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Língua Afiada

O rescaldo da tragédia de Pedrógão Grande

Tentarei que as linhas sejam breves, mas é difícil resumir tudo o que sinto sobre esta tragédia.

 

Os portugueses adoram ver cabeças a rolar, mesmo que isso não sirva de nada.

Querem a demissão da Ministra da Administração Interna, entendo, concordo no ponto em que o ministério falhou na articulação e no apuramento das responsabilidades, mas o que é isso significa realmente? Nada, eu gostava que pedissem com a mesma veemência uma mudança, uma verdadeira mudança na gestão das florestas. Demitir uma Ministra para vir outra ou outro e continuar tudo igual, não resolve nada.

 

Importa mais a identidade de um pseudónimo do que o conteúdo.

Sebastião Pereira parece ser mais procurado que D. Sebastião em dias de nevoeiro, não entendo o porquê da urgência em se saber a verdadeira identidade do jornalista, por algum acaso é o único a culpar o Governo? Não, mas talvez seja o único a além-fronteiras e num meio com tanta expressão.

Tivessem tanta urgência em encontrar culpados talvez existissem menos incêndios em Portugal no próximo verão.

 

Os portugueses são muito unidos, mas só para petições

Foi criada uma petição para colocar os presos a limpar matas, o que eu gostava mesmo era de ver os presos a serem novamente presos por invadirem propriedade privada.

Como se o problema das matas portugueses se resolvesse com trabalhos forçados.

 

Os portugueses são muito solidários, mas só depois das tragédias.

Tivessem metade da união para defender o país da corrupção e da fraude seríamos grandes, fizéssemos valer esta solidariedade e união na política e na justiça e com certeza haveriam muito menos tragédias em Portugal.

 

Os portugueses não aguentam uma piada (um peido)

Se o contexto foi adequado? Não, se é preciso cruxificar o rapaz por isso? Não.

Mas os portugueses são especialistas a passar pessoas de bestas a bestiais e depois novamente a bestas, uma declaração ou uma vitória é o suficiente para ir de um extremo ao outro.

 

Os portugueses gostam é de esmiuçar a dor dos outros

Criticamos Judite de Sousa que teve uma atitude deplorável, mas depois é ver o rol de notícias sobre as tragédias, sobre as famílias, explora-se a vida de quem partiu e explora-se a dor de quem ficou. Esmiúça-se tudo ao ínfimo detalhe, com entrevistas, testemunhos, lágrimas, imagens, expõe-se a dor e volta-se a expor em programas de informação que nada mais informam que o país sofre.

Já o tempo de antena dado aos especialistas, aos verdadeiros especialistas, não aos comentadores de serviço, é inócuo, perde-se no meio da exploração da dor.

Os portugueses gostam de vender e consumir os detalhes mais sórdidos, uma pena que não esmiúcem o que realmente importa.

 

O que fica da tragédia é o mesmo de sempre, somos um povo solidário porque é moda, porque fica bem bater com a mão no peito nas redes sociais, porque eleva o ego e diminui a culpa, o que gostamos mesmo é de saber detalhes mórbidos, de arranjar um culpado para encerrar o assunto e depois seguir contentes e alegres para as férias de verão, sem que tenha sido feito realmente alguma coisa para mudar.

Na próxima tragédia, porque ela acontecerá se nada mudar, voltaremos a erguer as mãos para o céu, a comover-nos com as imagens, a ajudar com o que conseguirmos, mas os culpados continuarão impunes, a floresta continuará à mercê do dinheiro e a gestão do país na mesma miséria contínua.

Somos todos culpados, mas custa admitir que este país é assim porque deixamos, porque preferimos gastar o nosso tempo com coisas que não nos tiram o sono, porque preferimos consolar-nos nas frases comuns “os políticos são todos iguais”, “não há alternativas”, “ é o país que temos”.

 

Esquecem-se que o país somos nós e somos nós que o fazemos.

Portugal é nosso, mas os portugueses esqueceram disso, a última vez que reclamaram esse direito foi em 1974, tenho pena que se tenha restaurado a democracia só para a deixar cair na hipocrisia.

 

Pedrógão Grande e a exploração da tragédia

Em primeiro lugar quero expressar a minha solidariedade e o meu pesar a todas as pessoas que perderam familiares, amigos, vizinhos, casas, animais, vidas que nunca mais serão as mesmas, serão sempre pautadas pela dor atroz da impotência de não conseguirem fazer nada perante o cenário dantesco.

Vi as imagens da tragédia com os olhos carregados de lágrimas, emocionei-me com as imagens, com os relatos, com o abraço do Presidente ao Secretário de Estado, com as declarações, com a onda de solidariedade e compadeci-me com a dor que não é apenas de Pedrógão Grande, mas de Portugal inteiro.

 

Mas não consigo deixar de me sentir indignada com a exploração da tragédia e a forma crua como alguns jornalistas relatam os acontecimentos.

 

Na TVI a Judite de Sousa achou bem escolher um cenário onde era visível um corpo, um corpo. As imagens da floresta queimada e os carros destruídos não eram suficientemente chocantes, decidiram filmar num local onde jazia um cadáver, a falta de sensibilidade, respeito e empatia é perturbadora.

A jornalista da SIC ontem descrevia que iam transladar os corpos num camião frigorífico, que aguardavam pelo veículo, descreveu todo o processo com uma frieza desconcertante.

Um amigo comentou comigo que um outro jornalista resolveu perguntar à Ministra se iria demitir-se como Jorge Coelho se demitiu após a tragédia de Entre-os-Rios, a Ministra Constança Urbano de Sousa está há horas no centro da tragédia, está visivelmente transtornada e, políticas à parte, tem demonstrado uma grande sensibilidade.

 

Hoje, há um grande contraste entre as capas dos principais jornais, o Correio da Manhã escolheu uma foto com corpos e coloca na capa testemunhos e histórias das vítimas, o Jornal de Notícias coloca uma foto similar e remete também para as histórias das vítimas.

Já os jornais Público e I escolheram capas que na sua simplicidade traduzem toda a dor que o país sente.

Pela capa se denota o caracter da publicação e a forma como tratam a dor.

 

No meio de uma tragédia sem precedentes em Portugal, um terror que devastou uma região e compadeceu o país inteiro é perturbador assistir ao que o jornalismo em Portugal se transformou, uma feira de vaidades, onde quem conta a tragédia maior, quem mostra imagens mais chocantes ganha mais audiências. Vale tudo pela guerra das audiências.

Será que vale? Não. Todas as pessoas com quem falei ontem e hoje estão chocadas obviamente com a tragédia, mas também com a forma como a comunicação social tem explorado a dor e com a sua insensibilidade e falta de empatia.

Não nos podemos esquecer que as vítimas têm família e amigos que não merecem ver o desplante do sensacionalismo invés de jornalismo e informação.