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Língua Afiada

Salvador, a justiça e a indignação

Não queria debruçar-me sobre este assunto que muita polémica, muita discórdia, muito debate e acima de tudo muita troca de insultos e injúrias gerou, mas depois de ler que um grupo de advogados realizou um pedido de libertação imediata (habeas corpus) da jovem que abandonou o filho, fiquei estupefacta.

Estas situações são como as campanhas de marketing, nunca sabemos quais serão virais, não existe uma fórmula, um conjunto de fatores, nem sequer de indicadores que nos deem garantias que terão importância, com as tragédias passa-se o mesmo, umas despertam o interesse do público e até do Presidente da República, outras passam-nos completamente ao lado.

Não quero de modo algum retirar gravidade a este caso, deveríamos ter esta atenção, este interesse e este cuidado com todos os casos semelhantes, é impensável vivermos num mundo onde bebés sejam abandonados no lixo, quando existem tantas outras opções para que sobrevivam saudáveis e felizes.

 

Concordo que é preciso analisar o contexto em que tudo aconteceu, as motivações da mãe, os problemas que eventualmente tem, mas é preciso analisar acima de tudo de que crime estamos a falar, não creio que deitar um bebé num contentor do lixo possa ser considerado crime de exposição ao abandono, existem demasiados indícios que a intenção da mãe seria mais cruel, não houve nela qualquer ato de proteção ou carinho, o bebé podia simplesmente ter morrido ao cair no lixo, nem sequer um trapo lhe deu, era o mínimo, a intenção parece-me era que morresse e que ninguém o encontrasse, passaram seis horas desde que o colocou no lixo até ser encontrado, se fosse um ato de loucura irrefletido teria tempo para o tentar resgatar.

É importante ressalvar também a atuação das autoridades que após investigação decretaram prisão preventiva, quero acreditar que existiram motivos, que não o alarme social, para que a medida fosse essa e não outra, fala-se tanto em confiar na Justiça e são os seus agentes que a questionam agora, e porque o fazem em relação a este caso e nunca o fizeram em relação a outros? Procuram mediatismo?

 

A maioria das pessoas não mata gratuitamente, até os psicopatas têm problema psíquicos que os impelem a matar sem remorsos, a maioria dos homicídios são motivados por razões emocionais ligadas a transtornos e a desequilíbrios mentais, isso impede que as pessoas sejam julgadas e que paguem pelos seus crimes? Não, nem poderia ser de outra forma, caso contrário estaríamos a justificar todos os crimes.

As condições da mãe do Salvador eram deploráveis, mas tanto quanto sei ocultou a gravidez e assim que pariu desfez-se do bebé, não terá desenvolvido um vínculo com ele durante a gestação e não se coibiu de o atirar para um contentor assim que nasceu, esta mulher nunca teve intenção de proteger o filho, a sua situação justifica isso?

Se estivéssemos a falar de uma mulher de classe média, com casa e emprego, embora sozinha, teríamos esta empatia e compaixão? Quantas mães em desespero cometeram crimes semelhantes? E se estivéssemos a falar de um pai? O que faz com que este crime seja especial?

Provavelmente o milagre da sobrevivência do Salvador, a sua sobrevivência é a atenuante para que o crime não seja homicídio e passe a exposição ao abandono?

 

Definir o tipo de crime não é uma ciência exata, é preciso perceber até se esta mulher tinha consciência do que estava a fazer, mas na minha opinião, trata-se de tentativa de homicídio, trata-se de colocar no lixo um ser totalmente indefeso, cujo nosso instinto primitivo é proteger, é preciso existir uma força e motivações muito grandes para contrariar o instinto animalesco que uma mãe sente em proteger a cria.

Sou contra extremismos, contra os gritos de guerra que querem instaurar a pena de morte, fazer justiça com as próprias mãos, mas também não compreendo esta necessidade de tentar justificar o comportamento da mãe, se fosse um caso de doença mental penso que as autoridades o perceberiam e agiriam em conformidade, não sendo e havendo indícios de ser uma tentativa de homicídio a medida de coação está bem aplicada, aliás como saberiam onde encontrar uma sem-abrigo caso a deixassem a liberdade, como aplicariam o termo de identidade e residência?

 

Infelizmente continuamos a ter uma dualidade de critérios impensável, questionamos tudo menos o que é mais importante, tanta indignação e ninguém se indigna que estando nós em 2019, num país com estado social e desenvolvido, exista uma jovem de 22 anos grávida a viver na rua, que jogou o bebé num contentor para ser salvo por outro sem-abrigo? Faz algum sentido com tanta riqueza, desperdício e futilidade existirem pessoas a viver na rua em condições deploráveis?

 

Nem sequer estamos a falar de uma realidade distante, dessa ninguém quer saber porque não está visível, estamos a falar de pessoas que um dia podem ter sido nossas vizinhas, amigas, até familiares que um dia têm uma vida normal e no dia seguinte estão a viver na rua e parece que se tornam invisíveis, descartáveis, até que um acontecimento trágico nos obriga a olhar para elas, mas não para todo o quadro, só para os detalhes que interessam, não, não pensem que desculpar esta mulher vos, nos atenua a culpa de a ignorar a ela e a todos os que vivem na rua.

Vou fingir que herdei um milhão de contos

A ideia é simplória, vou fazer vida como se a minha avó me tivesse deixado um milhão de contos debaixo do colchão e que só agora o descobri, guardei o colchão de relíquia e agora que começava a cheirar a mofo decidi esfrangalha-lo em pedaços para descobrir lá tantas notas, tantas notas, cinco milhões de euros, um milhão de contos, número tão redondinho ali escondido este tempo todo.

Estou milionária e nem sequer ganhei o euromilhões, herdei, herdei uma fortuna choruda, tão boa e ainda por cima não registada, que interessa isso agora, se a minha avó era rica é porque era, herdou ela própria lá uns terrenos de sua madrinha que até era viscondessa, realeza, sangue-azul e portanto muito rica.

Que faço eu agora com esse dinheiro, ora vou viver à grande e à francesa, para já vou já ali ao meu banco, que até conheço o dono, amigo do peito, que me convida para fins-de-semana na sua quinta pedir um empréstimo, como garantia dou a herança, com esse dinheiro compro um apartamento de 10 assoalhadas, um carro desportivo e ainda me sobram uns trocos para criar um negócio, porreiro pá, até tenho meu negócio próprio e tudo.

O negócio começa a rolar e não é que dá dinheiro, lá vou pagando a casa e o carro, o negócio cresce, faço mais uns empréstimos para a internacionalização e aproveito o lanço e compro uma casa de férias, afinal é preciso retribuir os convites para os fins-de-semana ao dono do banco, tudo espetacular, neste momento o meu apartamento de 10 assoalhadas é a garantia do empréstimo do negócio.

E o negócio cresce, perdão floresce como o bolor numa parede húmida, é vê-lo a aumentar, mesmo sem ser regado, peço mais uns empréstimos que isto agora começa a ser sério e é preciso investir para não cair e compro mais uma casa de férias, que ser chique é ter casa de férias na praia e no campo, ter só uma casa de férias é coisa de remediados e não é de herdeiros de viscondessas.

E a vida corre bem, de empréstimo em empréstimo já nem me lembro da herança, afinal já não preciso dela.

Até que entro em falência técnica, o caos, o horror, tantos funcionários para o desemprego, património asseguradíssimo já está tudo em nome de fundações e outras empresas onde eu não tenho qualquer cargo, sou apenas uma consultora, mas um grupo empresarial falir assim como é possível? Não é, lembrei-me de falar com aquele amigo que tem um amigo que trabalha no Estado e que até tem algum poder, lá me ajudou a mexer uns cordelinhos porque ele também é amigo do dono do banco e depois de algumas negociações lá me perdoam a dívida, coitados dos trabalhadores agora ficarem sem emprego, não era possível, uma obra de caridade é o que é.

E pronto começo do zero, sem dívidas, património asseguradíssimo e um negócio que até dá lucro se bem gerido, a vida corre-me bem só porque a minha avó querida me deixou um milhão de contos imaginário.

Trabalho 54 dias de graça

Eu e as mulheres portuguesas trabalhamos 54 dias de graça, talvez colocando a situação nestes termos as pessoas entendam a gravidade da situação.

São 54 dias, quase dois meses de trabalho em que trabalhamos sem receber por isso, oferecemos aos nossos empregadores 54 dias, nunca é demais repetir, 54 dias de trabalho, 54 são muitos dias.

O argumento do tipo de trabalho e da força física nem se coloca, se em média as mulheres continuam a ganhar menos 14,8%,  ou seja, menos 149,7 euros que os homens, este fosso aumenta consideravelmente quando a análise se centra nos cargos superiores, as mulheres ganham menos 617,7 euros que os homens, e entre pessoas com o ensino superior ganham menos 505,5 euros.

Qual é o argumento para justificar esta diferença? Terão as mulheres menos massa cinzenta? Serão as mulheres menos inteligentes?

Não, esta discrepância tem mesmo por base a discriminação do género assente em estereótipos e ideias pré-concebidas profundamente enraizadas em Portugal, cujas maiores interessadas em combater, muitas vezes escolhem não o fazer, continuando a fomentar a desigualdade salarial e outras desigualdades.

O argumento da maternidade e disponibilidade é o pior que podem usar, porque a falta de disponibilidade de uma mulher para realizar horas extras ou viagens é proporcional à falta de disponibilidade de um homem para cuidar e estar com os filhos.

É triste que não se perceba que as mulheres assumem um papel determinante na sociedade, não fossem elas capazes de direcionar as suas prioridades para a família, abdicando muitas vezes da progressão na carreira para que isso aconteça, o que aconteceria? A taxa de natalidade cairia ainda mais, aliás a tendência será essa, com as mulheres cada vez mais a procurarem a realização pessoal através do sucesso profissional e com os homens ainda não preparados para a divisão total de tarefas, incluindo a organização mental, prevêem-se tempos complicados para a constituição de famílias.

Como se resolve este problema? Não é com a lei da paridade, nunca se resolverá uma discriminação com outra discriminação, é pela alteração na forma como encaramos o papel da mulher e do homem na sociedade.

 

Licença de Parentalidade

Licença de parentalidade igual para ambos os progenitores, sabemos que um bebé quando nasce poderá estar dependente da mãe para ser alimentado, verdade, e a presença da mãe é importantíssima porque é a pessoa que o bebé melhor conhece, considero essencial a presença do pai no primeiro mês, aliás essa presença deveria ser estendida até aos 2 meses, findo esse período o pai regressaria ao trabalho e a mãe ficaria de licença até aos 7 meses de vida do bebé, e aí o pai entraria de licença não por o período de um mês, mas até o bebé fazer 12 meses, tendo gozado ambos 7 meses de licença e adiando a entrega do bebé a cuidados de terceiros por até ter um ano.

É preciso igualar o papel de mãe com o papel de pai e cabe à mãe deixar de assumir que só ela é que sabe fazer e cabe às pessoas de um modo geral aceitar e que é normal e natural um pai cuidar dos filhos e não assumir que quando é o pai a acompanhar o filho é porque a mãe foi incapacitada de o fazer, tendo “sobrado” para o pai, nunca assumindo que possa ter sido uma escolha.

 

Horário Laboral

Para além de trabalharmos 54 dias de graça ainda somos dos países onde a jornada de trabalho é maior e isso afeta ainda mais a nossa remuneração que é parca para as horas que trabalhamos. Com este horário de trabalho que já não é compatível com o nosso modo de vida e com os avanços tecnológicos, é impossível as pessoas terem um equilíbrio saudável entre emprego e família, quem é que é mais penalizado? As mulheres, como ganham menos, são as que abandonam os seus empregos de tempo inteiro para abraçarem empregos em part-time ou para ficarem em casa a cuidar da família, mais do que uma escolha emocional é muito mais uma escolha financeira.

 

 Trabalho em casa

Também neste campo existe uma tremenda desigualdade, a mulher para além de trabalhar muito mais horas em casa tem a seu cargo, na maioria das vezes, a carga mental da organização da vida doméstica, que inclui a gestão da casa, das compras, das roupas, da educação e da saúde de toda a família, a carga mental é muito mais penalizadora e cansativa do que o desempenho das tarefas em si, a organização é muito mais trabalhosa do que o trabalho e quando o tempo escasseia qualquer falha pode causar um caos que demora dias a ser resolvido.

É preciso que a divisão das tarefas seja igualitária, mas é preciso que a carga mental também seja, ficando a cargo de ambos a organização e planeamento das tarefas do quotidiano, já que o problema não é ir às compras, mas fazer uma lista de compras que garanta trazer tudo o que faz falta, muitas vezes aos melhores preços e tendo em vista a ementa semanal de toda a família, que inclui todas as refeições.

Cabe aos homens perceberem que têm de partilhar tudo e não só fazer as tarefas que a mulher lhe atribui e cabe às mulheres aprenderem a dar espaço aos homens para serem eles a organizar e a planear essas mesmas tarefas.

 

Mudar mentalidades

Esta é a tarefa mais difícil, dificilmente se muda uma opinião, é quase impossível mudar o comportamento e atitudes de uma pessoa machista, por isso é importante apostar na educação dos mais novos, se a educação dada em casa possivelmente perpetua os estereótipos, é preciso que as escolas assumam esse papel de educar para a igualdade, assim como para a cidadania.

Não é a criticar princesas e príncipes que se mudam mentalidade, mas sim a demonstrar que uma princesa também pode ser forte e independente, não é a abolir os géneros e a querer mitigar as suas diferenças, mas sim a celebrar as diferenças e a promovê-las para termos uma sociedade mais diversa, rica e colorida.

Cabe a cada um de nós, no nosso dia-a-dia tentar mudar a forma como a sociedade segrega e discrimina as mulheres, não é criticando ou diminuindo os homens, mas colocando-nos em pé de igualdade, sem que para isso nos tenhamos de desfazer daquilo do que torna mulheres, não temos de abandonar a nossa feminilidade, temos de ser aceites por aquilo que somos.

 

Gostava muito de ver o dinheiro dos meus impostos ao serviço de uma sociedade mais igualitária, justa e mais feliz, onde os cidadãos e as suas famílias fossem realmente a prioridade e não os interesses instalados e apenas as famílias e amigos da classe política.