Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Língua Afiada

Pessoas que morrem vivas

É uma afirmação muito forte dizer que alguém morreu para nós, quando a pessoa se encontra viva e de boa saúde.

Se a reação da maioria das pessoas a esta afirmação é dizer-nos que o tempo apazigua as dores e a distância ameniza as convicções, há situações em que o tempo funciona precisamente ao contrário, afirma a morte e confirma as certezas.

 

As pessoas que morrem vivas são pessoas que têm para nós significado, de outra forma não mereciam de nós tamanha rejeição e desprezo, são pessoas cuja importância que outrora tiveram impede que sejam simplesmente ignoradas, dizer que alguém morreu para nós, é muito mais do que ignorar e esquecer, é matar a pessoa no nosso coração e na nossa mente, aniquilando qualquer resquício de vida, de memórias, de história.

Não é um sentimento bom, nem tão pouco fácil, mas situações limite obrigam-nos a recorrer aos mecanismos de defesa mais básicos, um instinto primitivo capaz de proteger a espécie e capaz de nos proteger individualmente dos perigos e ataques, o matar para sobreviver.

 

Matar, mesmo que seja no sentido figurado, não deixa de ser matar, mas em vez de cometermos um crime, programamos a nossa mente para assumir uma morte psicológica, matando qualquer ideia da pessoa e especialmente exterminando qualquer possibilidade de ela fazer parte da nossa vida.

Acredito que com o tempo essas pessoas deixem mesmo de existir para nós, podem respirar, falar, andar, viver, mas para nós são apenas fantasmas desprovidos de qualquer importância ou significado, seres abjetos sem opinião, valor ou intenção, tão inanimados como a pedra que pontapeamos do caminho.

 

Pessoas que morrem vivas não merecem um enterro, é deixá-las desaparecer no tempo, sem legado, história ou memória, a transformarem-se no nada que são.

Um plano para o plano

Quando acumulamos tarefas e projetos não é difícil perder-nos entre prioridades e listas, a organização é essencial, mas nem sempre é suficiente, quando o tempo escasseia e imprevistos se atropelam uns aos outros, as prioridades e os planos são rapidamente alterados e invertidos.

É nestas alturas que é necessário definir um plano para o plano, imaginem-se a delinear uma estratégia para uma caça ao tesouro cheia de armadilhas, pistas falsas, enigmas e piratas, só que neste caso temos respostas negativas, perspetivas furadas, incógnitas e concorrência.

 

O nosso maior problema é mesmo a rotina e as tarefas inadiáveis, como responder ao e-mail urgente e atender a chamada, chegamos ao final do dia exaustos com a sensação que não conseguimos ser produtivos, que o nosso projeto avançou zero pontinhos no mapa.

Para pensar, criar, desenvolver é preciso predisposição e tempo que constantemente nos roubam com situações tão corriqueiras que chegam a ser anedóticas, mas a que é preciso dar resposta.

No meio desta confusão de não prioridades as verdadeiras prioridades ficam para segundo plano e tentamos por várias vezes executar tarefas que nunca conseguimos levar ao fim para nosso desespero.

 

Têm sido assim os meus dias um acumulado de não prioridades que me impedem de concentrar no plano, sinto-me exausta e vencida pelo cansaço da infertilidade de ideias e da parca concentração.

Comigo é sempre assim quando mais preciso de estar no meu melhor é quando estou muito aquém das minhas capacidades, aconteceu-me o mesmo no fim da licenciatura, quando precisava de tempo e ideias para desenvolver projetos e trabalhos de grupo andava esgotada por um trabalho que me sugava a energia e a paciência, felizmente mudei de emprego a tempo de ter sagacidade para a monografia.

 

Neste momento o plano é descansar o mais possível para estar o mais focada e atenta nas horas de trabalho, o meu cérebro pelas 20h passa a estar a uns 30% e qualquer coisa que implique um processamento mais rápido é um esforço herculano.

Espero que estes tempos de sobrecarga não piorem e que consiga chegar a Setembro com sanidade mental, só aí conseguirei tirar as muito almejadas férias que tenho adiado sucessivamente há mais de um ano.

Sei que existem pessoas que nunca tiram férias e quando as tiram nem sequer as podem apelidar de férias, mas no meu caso as férias e as viagens são o combustível que armazeno para fazer face à rotina dos restantes dias do ano.

 

Por estes dias o plano terá de ser construído devagarinho, lentamente, nos intervalos lúcidos que consiga encontrar no meio da azáfama diária, até que consiga recuperar totalmente as energias e me sinta 100% focada e obstinada porque o sucesso decorre da teimosia da persistência e da luta incessante e incansável de concretizarmos os nossos objetivos.

Julho está a ser um mês cansativo, mas de boas notícias, este Verão pode não ser o mais quente de sempre, mas tem sido contrariamente ao que descrevo neste texto o mais aconchegante, um objetivo já está, agora é um dia de cada vez até conseguir atingir os próximos.

Os truques da mente humana

A nossa mente é um sistema complexo de pensamentos e sentimentos e estou convencida que por mais que tentemos nunca conseguiremos dominar a parte emocional, o nosso lado racional pode até ser dominante, mas há sempre brechas para que sentimentos irracionais tomem conta do espaço e se sobreponham.

No caos que é o nosso cérebro, mais consciente ou mais inconscientemente adotamos estratégias de defesa contra os ataques do lado emocional.

 

Quem nunca se forçou a não ter esperança, só para não sofrer com uma eventual má notícia?

 

Dizem que devemos manter sempre o pensamento positivo, acreditar que conseguimos, mas é impossível não questionar e antecipar o que iremos sentir se não acontecer, se não conseguirmos, se tivermos uma desilusão ou uma derrota.

Tentamos ignorar, abstrair, não pensar no assunto, o lado racional sobrepõe-se, mas quando menos esperamos somos invadidos pelas questões e antecipamos a desilusão.

No meio da ansiedade, das questões, da incógnita mentalizamo-nos que estamos a ter esperanças vãs só para não sofremos tanto no caso de a resposta ser negativa.

A nossa racionalidade ataca e afasta esses maus pensamentos, sentimo-nos esperançosos e revigorados e deixamos de pensar no assunto até novo ataque de insegurança e incerteza.

 

Nas grandes questões da vida é assim dúbio o nosso comportamento, confuso o nosso pensamento que altera entre a esperança e o reconforto antecipado, lidar com esta dualidade nem sempre é pacífico, é uma luta interna que nem sempre é justa, influenciada muitas vezes por fatores externos em nada relacionados com a situação.

Quando era mais jovem recorria ao truque usado por Amélie no filme “O Fabuloso destino de Amélie”, pensava se conseguir fazer isto é porque vai correr bem, era no fundo um reforço positivo que jogava a favor da esperança.

 

Agora, o meu truque é mais racional, tento manter a calma, pensar positivo, mas não elevar as expetativas ao máximo, manter os pés assentes na terra e pensar que se não ganhar desta vez, ganharei na próxima.