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Língua Afiada

Desmotivação no trabalho

Quando abraçamos o mundo do trabalho estamos cheios de força, garra, queremos mostrar o que sabemos, fazer valer os nossos conhecimentos, provar que somos bons, dependendo de pessoa para pessoa essa motivação pode durar anos ou apenas algumas horas, tudo resulta do emprego, do empregador, do ambiente e acima de tudo das nossas expetativas.

Voltamos nós às malditas expetativas que moldam a nossa forma de ver o mundo, são elas as responsáveis pela nossa felicidade, pela nossa infelicidade e pela nossa ansiedade.

 

O primeiro emprego é

como o primeiro amor.

 

Se no primeiro emprego todos reagimos mais ou menos da mesma forma, nos seguintes já não é bem assim, uma vez que as nossas experiências passadas irão condicionar a nossa forma de estar no emprego, iremos querer fazer melhor, não iremos cair nos mesmos erros e tentaremos repetir o que fizemos bem.

O primeiro emprego é como o primeiro amor, nós julgamos saber como é, conhecemo-lo dos livros, dos filmes, de o vermos nos outros e queremos senti-lo, desejamo-lo, ansiamo-lo, mas só sabemos realmente o que é quando amamos e sentimos o mundo a fugir-nos debaixo dos pés. O emprego é exatamente igual, ambicionamos a independência financeira, desejamos ter um papel relevante, queremos colocar os nossos conhecimentos em prática, mas só sabemos o que é trabalhar e ter um chefe quando realmente começamos a trabalhar e sentimos os projetos profissionais e a independência a fugir-nos debaixo dos pés.

 

A adaptação não tem que ser necessariamente má, acredito que ajustarmos as nossas expetativas à realidade laboral e evoluirmos o nosso plano para algo mais concreto e muitas vezes mais plausível é importante. Mas a verdade é que são poucas as pessoas que veem o seu percurso profissional evoluir da forma que esperavam, pelo contrário, são bem mais os casos de insucesso.

A maioria das pessoas que conheço está desmotivada no trabalho, salvam-se os que mudaram de emprego recentemente e estão ainda na fase de deslumbramento e alguns funcionários públicos, que não estando contentes, têm consciência que cá fora a selva tem muito mais feras.

 

A maioria das empresas portuguesas

são castradoras de ideias

 

Os motivos de desmotivação são vários e distintos, mas bem exprimidos resumem-se a apenas um – falta de reconhecimento, esta falta de reconhecimento pode ter várias causas, ausência de um aumento, ausência de progressão na carreira, ausência de projetos novos, ausência de integração, ausência de confiança, ausência de gratificação verbal, às vezes um simples obrigado pode fazer toda a diferença, embora a longo prazo seja insuficiente.

Quando ficamos muitos anos no mesmo local é fácil a desmotivação apoderar-se de nós, a rotina, as mesmas pessoas, as mesmas funções, levam-nos a executar as tarefas em modo automático, sem questionar, inovar, pensar ou sugerir mudanças.

A maioria das empresas portuguesas são castradoras de ideias, não ouvem as opiniões dos colaboradores, têm estruturas organizacionais rígidas, inflexíveis e verticais, muitas vezes com o poder de decisão concentrado numa só pessoa no topo do organigrama, as ideias e sugestões das bases só têm dois destinos o caixote do lixo ou a apropriação pelos superiores.

Da mesma forma que nos formatam nas escolas, formatam-nos no trabalho, subaproveitando o capital humano, o mais valioso de todos e desperdiçando talento.

Essa injustiça é o fator mais desmotivante, mesmo que as pessoas não tenham consciência disso, é essa injustiça, esse castramento que as desmotiva, pois é esse princípio, essa formatação que os leva a serem mais um elemento sem voz e quem não tem voz não é ouvido e quem não é ouvido passa despercebido e quem não e visto não é lembrado.

E quem é que aumentado?

Quem é ouvido, notado, visto e lembrado.

 

Poderia ser importante ter-se conhecimento disto, mas não é, porquê?

Porque ou conseguimos pelo cargo ou funções fazer-nos ouvir ou a máquina castradora nunca nos dará ouvidos.

O que nos resta fazer?

Mudar, mudar de empresa ou mudar, até, de área, procurar um local onde nos ouçam e nos valorizem.

 

O grande problema?

O sistema, mais tarde ou mais cedo, a máquina castradora apanha-nos, temos duas opções ou viramos salta-pocinhas e levamos com o título de incompetentes ou empreendedores dependerá do contexto ou conformamo-nos com a desmotivação.

 

Durante muito tempo acreditei que quem é competente, leal, criativo, proactivo, preocupado e consciente acabaria por ser reconhecido pelo seu valor, afinal o bom trabalho acaba sempre por sobressair, estava redondamente enganada, as coisas não são assim tão lineares.

Podemos arranjar as desculpas que quisermos, mas se reunirmos todas as condições para sermos um bom profissional merecemos ser reconhecidos, podemos encontrar diversas justificações para permanecermos no mesmo local, nenhuma será válida se estivermos lentamente a definhar e a perder valor.

Somos um ativo como outro qualquer quando o investimento que a empresa faz em nós não é simultaneamente atrativo e rentável está na hora de procurar outro investidor disposto a apostar em nós.

Só temos um problema, o sistema, o sistema não está preparado para investir apenas para cobrar.

 

Politiquices #5 – As licenciaturas inventadas

Era uma questão de tempo até encontrarem alguém no Governo de António Costa com uma licenciatura inventada, tenho em crer que se aprofundarem bem a questão às tantas até encontram mais do que uma.

“Em despacho assinado pelo primeiro-ministro, Rui Roque aparece como licenciado em Engenharia Eletrotécnica pela FCTUC, mas, na verdade, nunca acabou o curso e faltam-lhe várias cadeiras.”

A notícia do Observador está a fazer as delícias das redes sociais, menos mal que os indignados e mal-educados do costume têm desta vez algo com que vale a pena indignarem-se.

 

O que mais me espanta nesta notícia?

O facto de o cargo não exigir qualquer licenciatura!

 

O que nos leva a uma questão bastante pertinente e triste da sociedade portuguesa:

Não basta ser competente, ter experiência, ter provas dadas, é preciso exibir um canudo para ser levado a sério, porque os títulos são de extrema importância, mesmo que tenham sido inventados, fabricados ou tirados em instituições ou situações duvidosas.

No caso da política, este senhor não só foi mentiroso, como demonstrou falta de ética, mas acima de tudo mostrou falta de inteligência ao achar que depois dos últimos escândalos com José Sócrates e Miguel Relvas iria passar impune ao escrutínio da imprensa.

Quanta ingenuidade, menos mal que se demitiu imediatamente, provavelmente na esperança que o caso caia no esquecimento rapidamente, quanto mais depressa for esquecido mais depressa pode encontrar uma posição de relevância, quanto mais depressa for passado, menos danos a sua imagem sofre.

 

Engana-se quem pensa que este flagelo só ataca a classe política, pois claro que não porque a moda de ser licenciado é geral e por isso a tentação de inventar licenciaturas também.

Pessoalmente tenho conhecimento de dois casos de licenciaturas forjadas para obter bons cargos, curiosamente dois supostos engenheiros contratados por duas empresas diferentes, ambos descobertos em pouco tempo, um porque achava que sendo engenheiro tinha uma posição privilegiada e podia passar os dias sem fazer absolutamente nada, o outro porque não só inventou a licenciatura como também inventou contactos, num país tão pequeno foi desmascarado rapidamente.

Se há quem invente licenciaturas para ter acesso a um cargo superior, achando que é fácil enganar a entidade patronal, há também casos em que o colaborador é verdadeiro e é contratado não pelo canudo, mas pela experiência, mas a entidade patronal faz questão de lhe dar um título que não tem, conheço uns quantos casos assim.

É vergonhoso, que as pessoas sejam avaliadas por títulos, as licenciaturas, mestrados e doutoramentos vieram substituir, os viscondes, os condes e os duques.

Se antigamente a linhagem de sangue dava direito a ter e a ser alguém sem que fosse tido em conta qualquer competência, vocação ou conhecimento, agora os graus superiores de escolaridade atestam magicamente a inteligência e a competência de alguém, parece que um curso é essencial para ser bem-sucedido, nem importa se o curso é útil ou se foi tirado numa instituição credível ou não, o que interessa é obter o título e de preferência emoldura-lo em sinal de orgulho desmedido.

Somos o país dos canudos, do Dr. sem doutoramento, dos Lic. quando não se quer afrontar os Doutores da mesma instituição, dos Mestres sem qualquer mestria, alguns são meramente uma conversão de licenciaturas de cinco anos em mestrado, e dos Doutorados que ou são Professores ou podem fazer as malas porque raramente há lugar para eles.

Alguns prezam tanto o título que fazem questão de se apresentarem com ele atrás do nome, como se o título fizesse alguém ser mais do que é, as pessoas estão tão focadas naquilo que os outros pensam delas, naquilo em que aparentam ser que se esquecem de ser quem realmente são.

 

Ninguém se apaixona por um título, ninguém admira um nome, apaixonamo-nos pela pessoa, pelo que ela faz e como o faz. Deixem de inventar licenciaturas, reinventem-se.

Crítica literária #4 - Sonhos Proibidos De Lesley Pearse

Sonhos Proibidos.jpg

 

Sonhos Proibidos

De Lesley Pearse

Editor: Edições Asa

 

Costumo guardar para as férias grandes um livro grande e este ano não foi exceção, resolvi ler Sonhos Proibidos de Lesley Pearse, um livro com mais de 600 páginas oferecido pela minha irmã. Já tinha olhado várias vezes para os livros desta autora por causa dos saquinhos que os embrulham, mas nunca comprei nenhum exemplar, tenho tantos livros em lista de espera que está fora de questão comprar mais.

Não fazia ideia se seria bom ou não, era o maior que tinha lá por casa e por isso foi o que levei comigo e em boa hora o fiz.

 

Sinopse:

Londres, 1910. Belle tem quinze anos e uma vida protegida. Graças aos cuidados da ama, ela nunca se apercebeu de que a casa onde vive é um bordel, regido com mão de ferro pela sua mãe. Porém, a verdade encontra sempre maneira de se revelar... Para Belle, será no trágico dia em que assiste ao assassinato de uma das raparigas da casa. Ingénua e indefesa, ela fica à mercê do criminoso, que a rapta e leva para Paris, onde se inicia como cortesã. Afastada do único lar que conheceu, a jovem refugia-se nas memórias de infância e acalenta o sonho de voltar aos braços do seu primeiro amor, Jimmy. Mas Belle já não é senhora do seu destino. Prisioneira da sua própria beleza, é alvo do desejo dos homens e da inveja das mulheres. Longe vão os anos da inocência e, quando é levada para a exótica e decadente cidade de Nova Orleães, ela acaba por apreciar o estilo de vida que o Novo Mundo tem para lhe oferecer. Mas o luxo e a voluptuosidade que a rodeiam não mitigam as saudades que sente de casa, e Belle está decidida a tomar as rédeas da sua vida. Um sonho que pode ser-lhe fatal pois há quem esteja disposto a tudo para não a perder. No seu caminho, como barreiras fatais, erguem-se um continente selvagem e um oceano impiedoso. Conseguirá o poder da memória dar-lhe forças para sobreviver a uma viagem impossível?

 

A leitura absorveu-me de tal forma que foi difícil controlar as horas que passei a ler, li grande uma grande quantidade de páginas na viagem de avião, felizmente que o jogo de damas fez com que não o devorasse inteiro, assim sobraram páginas para a espreguiçadeira.

Imagino as minhas expressões a ler nas tardes solarengas, um tempo fantástico, boa companhia, um mar cristalino de água quente e eu a ler, mas o livro prendeu-me de tal forma que me fez sorrir, rir, chorar e nutrir uma verdadeira empatia por Belle.

Não é um livro para toda a gente, é bastante cru, bastante explícito e muito direto, é um drama vivido e cruel.

Nota-se um belíssimo trabalho de investigação, presente no detalhe das descrições dos locais, descrições que apesar de não serem exaustivas são precisas e fáceis de visualizar, não cansam e elucidam.

Devorei as últimas páginas no regresso a casa, fiquei um pouco zangada com o final do livro, isso acontece-me muitas vezes porque imagino quase sempre um final diferente, mas qual não é o meu espanto quando percebo que o livro não termina.

A vida de Belle continua no livro a Promessa, que a editora fez questão de apresentar ao oferecer-nos as primeiras páginas, fiquei em ânsias, estava quase certa que a minha irmã teria o segundo livro, não me enganei, já está lá em casa à espera que eu tenha tempo para ele.

 

Sobre a autora:

Lesley Pearse é autora de uma vasta obra publicada em todo o mundo. A sua própria vida é uma grande fonte de inspiração para os seus romances. Quer esteja a escrever sobre a dor do primeiro amor, crianças indesejadas e maltratadas, adoção, pobreza ou ambição, ela viveu tudo isto em primeira mão. Lesley é uma lutadora, e a estabilidade e sucesso que atingiu na sua vida deve-os à escrita. Com isso criou o Women of Courage Award para distinguir mulheres comuns dotadas de uma coragem extraordinária.

 

Pela forma como escreve nota-se que vivenciou muita coisa na primeira pessoa, talvez por isso os seus livros, pois acredito que sejam quase todos assim, prendam tanto, pela autenticidade e vivacidade com que são escritos, são tão vividos que nos marcam.

Nota positiva de 8.

Boas leituras.