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Língua Afiada

As mães e as comparações

Num mundo ideal todos os bebés seriam acarinhados, mimados e aceites da mesma forma e não existiriam quaisquer comparações de beleza, inteligência, desenvolvimento, peso, altura, cor dos olhos, tipo de cabelo, pele, sorriso com dentes ou sem dentes, comunicação e personalidade, mas esse mundo ideal não existe, é ainda mais utópico que o mar de rosas da gravidez e mais fantasioso que os unicórnios.

Entendo perfeitamente que para os pais tudo o que um bebé de meses faz é mágico, acontece o mesmo lá em casa, cada pequeno desenvolvimento é um entusiasmo e uma felicidade inexplicável, é assim por vários motivos, desde já porque estamos programados a achar os bebés fofos e é assim porque os pais amam os seus filhos e todos sabemos que o amor é cego e o que sentimos pelos filhos não só nos cega de tal forma que não enxergamos os cocós feios, como ainda aprendemos a não sentir o seu cheiro e conseguimos fazer coisas como aspirar ranho com um aparelho que se mete na boca. Atos de puro amor.

O que não entendo é a necessidade de comparação e não percebo porque é que as pessoas acham que tudo o que as outras mães dizem é comparação, eu se estou a falar da alimentação da minha filha não estou necessariamente a dizer que é melhor, pior, mais especial que a dos outros, estou apenas a referir-me à alimentação dela, ponto.

Dei o exemplo da alimentação de propósito, felizmente a minha filha ainda é amamentada e será enquanto eu produzir leite para lhe dar, que espero seja por muito tempo, quando um bebé é amamentado exclusivamente com leite materno, a menos que tenha défice de peso ou de crescimento a introdução alimentar é realizada apenas a partir dos 6 meses de vida, só é realizada antes por necessidade, como foi o meu caso porque tive de regressar ao trabalho, é por isso natural que nestes casos os bebés comecem a introdução alimentar mais tarde.

O drama, o horror, então a menina não come pão, não come sopa ao jantar, não come arroz, não come massa? A minha já comia, o meu adorava, blá, blá, blá.

Como diz o meu sábio marido – Se ando a pagar à pediatra é para fazer o que ela recomenda!

Que por acaso até é o que é recomendado pela OMS.

Ficassem as comparações pela alimentação e os palpites pelos alimentos estava tudo bem, mas há coisas muito mais importantes, de extrema importância e relevância para a felicidade dos bebés, como por exemplo falar, é que os bebés não têm uma linguagem própria (choro) para nos avisarem que precisam de algo ou que algo está mal, mas há bebés que aos 3 meses já falam, qualquer dia nascem mesmo a falar, alguns nascem com dentes porque é que agora não podem nascer a falar? Até o nascimento dos dentes é tema de comparação, como se ter dentes cedo fosse algum sinal de desenvolvimento precoce.

E andar? E gatinhar? E mais um sem fim de coisas que querem forçosamente que os seus filhos façam primeiro e melhor do que outros, vale tudo na hora de comparar habilidades.

É certo que existem níveis de desenvolvimento cognitivo bem definidos que caso os bebés não cumpram é sinal de alarme, mas peso e altura não fazem parte desses níveis, o percentil é apenas uma unidade de medida para avaliar o desenvolvimento de cada bebé, não para compara-los uns com os outros. Nem todos os bebés são gorduchinhos, os bebés são exatamente como os adultos uns magros, outros gordos, uns altos, outros baixos, cada um com o seu biótipo e com seu desenvolvimento.

Dou por mim a pensar que se uma mãe com um bebé saudável esta constantemente sob pressão, não quero imaginar o que sentirá uma mãe com um bebé com algum problema de saúde ou com necessidades especiais.

Esta necessidade de constante comparação, afirmação, reconhecimento, superação em vez de nos fazer crescer e melhorar só faz com que fiquemos cada vez mais egoístas, narcisistas, invejosos e frustrados, colocar a responsabilidade da nossa felicidade nos nossos filhos não ajuda em nada a nos sentirmos realizados.

Parem de comparar a vossa vida com a dos outros e serão mais felizes, mas acima de tudo parem de comparar os vossos filhos com os dos outros ou correm o risco de os tornarem a eles infelizes.

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