é que não é pela exclusão que se resolvem os problemas, mas sim pela inclusão.

Existem realmente problemas com a etnia cigana, muitos deles potenciados pela sociedade, pois a verdade é que todo o estigma que envolve a cultura deles faz-nos temê-los e querer vê-los à distância, não será pois de admirar que formem comunidades isoladas, se todas as outras comunidades os querem longe.

 

Já tive vizinhos ciganos, qual foi a primeira reação da vizinhança? Pânico! O que aconteceu? Nada, a única coisa que mudou é que passaram a existir mais festas na rua, admiro a sua capacidade de celebração, acredito mesmo que celebram sem motivo.

Não causaram problemas a ninguém, pelo contrário, alimentavam diariamente um pobre desgraçado sem eira nem beira, emprestaram dinheiro a uma família em apuros e até desenrascam alguma peça de sucata que se necessitava.

 

Se esta família cigana é a exceção à regra? Não sei. Mas até pode ser a regra, pois assim de repente não conheço ninguém que tenha tido problemas com ciganos, a não ser um pequeno desentendimento a discutir preços na feira de Custóias.

Na minha opinião, é mais a fama do que outra coisa, e eles inteligentes usam a fama para intimidar e quando todas as outras pessoas parecem estar contra eles, o medo faz com que consigam ter o querem.

 

Serão os ciganos assim tão diferentes dos outros portugueses?

Nós, os especialistas em chico-espertismo, que usamos todos os esquemas e artimanhas para ter acesso a algo ou para nos safarmos de algo, somos assim tão diferentes deles?

 

As generalizações de André Ventura são Xenofobia, não se trata de dizer apenas o que é politicamente correto, trata-se de propor o que é correto e discriminar uma etnia não é correto.

As declarações de Gentil Martins não são menos graves que as de André Ventura, em ambos os casos, não se trata de uma opinião, trata-se de discriminação.

 

Qual a diferença? Umas foram proferidas por um médico respeitado e que, infelizmente, representam ainda a opinião da maioria das pessoas, que não têm coragem de assumir a sua mentalidade, mas que aplaudem quem assume, as outras foram proferidas por um político, a classe maldita, que disse o que todas as pessoas dizem, mas que não acham bem que se faça disso campanha porque é ganhar votos.

 

Nada de novo portanto, continuamos a viver na mesma hipocrisia de sempre.

Este post é a minha opinião.