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Língua Afiada

Ter uma empresa em Portugal #1 – Transportes

Ter uma empresa não é fácil, ter uma empresa em Portugal é extremamente difícil, são inúmeros obstáculos e burocracias que nos fazem desesperar a todo o momento.

Um dos maiores problemas é encontrar bons parceiros de negócio, especialmente na área dos transportes, encontrar um fornecedor que cumpra é quase impossível, nem os CTT, essa empresa que já foi uma referência, tem um bom serviço.

O que a experiência nos diz é que não há uma, pelo menos nós ainda não encontramos nenhuma, que funcione a 100%.

Os problemas encontrados são vários, envios cobrados em excesso, ou estão muito atentos às faturas ou ao final do ano estão a perder dinheiro por estarem a pagar envios de peças de 10kg a 20kg, ou pior, encomendas de 30kg a 100kg, envios internacionais, um problema ainda maior, é muito fácil serem cobrados por um código postal mais alto ou serem faturados de outra forma, por exemplo em vez de kg serem faturados por volume para ser cobrado um valor mais alto.

Acionar o seguro é quase impossível, parece existir sempre uma razão para a culpa não ser do transportador, mas da empresa ou do cliente, podem ser as razões mais estapafúrdias, mas eles encontrarão sempre um motivo para se isentarem de culpa, mesmo que não exista desculpa possível.

 

O que fazer?

Estar muito atentos às faturas e aos envios e esperar que corra tudo bem, porque não há muito mais a fazer. Resolver uma reclamação e recuperar um valor debitado indevidamente demora muito tempo, por isso o meu conselho é que não optem por débitos diretos ou estarão constantemente a ter débitos indevidos que só conseguirão receber volvidos três meses.

O problema não passa apenas por ter clientes insatisfeitos, atrasos e faturas com valores errados, o problema maior é o tempo que despendemos a tratar de um assunto que supostamente seria simples e imediato e o stress que isso nos causa, transporte não é propriamente uma ciência, é um serviço simples, recolha- transporte-entrega, mas em Portugal entre a recolha e a entrega pode acontecer um pouco de tudo e a quantidade de encomendas que se perdem no processo é absurda, mais absurdo ainda é o transportador não saber onde as encomendas se encontram e não avisar que as perderam.

 

É impossível prestar um bom serviço se não existem bons prestadores de serviços e é impossível que cada empresa tenha o seu próprio sistema de transporte, para diminuir as incidências escolhemos a empresa de transportes consoante o tipo de envio, mas mesmo assim a taxa de problemas é elevadíssima, aliás ultimamente não há envio que não dê problemas e por causa disso em vez de estarmos focados em vender, estamos constantemente a resolver problemas de entrega, custa-nos tempo, dinheiro e clientes, é desmotivador e altamente frustrante.

Está muito na moda ser empreendedor, mas ninguém fala das dificuldades e obstáculos que o sistema coloca a quem pretende empreender.

Contrastes de velocidades em período de férias

Em véspera do período de férias mais apetecível, ou mais exigido, dos portugueses há um contraste desconcertante entre quem se prepara para entrar de férias e quem regressa de férias e quem ainda tem de esperar para as gozar.

Enquanto uns se desligam lentamente do trabalho, adiam tarefas e empurram com a barriga decisões, outros desdobram-se para ter em dia todo o trabalho, para não ficar com pendentes e evitar ao máximo as surpresas durante a ausência dos colegas.

Sinceramente nunca entendi este desligar precoce, para mim as vésperas de férias são sempre complicadas, com imensos assuntos a resolver e imensas indicações a dar, que envolvem listas das tarefas que os colegas têm de tratar e pontos de situação para que não existam dúvidas, o que lhes facilitará o trabalho a eles e as férias a mim, pois nem eles gostam de me incomodar, nem eu de ser incomodada.

Com algum esforço extra antes do merecido descanso é possível evitarem-se constrangimentos, é precisamente nestas situações que conseguimos avaliar a qualidade, a responsabilidade e o profissionalismo dos nossos colegas, infelizmente nem sempre a avaliação é positiva, já que o egoísmo de uns prejudica a responsabilidade de outros.

O mesmo se passa quando se pede para resolver assuntos perto do horário de saída, uns acolhem o pedido e tentam ao máximo ajudar para que o assunto não fique pendente para o dia seguinte, outros respondem imediatamente que não podem, mesmo que não demore mais de dois minutos a tratar da questão.

Este desligar e este desleixo não ajudam em nada à produtividade das empresas, não adianta trabalhar 8 horas se efetivamente não rendemos durante esse período, seria muito mais produtivo para todos ter um horário mais curto, durante o qual a dedicação e o foco fossem de 100%, sem cafés, conversas, distrações, pausas e outras estratégias às quais recorremos para não enlouquecermos por estarmos fechados durante 8h, sem contar o horário de almoço, no mesmo espaço.

É urgente reorganizar os horários de trabalho, mas também é urgente mudar mentalidades, quer dos empregadores, quer dos empregados.

Cláudia Azevedo no topo da Sonae

Lamentavelmente ainda é louvável quando assistimos uma mulher chegar ao topo, num mundo ideal não nos congratularíamos com isso, seria apenas mais uma notícia, mas quando estamos ainda longe da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres estes exemplos são a prova que existe ainda um longo caminho a percorrer.

 

Este é, sem dúvida, um excelente exemplo por não se tratar de uma simples sucessão, no grupo Sonae tudo foi preparado para que a gestão seja independente da massa acionista, a forma encontrada para garantir a continuidade da empresa, o que significa que quando Cláudia Azevedo assumir em 2019 o cargo de CEO da Sonae o fará por mérito, competência e provas dadas e não apenas porque é acionista.

A sucessão familiar nas empresas portuguesas é um problema epidémico, já que são muito poucas as que conseguem chegar à terceira geração e muito menos a que a sobrevivem, Belmiro de Azevedo consciente das estatísticas preparou a estrutura da empresa para que isso não acontecesse com a Sonae, um exemplo que deveria ser seguido por outros empresários e empresas que não antecipando este problema acabam por ver o seu legado desfeito.

 

A capacidade de liderança, a visão estratégia, a vocação para a gestão não se transferem naturalmente para os descendentes como o capital, a personalidade, caráter e inteligência não são exclusivamente hereditários, mas em Portugal é comum esquecermo-nos desse aspeto e por isso deixar a gestão de pequenas, médias e até grandes empresas nas mãos dos herdeiros por tradição, mesmo que essa passagem automática contrarie toda a lógica de gestão.

Gestores independentes são muitas vezes a melhor forma de terminar com quezílias familiares, o seu distanciamento natural permite-lhes encarar as decisões mais friamente e com base na razão sem interferência das emoções tão inimigas da racionalidade.

 

Fico feliz que Cláudia Azevedo tenha traçado o seu percurso para o sucesso, que tenha chegado ao topo de um dos mais importantes grupos portugueses, espero que seja um exemplo de como uma mulher é perfeitamente capaz de conduzir um grande grupo a grandes conquistas, mantendo a senda de prosperidade e crescimento sustentado.

Muito pouco se sabe sobre a filha mais nova de Belmiro de Azevedo, mas o próprio dizia que era a mais parecida consigo, do pouco que li sobre Cláudia Azevedo, podemos esperar uma gestão assertiva e firme.

 

A gestora que não gosta de ouvir não, por muitos criticada só por o admitir, é na verdade uma inspiração para todas as mulheres, lembrem-se que mesmo quando nos dizem não, no mundo dos negócios esse não com trabalho e dedicação pode ser transformado num sim.