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Língua Afiada

Pessoas simples e simplicidade

Chamar alguém de simples pode ser bom ou mau, é tudo uma questão de contexto, pode ser um elogio na medida que é uma pessoa prática, pragmática, despojada, sóbria e humilde, ou uma ofensa se nos referirmos ao simples de simplória, ingénua, muito crédula ou pobremente vestida.

O que vestimos é um reflexo de nós ou do que queremos aparentar e existe, efetivamente, uma correlação entre as pessoas simples e as que se vestem com simplicidade, pessoas que se vestem de forma prática, sem recurso a grandes acessórios e que não se preocupam muito com a imagem são realmente pessoas práticas e pragmáticas.

 

As pessoas que se enfeitam demasiado e se vestem com roupas exuberantes ou têm intenção de ser notadas ou escondem alguma insegurança, quem se faz notado é porque gosta ou porque quer provar alguma coisa aos outros.

Existe também o contrário, pessoas que se vestem com simplicidade porque não querem passar despercebidas.

 

Do meu grupo de amigas e conhecidas começo a notar que aquelas que são menos preocupadas com o que vestem são as mais genuínas e as mais simples, mais práticas e mais assertivas, enquanto as que usam roupas vistosas e acessórios exuberantes são mais fúteis e muitas vezes mais artificias, escondem receios, complexos e até segredos.

De ressalvar que existem pessoas excêntricas por natureza, cuja excentricidade as acompanha em tudo desde tenra idade e claro que há também quem tem pretensão de ser excêntrico, mas que transpira falsidade.

As pessoas simples não são necessariamente simplistas, são taõ complexas como as outras, apenas tentam descomplicar a vida.

 

Sou colecionadora de acessórios, tenho desde os mais simples aos mais chamativos e ultimamente tenho deliberadamente esquecido que existem, se por um lado me dá alguma tristeza saber que tenho acessórios bonitos fechados numa gaveta por outro sinto-me feliz ao pensar que não preciso de artifícios para me sentir bem na minha pele.

Com a idade tornei-me uma pessoa menos complicada, muito mais prática e muito mais pragmática, os dilemas foram dando lugar à certeza que há perguntas sem resposta e que há batalhas que não merecem ser travadas.

 

A vida por seu lado complicou-se, já escrevi muitas vezes que depois de certa idade a felicidade nunca mais é plena, terá sido por isso que senti necessidade de descomplicar tudo o resto?

No meio de uma rotina apressada e do stress diário ter tempo para conjugar acessórios parece um desperdício de energia, prefiro dormir mais 5m do que escolher um colar ou uma pulseira.

Com tantos problemas a necessitarem de atenção o que vestir passou a ser completamente secundário, salvo as devidas exceções que obrigam a que se pense a indumentária de acordo com a ocasião, o meu uniforme é simples e prático, quando tento dar um toque especial é o suficiente para me atrasar.

 

Por outro lado, não deixo de pensar que se convivesse melhor com a minha imagem, talvez não fosse assim, talvez arrisca-se mais como costumava fazer, talvez voltasse a ser a primeira pessoa a aderir às tendências.

Mas depois sorrio porque me lembro que mesmo se isso acontecesse a minha prioridade não seria essa, gosto de coisas bonitas e boas, gosto de moda, gosto de tendências, mas sou incapaz de gastar muito dinheiro em vestuário, calçado e acessórios.

 

Talvez me tenha transformado numa pessoa simples, que prefere conhecer o complexo íntimo das pessoas e saber menos sobre o que vestem e o quanto custou.

A simplicidade é uma virtude, até para a moda o menos é mais, por isso para quê complicar?

 

Sou simples, gosto de simplicidade e de pessoas simples que me dão a conhecer a sua personalidade sem artifícios e máscaras e acredito que com a idade serei ainda mais simples na minha complexidade.