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Língua Afiada

A abstenção mais uma vez foi a vencedora

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Eleições a 25.4.1975 | Lisboa | Arquivo A Capital IP | D.R.

 

Entendo que as pessoas não queiram votar, entendo que possam existir razões pertinentes para que não o façam, o que não entendo é que justifiquem a ausência com um “são todos iguais” ou “votar ou não votar é igual”, se não querem votar que admitam que não se importam que os outros decidam por si.

Sinto arrepios na espinha, porque nem sempre foi possível votar, tempos houve, não muito distantes, em que não era possível escolher quem nos governava e que o povo não era quem mais ordenava.

 

Nunca se esqueçam que a abstenção é perigosa, a sua vitória histórica de 45,50% é sinal que os portugueses se desinteressaram da política, é precisamente desse desinteresse que nasce a possibilidade de eleição de ditadores, extremistas e personagens dúbias, quando a população em geral se afasta da política abre as portas aos fanáticos e aguerridos para doutrinarem ideologias radicais e soluções irresponsáveis.

Atravessamos tempos difíceis, crises de valores pessoais e sociais, abandonar decisões importantes como esta é virar as costas à sociedade, abandona-la e não contribuir para o futuro, porque infelizmente é a política, a governação que dita o nosso futuro.

 

Não é novidade que o português tem pouca visão a longo-prazo, vive muito o dia-a-dia, o agora e preocupa-se pouco com o futuro, basta ver os indicadores de poupança e os métodos de gestão das empresas, no panorama político a situação não é diferente, não há estratégia a longo-prazo, tudo é visto mandato a mandato e os portugueses de frase feita em frase feita deixam que os políticos lhe ditem o futuro sem qualquer contestação relevante.

Durante o período de campanha eleitoral ouvi as coisas mais ridículas, uma delas proferida por várias pessoas que considero inteligentes e bem informadas, deixou-me um pouco revoltada, “deixe-mos que ganhe o PS e teremos mais 4 anos de ilusão, uma falsa calmaria que nos permitirá amealhar algum dinheiro, solidificar negócios para melhor nos preparar-nos para os próximos cortes.”

Pode parecer uma boa estratégia, mas se realmente andarmos mais 4 anos iludidos, a queda não será muito maior e violenta nessa altura?

 

Sinceramente espero que a conjuntura internacional se mantenha favorável e que em algum momento exista um ponto de viragem e a situação do país mude, caso contrário, não creio que a crise se adie por mais 4 anos, acredito que bolha estoure antes disso e se isso acontecer que acerte em cheio na cara de quem a advogou, mas preferiu escolher adiar o embate.

No fundo, não mudou nada, os portugueses continuam a gostar de ser enganados, como já aqui escrevi algumas vezes “com papas e bolos se enganam os tolos” quero ver esses tolos quando perceberem que não são bolos, mas migalhas de pão bafiento e bolorento que lhe servem como se de um banquete se tratasse.

Amamentar – A grande questão

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A opção de amamentar a minha filha foi natural, os mamíferos amamentam as crias e como tal naturalmente decidi amamentar a minha, não dediquei muito tempo ao assunto, pois a partir do momento em que decidi amamentar, sabendo que é a melhor opção para a saúde dela, foi algo que ficou estipulado.

A consciência que é o melhor, no entanto, não faz de mim uma fundamentalista, defendo que se deve privilegiar a amamentação quando existem condições para isso, a condição principal é a mãe querer amamentar e ter possibilidade de o fazer, o que nem sempre acontece.

 

O mundo da amamentação, como em quase tudo o que diz respeito à maternidade, é confuso, de um lado a certeza que o leite materno é o melhor alimento que podemos dar aos bebés, do outro a falta de paciência de alguns profissionais de saúde e de algumas pessoas em geral para as dificuldades que podem existir em amamentar.

Amamentar não é igual para todas as mães e se para algumas é um processo prazeroso, imediato e simples, para outras pode ser motivo de frustração, medo e muito stress, fico muito feliz pelas mães em que tudo acontece naturalmente sem stresses, deveria ser assim com todas, mas infelizmente não é e é uma pena que algumas mulheres que tiveram uma boa experiência não consigam entender que para muitas outras amamentar é sinónimo de dor e não de amor.

 

Com muita paciência e algum espírito de sacrifício, quase todos os problemas são ultrapassáveis, mas pedir a uma recém mamã mais um sacrifício pode ser cruel, para além da pressão social e cultural, a dor, que pode ser excruciante, pode realmente impedir que uma mãe, por mais vontade que tenha, consiga amamentar.

 

O meu processo não foi simples, apesar de a minha bebé pegar bem, foi necessário recorrer a bicos de silicone, era isso ou ter os mamilos constantemente gretados, embate-se logo aqui com um preconceito, com um sentimento de culpabilização, mas tinha prometido a mim mesma que não iria amamentar a minha filha com dores, isso só nos faria mal a ambas e iria impedir a construção do tão afamado laço especial, por isso impus um limite a mim própria e apesar de existirem momentos de dor, com os bicos de silicone contornei a situação.

 

Sabia que se quisesse prolongar a amamentação teria de eventualmente abandonar os bicos de silicone, sabia também que estes podiam estar a contribuir para o agravamento das cólicas, mas na balança pesou conseguir amamentar, fiz várias tentativas para os abandonar, mas facilmente percebi que teria de esperar mais tempo do que desejava.

Esperei, fui testando e um dia consegui, não, as cólicas não terminaram por isso, nem sequer consigo dizer que melhoraram, desconfio até que possam ter piorado porque passou a sugar muito mais depressa e rapidamente se tornou uma perita e passou de sessões de 20m para 10m.

 

Hoje, continuo a amamentar, é um momento só nosso, de amor, de ternura e muita cumplicidade, é uma experiência incrivelmente bonita e é impressionante como o ato mais simples do mundo é um complexo de emoções e sentimentos tão grandioso e imensurável.

 

Esta é minha experiência, não foi sempre maravilhosa, acabou por ser, mas podia ter desistido, tive vontade de o fazer algumas vezes e se o tivesse feito estava no meu direito e ninguém teria o direito de me julgar a mim ou a qualquer mãe por desistir ou até por escolher não amamentar desde logo.

Infelizmente muitas mães desistem por falta de apoio, impressionante que algumas desistam por conselho de profissionais de saúde, impressionante que algumas tentem em vão por demasiado tempo amamentar em dor e desespero porque se sentem culpadas e incentivadas a continuar.

Tive a sorte de ser acompanhada por profissionais que são a favor da amamentação, a pediatra da minha bebé descansou-me quanto ao peso e colocou de lado desde logo a introdução de suplemento só porque a bebé não estava gorduchinha como gostamos de ver os bebés.

 

Com tanta polémica, palpite, falta de empatia e solidariedade, tantas opiniões, informação e desinformação é uma pena que não se fale do mais importante, a grande questão é:

Se a OMS aconselha a amamentação em exclusivo até aos 6 meses porque é que as mães são “obrigadas” a regressar ao trabalho antes?

 

Este deveria ser o único ponto de discussão quando se fala de amamentação, tudo resto diz apenas respeito à mãe e ao bebé e à experiência e vontade de cada mãe.

É frustrante ter leite em abundancia, amamentar sem problemas, saber que o melhor seria amamentar em exclusivo até aos 6 meses e ter de introduzir outros alimentos apenas porque se tem de regressar ao trabalho.

 

Supostamente necessitamos de mais bebés, mas com as condições atuais ter filhos é simultaneamente um ato de coragem e abnegação, é saber que não teremos o tempo que eles precisam e a disponibilidade que obrigam, conscientes que no tempo e nas condições que temos faremos sempre o que entendemos ser o melhor para eles.

 

*foto Google

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