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Língua Afiada

Incoerência

Incoerência é provavelmente a pior defeito que alguém pode possuir.

Ser incoerente, ao contrário de outras características que podemos ou não ter, interfere com a nossa vida e como a encaramos.

Pessoas que alteram a sua forma de pensar e agir conforme a situação em que se inserem só demonstram inteligência até ao limite dos seus valores, quando transgridem os valores que acreditam e colocam de parte os princípios que se regem, estão apenas a enganar-se a si próprias.

 

Incoerência não é a mesma coisa que mudar de opinião, as nossas opiniões mudam ao longo da vida, as experiências, as vivências, as circunstâncias da vida levam-nos a mudar, a crescer, a evoluir, faz parte do amadurecimento e do envelhecimento.

Incoerência não é a mesma coisa que inconstância, porque até na inconstância há a constância da alteração, da volubilidade, pessoas inconstantes não são necessariamente incoerentes, depende do contexto, há inconstâncias que não interferem com a nossa coerência.

Ser incoerente nem sequer é o mesmo que ser contraditório, as pessoas podem contradizer-se por diversos motivos, uma mudança de exposição pode levar-nos a pensar com outra lógica e reverter a nossa análise. Podemos entrar em contradição quando as circunstâncias mudam, basta uma variável alterar-se.

 

Ser incoerente é muito pior do que ser inconstante e contraditório, a incoerência é a ausência de lógica, ser incoerente é ter reações ilógicas, incongruentes, discrepantes, inconsistentes.

É ter dois pesos e duas medidas, é julgar cada situação da forma que nos é mais conveniente, é mudar de posição consoante a vantagem, se for vantajoso concordar, concorda-se, se for vantajoso discordar, discorda-se.

 

Ultimamente confunde-se incoerência com adaptação e educação, quando são conceitos tão distintos, tão díspares.

Entrar numa discussão de valores nem sempre é o melhor caminho, há situações diversas em que escusar de comentar, ser evasivo ou desviar o assunto poderá ser o melhor a fazer, por uma questão de educação, consideração ou até por apatia.

Mas coibir-se de comentar não é o mesmo que concordar para agradar.

Saber encaminhar a conversa subtilmente para outro assunto é inteligência, concordar em voz alta com algo que não concordamos nem sequer é oportunismo, é falta de personalidade.

Numa época onde se procura agradar a todos, as pessoas perdem as convicções, esquecem princípios, alteram valores na esperança que os outros as reconheçam, as aceitem.

Pior do que as pessoas conscientemente incoerentes são as pessoas que são incapazes de reconhecerem a suas incoerências, cegas, iludidas, reclamam para si valores e princípios que não aplicam e concedem aos outros.

 

Não é preciso tratar-se de um assunto importante para verificarmos a incoerência das pessoas, situações simples do dia-a-dia demonstram a toda a hora comportamentos incoerentes, que as pessoas tentam justificar na esperança que não percebamos o seu egoísmo e egocentrismo.

O colega da escola do filho deve ser castigado porque roubou o lanche, no dia seguinte é o seu filho que rouba o lanche e há um sem rol de desculpas para justificar a ação do filho, qual a variável que muda? Os pais, quando as situações se passam com os outros há uma reação, quando se passam connosco há outra.

 

Coerência, coerência é o que mais falta na nossa sociedade, coerência nas palavras e nos atos.

Algumas pessoas são tão incoerentes que é impossível saber o que pensam ou acreditam, são recipientes vazios que se limitam a refletir o que as rodeia, camelões, são reféns da bajulação.

Pergunto-me como conseguem viver assim sem fio condutor? Como conseguem viver sem princípios, sem valores, sem convicções?

O que somos nós sem pensamento próprio?

Nada, apenas barcos à deriva numa tempestade de ideias e ideais, sem nunca conseguirmos ancorar.

Não suporto incoerência, porque a incoerência corrói, destrói, devasta e aniquila a personalidade.

E sem personalidade, não temos individualidade, temperamento ou carácter.

Sem personalidade não existimos, pois só existimos quando concretizamos o nosso pensamento.

A lição do dress code

O dress code deveria ser obrigatório em qualquer convite, adequar a roupa a cada ocasião é essencial, não só pelo respeito aos anfitriões como para nos sentirmos bem no ambiente.

Muitos dirão que se formos fieis a nós próprios estaremos sempre bem, não discordo, mas mesmo dentro de cada estilo há diferenças e possíveis adaptações, por isso é sempre bom adequarmos o outfit ao contexto.

Odeio errar no dress code….

 

Convite inesperado para jantar de aniversário.

Saio do trabalho à pressa, já depois da hora, pelo caminho telefonema importante, encosto e passam mais uns 20 minutos.

Tenho de decidir se paro ou não para despachar uns recados ou sigo para casa?

Se paro tenho de seguir direta para o jantar, se não paro posso tomar um duche rápido e mudar de roupa.

Logo hoje que vim mais casual, pensei, não tenho solução, tenho de ir direta para casa.

Chego a casa, correria, penso num possível presente, tento idealizar o que vestir durante o banho.

Visto uma roupa, parece-me demasiado informal, visto outra, demasiado formal, olho para os vestidos no roupeiro, não me apetece vestir nenhum, opto pela roupa mais informal, sigo para a casa de banho para me maquilhar, olho para o espelho, estou demasiado informal, regresso ao quarto opto por um outfit mais clássico.

Tenho de escolher o calçado, uns botins rasos é o que me apetece calçar, mas as botas de salto provavelmente são melhor opção, pensando melhor uns stilettos é que ficavam bem.

- Amor achas que devo ir de saltos?

- Não sei, acho que não. É um jantar em casa, as festas dela costumavam ter dress code, mas ela não mencionou.

- Ok, então vou confortável.

 

Saímos, pelo caminho ainda conseguimos comprar um presente e chegar dentro da hora.

Tocamos à companhia, somos atendidos pela empregada fardada a rigor, tive um mau pressentimento.

Já no hall avisto a aniversariante que desce a escadaria num deslumbrante vestido de noite.

Normal, é aniversariante pensei, entretanto avisto uma convidada.

Qual o outfit? Um vestido.

Confesso que me comecei a sentir desconfortável, as mulheres estavam todas de vestido e saltos, entretanto chegam mais duas convidadas a usar calças, sinto-me mais confortável.

 

Passei parte da noite a pensar na minha ingenuidade, a aniversariante é das mulheres que conheço que melhor se vestem, sempre elegante, não perde uma boa ocasião para usar lindos vestidos, como é que pensei que o seu jantar de aniversário poderia ser descontraído?

Como?

A pressa, a presa é inimiga do discernimento.

Este episódio serve para reforçar duas máximas que sei de cor, mas que teimo em não respeitar.

1 - Stilettos ficam sempre bem, na dúvida calçam-se stilettos.

2 - Na dúvida usa-se um vestido preto.

Ter um vestido preto que fica bem em qualquer ocasião pronto a usar é imperativo! .Sem ser demasiado formal ou demasiado simples, complementa-se com uns bonitos acessórios e está-se sempre bem.

 

E outra máxima que não é consensual mas que não deixa de ser verdadeira:

3 - É preferível chegar atrasada e maravilhosa do que ser pontual e não estar no nosso melhor.