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Língua Afiada

Sobre The Walkind Dead

O 100º episódio de uma das minhas séries favoritas soube a pouco, demasiada estratégia para parcos resultados, a espectativa era muita, não posso dizer que o episódio foi mau, mas foi morno.

Há um paralelismo interessante entre pai e filho, também Rick procurou gasolina na primeira temporada da série, são visíveis dois futuros possíveis ou dois sonhos, mas se a temporada passada a série arrancou um episódio em que os fãs não conseguiram respirar já não se pode dizer o mesmo deste.

Houve suspense, mas a um certo ponto perguntamo-nos porque é que Rick simplesmente não atira em Negan, por algum acaso ele merece algum respeito?

Ficam ali na conversa que nem sequer é muito interessante.

 

Quem viu o último episódio de Fear The Walking deve ter sentido tal como eu saudade da Madison, uma espécie de versão feminina de Rick mas que já o superou.

Como esquecer aquele torcer de nariz que antecedeu a martelada certeira em Troy?

É de cenas assim que estas séries vivem, imprevisíveis, incríveis que nos deixam boquiabertos e atordoados, com vontade de voltar atrás para perceber afinal o que aconteceu.

Como? Matou-o assim, simplesmente? Espetacular.

 

Não tenho dúvidas que esta temporada guarde uma vingança à altura de Negan, mas por mais que me custe ver morrer personagens, que não seja tudo fácil, o cenário não é para isso.

Esperava mais deste regresso, depois de uma temporada muito morna tinha as expetativas altas, talvez estivessem altas demais, ou talvez me tenha tornado demasiado exigente.

 

Espero que a nova temporada de Strangers Things não seja também uma desilusão.

Entretanto se estiverem à procura de uma boa série e com um cenário de crise, vejam The Handmaid’s Tale até o Kevin de This is Us aconselha a série.

E se não veem This Is Us estão a cometer um enorme, gigante erro.

Quando o juiz é carrasco – libertem-se

Ainda sobre o impossível acórdão redigido pelo juiz Neto de Moura vieram agora à luz novos acórdãos não menos repugnáveis e execráveis pelo cunho do mesmo.

Em 2013 o juiz não considerou que um murro desferido a uma mulher que segurava no colo um bebé de apenas nove dias de vida e uma mordida à sua mão fosse violência doméstica.

 

"é manifesto que essa conduta do arguido não tem a gravidade bastante para se poder afirmar que foi aviltada a dignidade pessoal da recorrente [a vítima], mesmo tendo em conta que a assistente estava com o filho (então com nove dias de vida) ao colo", pode-se ler no acórdão. Neto de Moura considerou que o murro teve pouca força, uma vez que o nariz ficou apenas "ligeiramente negro de lado" e que a mão da vítima não apresentava "lesões aparentes."

O homem foi absolvido do crime de violência doméstica e foi condenado por ofensas à integridade física e ao pagamento de uma multa de 350 euros.

 

Em 2016, o mesmo juiz anulou uma sentença de dois anos e quatro meses de prisão em pena suspensa por violência domestica agravada. Qual a justificação dada?

"Uma mulher que comete adultério é uma pessoa falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral. Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira, para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus-tratos. Que pensar da mulher que troca mensagens com o amante e lhe diz que quer ir jantar só com ele 'para no fim me dares a sobremesa [sic]'?"

"Revelou-se a denunciante merecedora do crédito total e incondicional que o tribunal lhe atribuiu? A resposta só pode ser um rotundo não. Em boa verdade, a denunciante não é, propriamente, aquela pessoa em que se possa acreditar sem quaisquer reservas"

 

Há claramente uma tendência para a culpabilização da mulher e para desculpabilização do homem, os argumentos para além de grotescos e completamente ao lado da lei e da Constituição representam claramente o ponto de vista de um homem que não tem qualquer respeito pelas mulheres, é este tipo de pessoas que queremos ver a decidir a nossas vidas?

 

Os sermões dados pelo juiz não são apenas representativos a sua mentalidade retrograda, mas de uma profunda empatia para com os agressores, pois a sua moral elástica estica e encolhe conforme lhe é mais conveniente, pois soube desculpar o marido pelo adultério da esposa e que desculpa usou para atenuar a pena do amante? Terá o amante uma conduta mais adequada que a mulher, não será ele falso, hipócrita e desonesto?

E porque não foi ele buscar as leis medievais que puniam os amantes?

E qual a desculpa que ele apresenta para um marido que agrediu a esposa com o seu filho no colo? Que o golpe não foi suficientemente forte? Estava à espera de quê que ele a marcasse para toda a vida?

 

A violência doméstica é um crime com demasiada expressão em Portugal, protegido pelo medo, pela vergonha, pela cultura e quando as mulheres colocam a descoberto os crimes o que é recebem da justiça? Uma lição de moral e uma desculpabilização do agressor.

As penas são curtas, muitas vezes suspensas, as agressões são repetidas uma e outra vez e levam muitas vezes à morte das vítimas, quando algumas se defendem e no desespero acabam por cometer homicídio, raramente o mesmo é visto como legítima defesa e muitas acabam presas.

Como é que uma mulher que é constantemente vítima de agressões físicas e psicológicas, que se vê encurralada pela sociedade, desprotegida pelas autoridades, em desespero defende a sua vida e muitas vezes a dos filhos pode ser condenada?

Que justiça é esta que defende e protege os agressores?

 

Uma pena que em Portugal os julgamentos não sejam realizados por um júri, ao menos assim, as pessoas estariam sobre escrutínio do povo e não de um grupo de elitistas armados em padres pregadores da moral e dos bons costumes do tempo da Idade Média.

Gostava de acreditar que todo este mediatismo servisse para primeiro afastar o juiz em causa e em segundo para lançar o debate sobre o sistema judicial português, o código penal e a forma como as leis são aplicadas, revendo também processos e acelerando-os, pois as demoras nos julgamentos são incomportáveis.

Não acredito que nenhuma das duas aconteça.

 

Como podemos então proteger-nos da justiça, como podemos proteger-nos destes carrascos?

Não permitindo que exista violência sobre as mulheres e isso só as mulheres o podem fazer.

Unam-se, imponham-se, eduquem filhas, irmãs, primas, sobrinhas, amigas, colegas, conhecidas, eduquem-nas para serem fortes, astutas e para nunca, nunca se deixarem amedrontar, denominar e rebaixar por um homem.

E eduquem também os homens para serem nobres, cavalheiros e respeitadores, pois só os broncos, grunhos e medíocres usam a força para dominar outro ser humano.

Estado – Indisponível

Nas conversas com amigos, colegas e conhecidos a conversa cai muitas vezes no tema amizade, talvez porque nos apercebamos que à medida que vamos crescendo e envelhecendo é cada vez mais difícil fazer amigos, mas acima de tudo todos se queixam do mesmo, uns mais do que outros é certo, mas todos se queixam da dificuldade que é manter amizades.

Os motivos são vários, a distância, o estilo de vida, o nível financeiro, falta de tempo, uma vida agitada e stressante que não lhes deixa tempo para planos, reuniões, lanches, passeios, jantares, quaisquer atividades fora da rotina.

 

O que não admitem é para além de todas as condicionantes que a vida lhes possa colocar, há uma que não parte das circunstâncias, mas deles próprios, a disponibilidade, não sejamos ingénuos todos temos uma vida stressante, todos temos problemas, a diferença é que alguns estão dispostos a dar o seu tempo às amizades e outros preferem dar o seu tempo a outras coisas, seja à família, a si próprios, ao descanso, ao conforto do lar, nada contra, é uma escolha pessoal que cada um tem de fazer, só não se queixem depois.

 

Com a idade deixamos de ter paciência para fretes, é verdade, se não nos apetece estar com determinadas pessoas não estamos, dentro da educação e do socialmente aceitável (por mais maçada que seja há convites que não podemos declinar por educação ou/e obrigação) reestruturamos a nossa vida em função de novas prioridades e preferências, faz parte do envelhecimento refinarmos o gosto, não só pelas coisas, mas também pelas pessoas.

À parte das maçadas, há pessoas com quem gostamos de privar e passar tempo, mas para isso é preciso existir disponibilidade para, vontade e iniciativa, três caraterísticas em desuso, estou muito ocupado, estou muito cansado, esqueço-me sempre, são as desculpas que damos aos outros e acima de tudo a nós próprios para justificamos a nossa indisponibilidade.

 

Pessoalmente sou contrária a esta tendência, pois sou intrinsecamente disponível, sou a primeira a dizer que sim, que até já devíamos ter ido, sempre pronta a fazer planos, a organizar todo o tipo de reuniões entre amigos, quer dizer costumava ser assim, que uma pessoa também se cansa de estar constantemente a tomar a iniciativa, mas para os amigos estou sempre disponível desde que a minha agenda permita.

 

Se isso às vezes implica alguns sacrifícios?

Claro que sim, há situações que se tornam pouco cómodas, em que é necessário uma agilidade de ninja para conciliar o trabalho, as tarefas do dia-a-dia e a vida social, especialmente quando terminamos o dia e a semana exauridos, não se iludam o tempo dos outros não é maior do que vosso, simplesmente há quem o faça render ou o priorize de outra forma.

Custa-me ver pessoas que nada fazem para sair do seu casulo, incapazes de se desviarem um milímetro do seu conforto, desejosas de moldar as circunstâncias a seu favor de tal forma que perdem a noção de educação e qualquer réstia de bom senso, além de não tomarem a iniciativa querem a toda a força mandar na vida e nas prioridades dos outros em função das suas.

São totalmente inflexíveis e indisponíveis e querem exigir dos outros disponibilidade total e flexibilidade a seu favor.

 

Egocêntricas? Egoístas?

Também, mas são acima de tudo queixinhas!

Queixinhas porque acham que só a sua vida, os seus horários, os seus problemas são importantes, a vida das outras pessoas é um vale verdejante repleto de malmequeres brancos comparada com a sua.

Se medirmos a vida por sorrisos e disponibilidade a minha é todo um mundo de unicórnios, arco-íris, cascatas e florestas encantadas, o que não é totalmente mentira, na minha mente é muitas vezes assim, mas a realidade do dia-a-dia é bem diferente, bem mais cinzenta e sem fadas e duendes que façam as coisas por mim, do mundo encantado só ficam mesmo as bruxas e os bruxos.

 

Não se iludam ninguém tem uma vida perfeita e sem problemas, só que algumas pessoas preferem encarar a vida com um sorriso em vez de uma cara fechada.

Não sejam idiotas, nos dias de hoje ninguém tem realmente tempo para nada, o que se faz é priorizar e arranjar tempo para as pessoas que gostamos e isso deve ser uma prioridade, espero sinceramente que não o descubram quando essas pessoas já estiverem demasiadas ocupadas com quem sempre teve tempo para elas.

Estar constantemente indisponível para os outros só tem um resultado, inevitavelmente, um dia os outros estarão todos indisponíveis para vós.