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Língua Afiada

O que olhos não veem o coração sente

Despedi-me cansada, coberta por uma estranha inquietude plácida, na contradição do querer desligar e do querer estar presente, no limbo entre a necessidade de viajar para longe e a vontade de ficar.

Não há nada pior do que partir com o sentimento que deveríamos permanecer, há uma luta constante entre o nosso lado racional e o nosso lado emocional, deixei-me guiar pela razão.

 

É a segunda vez que parto de coração apertado para uma viagem, foi desde então que entendi o que é estar longe com as mãos atadas e coração em sobressalto, sem poder tocar, abraçar, beijar quem mais queremos.

É difícil, é cruel e quem está presente não entende, não pode entender, porque só sentindo é que se sente.

É uma forma de sofrer diferente, a que se sofre à distância, mais solitária, mais inconstante, a tristeza vem em ondas como a saudade, sobressalta-nos a qualquer instante, não raras ocasiões nos momentos mais plenos de felicidade, naqueles que deveriam ser perfeitos não fosse a imperfeição cravada como um espinho no coração.

Assalta-nos também o remorso, uma espécie de culpa pela ausência, um sentimento de contrição.

Os sorrisos não são verdadeiramente sorrisos, há uma sombra invisível que nos sobrecarrega o semblante, uma névoa cobre-nos o olhar, estamos a sorrir, mas a nossa alma ferida transparece constantemente o seu lamurio.

 

Não é preciso estar presente para sentir, não é preciso os olhos verem para o coração sentir, os sentimentos acompanham-nos sempre, podemos fugir de tudo, menos do que sentimos.

Não somos nada mais do que aquilo que sentimos, experienciamos e vivemos, seja perto ou longe, somos um conjunto de sentimentos e emoções.

A distância não me fez sentir menos, não me fez sofrer menos, chorar menos ou ter menos saudades, estiveste sempre no meu coração e no meu pensamento.

Despedi-me de ti com um até logo, recuso dizer-te adeus, afinal estarás sempre comigo.

Até breve.

Inveja

 

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Nunca se falou tanto de inveja como agora, dizem que foi disseminada primeiro pela era da informação, não soubessem as pessoas como viviam os outros não invejariam essa vida, depois aumentada exponencialmente pelas redes sociais, quando a vida não só de famosos, mas de todos é exposta, é sujeita ao escrutínio, à falácia e claro à inveja.

A diferença reside na forma como vê-mos a vida dos outros, a vida das celebridades por norma inspira-nos, a vida dos nossos semelhantes fragiliza-nos.

 

Temos sempre justificação para o sucesso, um nascimento privilegiado, um talento e/ou inteligência inigualáveis, sorte, quando não há justificação o motivo é a sorte.

Estas justificações funcionavam quando não conhecíamos bem as pessoas, quando não acompanhávamos passo a passo o seu crescimento, quando desconhecíamos o seu trabalho, a sua dedicação, as suas condições e dificuldades.

Agora que conhecemos é muito mais difícil lidarmos com o seu sucesso, nem que seja um sucesso ilusório e destorcido.

É mais difícil porque percebemos que não é sorte, às vezes nem sequer é talento ou inteligência, é luta, é coragem, é correr riscos, é sair da zona de conforto, é dar um salto de fé, de confiança que nem todos conseguem dar.

Assim como é difícil conviver com a aparente felicidade constante, as pessoas parecem sempre felizes, uma ilusão dada pelos bons momentos partilhados, sabemos que ninguém é sempre feliz, mas duvidamos disso quando os outros parecem estar sempre felizes.

 

Quando o discernimento fica toldado pela ausência da lógica instituída, a mente tem necessidade de recorrer a outros meios de lidar com a frustração, inveja é o mais comum.

Quando vê-mos alguém que tem algo que desejamos, podemos ter vários tipos de reação, há quem tente roubar num ato tresloucado de cobiça, há quem se inspire e procure seguir o mesmo caminho na esperança da conquista, há quem sinta inveja e se consuma num misto de frustração e ciúme e há quem deseje, mas tenha consciência que não é alcançável e simplesmente se resigne.

Há ainda os que têm consciência que para atingir tal meta é necessário muito trabalho, dedicação e abdicação, nada se consegue sem abdicar de algo, é o chamado custo de oportunidade, esses, os conscientes são, na minha opinião, os mais felizes.

 

Olho para mim e tenho dúvidas se estou entre os resignados ou entre os conscientes, estou entre os dois, dependendo da situação, já me resignei que há coisas que nunca serei, porque não fazem parte de mim, não se adequam à minha linha de pensamento, enquanto que há coisas que tenho plena consciência de como as obter, mas não quero perder o que teria de perder para as conquistar.

O problema reside na inspiração, há tantas pessoas e tantas coisas que me inspiram, é aí que reside o dilema, perseguir ou não um sonho, dar ou não um salto incerto na esperança de cumprir um desejo.

Nunca tive vontade de roubar algo que alguém tivesse, as coisas não se roubam, conquistam-se e não sinto frustração e ciúme na felicidade dos outros.

Em toda a minha vida só tive ciúmes em duas situações, ciúmes inconscientes e característicos da infância dos meus irmãos e ciúmes do meu marido, por mais confiança em mim e nele, há sempre uma pontada de ciúme aqui e ali, é tão natural como o amor que sinto por ele.

 

Nunca fui invejosa, mas nunca tive consciência disso, é uma característica minha, que julgo ter nascido comigo, não foi moldada ou ensinada, tive a sorte de nascer assim, talvez porque sempre me foquei mais nos meus atributos do que nos defeitos, talvez porque a minha autoconfiança e até algum egocentrismo me impedissem de olhar durante tempo suficiente para os outros para sentir inveja.

Tive a plena consciência que não sou invejosa recentemente, foi nos últimos tempos que percebi que apesar de ter um desejo irrealizável que me afeta profundamente, isso não me fez sentir inveja de quem o realizou, vi pessoas realizarem um desejo igual ou similar e não senti inveja.

Posso dizer que senti frustração, mas não senti ciúme, inveja, rivalidade, ganância, apenas uma tristeza interior profunda, tão profunda que é complemente invisível a quem me rodeia.

Percebi também que odeio a inveja e o que ela representa e que tenho tendência a afastar-me de pessoas invejosas, algumas vezes até ter-me-ei afastado inconscientemente de algumas pessoas por serem assim.

 

Acredito que a maioria das pessoas não escolhe ser invejosa, é algo que é intrínseco, é uma reação a um estímulo, acredito porém que as pessoas podem contrariar esse sentimento. Não é preciso encontrar defeitos na pessoa que se inveja, explicações ou motivos para o seu sucesso ou felicidade, nem sequer é preciso procurar em nós lapsos ou falhas para não conseguirmos os mesmos objetivos, é preciso sim encontrar em nós virtudes que nos façam ultrapassar as nossas possíveis falhas, feitos alcançados que nos realizem e novas metas e sonhos que seremos capazes de atingir e conquistar.

 

A inveja corrói tudo o que existe de bom, faz perecer a bondade, a generosidade, o amor, a amizade, consome todos os recursos, todos os sonhos transformando-nos em pesadelos.

 

Não se deixem levar pela inveja, pela cobiça, pela ganância, pela ambição desmedida, deixem-se levar pela inspiração, pela aspiração, pelo sonho.

Recordações da adolescência

A adolescência é das épocas mais conturbadas da nossa vida, mas é também a mais intensa, onde tudo assume proporções gigantescas e os sentimentos são vividos com uma intensidade louca.

Tenho saudades dessa época, confesso, às vezes dou por mim a revive-la ou pelo menos a tentar, recorro à música, essa aliada dos bons e dos maus momentos, porque na adolescência não existem, ou pelo menos na minha não existiram, dias normais, eram sempre dias extraordinários ou dias miseráveis em que a música me acompanhava e dava todo um outro significado a tudo o que eu sentia.

Na semana passada resolvi remexer nas músicas que me acompanharam nessa época, é bom recordar e sentirmo-nos por instantes noutra época.

Foi estranho perceber que há tanta, mas tanta sabedoria nas letras das músicas, talvez por isso na altura a música assumia uma grande importância na minha vida, tinha tempo para dissecar a letra, memorizar as palavras, os trejeitos, as notas mais altas e mais baixas, a entoação certa e acima de tudo interiorizar cada palavra, sentir o seu significado.

A música sempre teve um papel fulcral na minha vida, sempre adorei cantar e houve uma altura em que sonhei que talvez pudesse ser esse o meu caminho, perdeu-se no meio de tantos outros, prioridades, escolhas, não sei explicar porque caiu por terra, apenas caiu.

Não passo o dia a ouvir música, gosto de estar sozinha com os meus pensamentos e a música distrai-me, além disso para apreciar verdadeiramente uma música tenho de estar no estado de espírito certo, mais do que senti-la tenho de estar preparada para a experienciar, a música pode provocar uma sensação maravilhosa ou dolorosa, dependendo da música e da reação que ela me desperta posso sentir uma alegria desmesurada ou uma agonia atroz, sinto-me novamente adolescente.

Partilho com vocês algumas frases simples que encerram em si tanto significado, retiradas do baú continuam atuais, serão sempre atuais pois carregam o peso de sentimentos perpétuos.

 

“I sing myself to sleep
A song from the darkest hour
Secrets I can't keep
In sight of the day”

James - Sit Down

 

Wanna be young - the rest of my life
Never say no - try anything twice
Till the angels come - and ask me to fly”

Brian Adams – 18 Until I dye

 

“Believe, believe in me, believe
That life can change, that you're not stuck in vain”

Smashing Pumpkins – Tonight

 

“Eu não sei...
Tanto, sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas
Que fazem chorar”

Silence 4 – Eu Não Sei Dizer