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Língua Afiada

Sonhar acordada

Segunda-feira, provavelmente o dia mais odiado da semana, o dia em que abandonamos o livre arbítrio para nos regermos por horários pré-determinados e funções pré-estabelecidas.

Não há nada melhor do que ter tempo para não fazer nada, tão bom, mesmo que por vezes seja um desperdício, é tão bom, faz bem, recomenda-se, precisamos de folgas, de desligar, de verdadeiramente não termos que pensar em nada, apenas no que nos apetecer.

 

Para quem, como eu, nasceu a reclamar das rotinas, nunca gostei que me mandassem fazer alguma coisa, com pouco mais de um ano decidi que não queria dormir de dia e não havia forma de me adormecerem, ter um emprego com um horário rígido é basicamente uma prisão.

Sorte a minha que é uma prisão com amplas janelas e varandas só finitas pela minha imaginação, não se pode conter o espírito e esse leva-me a locais longínquos, locais nunca alcançáveis pelas minhas pernas, nunca palpáveis pelas minhas mãos.

 

E é assim que num dia em que os meus neurónios parecem estar de folga para executar as tarefas mais básicas, salva-me o modus operandis automático, a minha imaginação sobrepõe-se à razão, às obrigações e assume o controlo, dou por mim a viajar à velocidade da luz aos locais mais belos e inusitados, a deambular por ruas desconhecidas com edifícios incríveis, a cruzar oceanos e a ancorar em paradisíacas praias desertas.

Ouço um ruído, desperto do meu sonho acordado, há tarefas a executar, questões a resolver, assuntos a tratar, atendo o telefone e penso em silêncio, enquanto profiro outras palavras:

- Tão bom sonhar acordada!

Notícia de última hora - Trump é um Alien

Após o empresário Robert Bigelow, consultor e colaborador da NASA, ter afirmado que está “absolutamente convencido” de que os extraterrestres existem – e que vivem entre nós na Terra, a organização de hackers mais famosa do mundo, os Anonymous, fez a declaração bombástica:

 

Donald Trump não partilha o código genético dos humanos, tem DNA desconhecido e de origem alienígena.

 

Ainda segundo o mesmo grupo, Donald Trump, não estará sozinho, outros seres da mesma espécie habitam entre nós e estarão em diversos cargos de poder, o grupo não sabe ainda o planeta ou sistema solar de onde são provenientes estes espécimes, mas revelou que o seu plano é tornar o planeta terra inabitável para humanos para que possa ser invadido e colonizado pela sua espécie.

Na agenda estarão dois eventos uma terceira guerra mundial com recurso as armas nucleares e químicas e o agravamento do aquecimento global, estes dois eventos combinados tornarão o planeta propício a ser habitado pela espécie alienígena.

 

Ontem Donald Trump anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris, esta decisão que foi encarada como o primeiro passo para levar a cabo o diabólico plano de invasão terá dado o mote para a revelação da sua origem por parte do grupo Anonymous.

 

Na declaração ao mundo, os Anonymous aconselham os humanos a detetarem possíveis alienígenas, os traços mais evidentes são o cabelo levantado, que é a sua forma de comunicação por onde emitem ondas telepáticas e a tez da face avermelhada causada pela adaptação forçada à nossa atmosfera, para além destas duas caraterísticas, o exagero e a repetição de gestos e tiques também pode ser sinal da construção de uma personalidade artificial.

 

O grupo recomendou ainda que os terrestres tivessem especial cuidado com as mensagens nas redes sociais, especialmente na rede Twitter e Facebook, as redes mais usadas pelos alienígenas para divulgarem mensagens codificas e subliminares que fazem os leitores acreditarem que estes seres são pessoas dignas de confiança.

Foi avançada ainda a possibilidade de Marie Le Pen ser alienígena ou estar sobre o controle dos mesmos, mas ainda não existiu confirmação, enquanyo o grupo terrorista Daesh foi confirmado ser controlado pelos alienígenas, sendo que estão previstos novos ataques com vista ao estalar de uma nova guerra.

 

O grupo Anonymous recomenda que nos próximos dias as pessoas diminuam o uso das redes sociais e estejam a atentas a possíveis ameaças, especialmente em locais públicos com muitas pessoas.

Se desconfiar que está na presença de um alienígena para confirmar pode puxar-lhe o cabelo, se em vez de cabelo se desprenderem cabelagens elétricas ligue imediatamente para O MIB - Homens de Negro, caso não tenha o número pode ligar para o Controle de Animais.

 

Esteja atento, eles andam aí e estão entre nós.

Adoção e devolução - O dia da criança é todos os dias

Num ano, 43 crianças devolvidas por pais candidatos à adoção, mais precisamente de 1 de Agosto de 2015 e 31 de Agosto de 2016.

Não queria acreditar quando li esta notícia no Público, mas há diversas razões que podem motivar uma situação destas, li a notícia com atenção.

“Das 43 crianças que acabaram por ser devolvidas por candidatos a pais adotivos, apenas duas apresentavam problemas graves de saúde. Havia ainda seis com “problemas ligeiros”, não tendo as restantes 35 quaisquer problemas deste foro. A caracterização do ministério permite ainda concluir que 20 das crianças “devolvidas” tinham até dois anos de idade.”

 

Estas 43 crianças foram devolvidas às instituições ou famílias de acolhimento, mas as razões não são conhecidas.

O processo de adoção em Portugal é burocrático e moroso, os candidatos a adotar sejam um casal ou pessoa singular veem a sua vida escrutinada, passam por um rigoroso processo de avaliação de condições psicológicas e financeiras de modo a garantir que têm condições para acolher uma criança e que estão preparados para isso.

Conheço um casal que adotou uma menina que é hoje uma adolescente feliz e saudável, após várias interrupções involuntárias da gravidez, foi diagnosticado um problema de saúde que impedia que a gestação fosse até ao fim. A menina é luz deste casal, um tesouro que cuidam como cuidariam se ela partilhasse o seu código genético, não partilha os genes, partilha o amor, que é muito mais importante.

Conheço outro casal candidato à adoção que se queixa da demora, dos processos, da expetativa e da ansiedade, sei-os desejosos de aumentarem a família, de poderem dedicar tempo e amor a um filho.

 

Como é difícil prever que a adoção seja bem-sucedida, mesmo que os candidatos conheçam previamente a criança, privem com ela e a criança se habitue à sua presença, essa interação prévia é muito diferente de terem a criança ao seu cargo durante 24h, é por isso que existe um período de pré-adoção que se pode estender até aos 6 meses, período dentro do qual os pais adotivos recebem a criança mas podem “devolve-la”.

Só o termo devolver faz-me impressão, devolver uma pessoa, criança ou bebé é algo impensável, não é um produto, nem um serviço, é um ser frágil, que necessita de atenção e amor.

 

Eu gostava de acreditar que a maior parte dos casais que desistem da adoção têm um motivo forte, mas conhecendo as pessoas como conheço, nem todos terão motivos aceitáveis, na própria notícia é dado um exemplo:

«“Há oito ou dez anos ouvi um responsável da Segurança Social contar um caso em que uma criança viveu em casa dos candidatos mas que a certa altura foi devolvida porque o cão não gostava da criança”, recorda Guilherme de Oliveira»

 

 

Se o filho fosse biológico iam leva-lo à maternidade por causa do cão?!

Há aqui leviandade, tem que existir, passar por todo o processo para depois dar preferência a um cão sobre um filho, é impensável, sim um filho, quando se está a adotar está-se a adotar um filho, a criança será nossa filha perante a lei, mas acima de tudo deverá ser nossa filha no coração.

Estas situações levam-me a pensar que os motivos que levam as pessoas à adoção nem sempre são os mais nobres, bem sabemos que são raros os casos em que a adoção visa somente a proteção de uma criança desprotegida, há quase sempre uma motivação pessoal, como em todos os atos benignos, mas existirão motivos ainda mais obscuros.

 

Poderá ser uma moda?

Ouço muitas pessoas dizerem que adoravam adotar, mas a maioria di-lo de uma forma tão leve como se estivessem a falar de adotar um animal ou planear uma viagem.

Quando se pergunta os motivos, a maioria não sabe bem o que responder, fica em suspenso, pois não é suposto alguém perguntar, pois parece óbvio que o motivo da adoção é salvar uma criança órfã, mas será?

Ou será apenas a imitação de comportamento que acreditam ser louvável mas para o qual não tem a mínima vocação?

 

Em Portugal há poucas crianças para adoção, seria de esperar que fosse bom sinal, à primeira vista parece, mas não é assim tão linear, porque há muitas crianças institucionalizadas e em famílias de acolhimento que não são passiveis de adoção porque os pais biológicos não abdicam do direito paternal, especialmente porque esse direito confere muitas vezes compensações monetárias.

Há mais casais candidatos do que crianças, quem se candidata à adoção é confrontado com essa realidade, se não está preparado e comprometido para o fazer porque continua o processo?

Nunca ninguém esta preparado para ser pai, mas não é por isso que abandonamos os filhos às primeiras dificuldades, quando alguém se compromete a acolher uma criança na sua família, na sua casa a atitude deveria ser a mesma.

Na notícia dão o exemplo do Brasil onde eram tantas as desistências dentro do processo que caso o Tribunal quando considera que existir uma devolução imotivada avança com um processo de ação cível de indeminização.

 

É difícil contabilizar os danos psicológicos que o processo pode ter sobre a criança, mas a rejeição tem consequências, nem sempre visíveis, mas fortes e que perduram no tempo, a rejeição é dos sentimentos que mais angústia e desespero causam, se para um adulto é difícil lidar com este sentimento, para uma criança, muitas vezes já fragilizada e sem conhecer um ambiente seguro e protegido essencial ao seu crescimento, as consequências podem ser traumáticas.

Não conheço os motivos que levam alguém a desistir de um processo de adoção numa fase em que já têm em sua casa uma criança que necessita da sua proteção e amor, mas não encontro muitos que possam justificar essa desistência.

Têm uma ideia idílica de parentalidade que não corresponde à realidade? Veem as suas expetativas defraudadas?

 

Cada vez existem mais casais que na impossibilidade de uma conceção natural procuram na adoção filhos do coração, crianças a quem dedicam todo o seu amor, a quem procuram dar o melhor e por quem fazem tudo.

Se não estão dispostos a amar uma criança como vossa e a fazer por ela todos os sacrifícios que a parentalidade exige, não se inscrevam, não adotem, não alarguem as listas de espera e acima de tudo não falhem com a criança, não a desiludam, não a abandonem, a vida delas já é complicada o suficiente não precisam que mais um adulto inconsciente a complique ainda mais.

 

Adoção e devolução são duas palavras que não deveriam existir na mesma frase.

Adoção sim, mas consciente.

O dia da criança é todos os dias e não só quando dá jeito.

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