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Língua Afiada

As malditas expetativas e a infelicidade

A maior parte dos problemas das nossas vidas seriam resolvidos ou minimizados se não tivéssemos expetativas ou pelo menos expetativas tão altas. Mas os jovens da geração Y, jovens nascidos entre o final da década de 70 e a metade da década de 90 foram criados com a noção que tudo era possível, tudo era alcançável e que todo era merecido só porque sim.

Faço parte dessa geração e apesar de ter conseguido assimilar que a vida afinal não é assim tão fácil, que nem tudo corre como esperado ou como achei que iria correr, há dias em que ainda me pergunto o que faltou para concretizar alguns sonhos.

Várias vezes falo com amigos e colegas que estão frustrados com a vida porque ela levou um rumo diferente daquele que traçaram. É uma realidade difícil de aceitar, mas a verdade é que nem todos podem ser pessoas de sucesso aos 30 anos, especialmente se não fizeram nada mais do que tirar um curso superior que escolheram e esperaram ser suficiente, mesmo quando alguns cursos nem sequer saídas profissionais tinham, ter sucesso profissional não é algo que cai do céu, embora algumas pessoas possam transparecer isso.

Ninguém merece tudo da vida só porque quer ou porque acha que merece, não existem milagres.

Tim Urban fez um texto brilhante que explica o porquê dos jovens profissionais da geração Y estarem infelizes, para isso usa a personagem Ana como exemplo e coloca as coisas que forma tão simples que chega a ser assustador, aconselho a todos a leitura.

 

Esta é a Ana.

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Ana é parte da Geração Y, a geração de jovens nascidos entre o fim da década de 70 e a metade da década de 90, a Ana também faz parte da cultura Yuppie, que representa uma grande parte da geração Y.

 

“Yuppie” é uma derivação da sigla “YUP”, expressão inglesa que significa “Young Urban Professional”, ou seja, Jovem Profissional Urbano. É usado para referir-se a jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, geralmente de situação financeira intermediária entre a classe média e a classe alta. Os yuppies em geral possuem formação universitária, trabalham em suas profissões de formação e seguem as últimas tendências da moda. – Wikipedia

 

Tim Urban dá um nome para yuppies da geração Y — chama-los de “Yuppies Especiais e Protagonistas da Geração Y”, ou “GYPSY” (Gen Y Protagonists & Special Yuppies). Um GYPSY é um tipo especial de Yuppie, um tipo que se acha o personagem principal de uma história muito importante.

Então Ana está lá, desfrutando da sua vida de GYPSY e ela gosta muito de ser a Ana. Só tem um pequeno detalhe a atrapalhar:

Ana está infeliz.

Para entender a fundo o motivo de tal infelicidade, primeiro precisamos definir o que faz uma pessoa feliz ou infeliz. É uma fórmula simples:

 

H=R-E.png

 

Quando a realidade da vida de alguém está melhor do que essa pessoa estava à espera, ela está feliz. Quando a realidade é pior do que as expectativas, essa pessoa está infeliz.

Para contextualizar melhor, vamos falar um pouco dos pais da Ana:

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Os pais da Ana nasceram na década de 50 — eles são “Baby Boomers“. Foram criados pelos avós da Ana, nascidos entre 1901 e 1924, e definitivamente não são GYPSYs.

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Na época dos avós da Ana, eles eram obcecados com estabilidade econômica e criaram os pais dela para construir carreiras seguras e estáveis. Eles queriam que a relva dos pais dela crescesse mais verde e bonita do que a deles próprios. Algo assim:

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Eles foram ensinados que nada os poderia impedir de conseguir um relvado verde e exuberante nas suas carreiras, mas teriam que se dedicar a anos de trabalho duro para que isso acontecesse.

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Depois da fase de hippies insofríveis, os pais da Ana embarcaram nas suas carreiras. Nos anos 70, 80 e 90, o mundo entrou numa era sem precedentes de prosperidade econômica. Os pais da Ana saíram-se melhor do que esperavam, isso os deixou satisfeitos e otimistas.

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Tendo uma vida mais suave e positiva do que seus próprios pais, os pais da Ana a criaram um senso de otimismo e possibilidades infinitas. E eles não estavam sozinhos. Baby Boomers em todo o país e no mundo inteiro ensinaram os seus filhos da geração Y que eles poderiam ser o que quisessem ser, induzindo assim a uma identidade de protagonista especial nos seus subconscientes.

Isso deixou os GYPSYs esperançosos em relação às suas carreiras, ao ponto de aquele relvado verde de estabilidade e prosperidade tão sonhado pelos seus pais, não ser suficiente. Um relvado digno de um GYPSY também deveria ter flores.

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Isso nos leva ao primeiro fato sobre GYPSYs:

GYPSYs são ferozmente ambiciosos

 

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O GYPSY precisa de muito mais da sua carreira do que somente um relvado verde de prosperidade e estabilidade. De facto um relvado verde por si só não é tão único e extraordinário para um GYPSY. Enquanto seus pais queriam viver o sonho da prosperidade, os GYPSYs agora querem viver seu próprio sonho.

Cal Newport aponta que “seguir seu sonho” é uma frase que só apareceu nos últimos 20 anos, de acordo com o Ngram Viewer, uma ferramenta do Google que mostra quanto uma determinada frase aparece em textos impressos num certo período de tempo. Essa mesma ferramenta mostra que a frase “carreira estável” saiu de moda e que a frase “realização profissional” é muito popular.

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Para resumir, GYPSYs também querem prosperidade econômica como os seus pais, só que eles também querem se sentir realizados nas suas carreiras, um fator em que seus pais não pensavam muito.

Mas outra coisa está acontecendo. Enquanto os objetivos de carreira da geração Y se tornaram muito mais específicos e ambiciosos, uma segunda ideia foi ensinada à Ana durante toda sua infância:

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Este é provavelmente uma boa hora para falar do nosso segundo facto sobre os GYPSYs:

GYPSYs vivem uma ilusão

Na cabeça de Ana passa o seguinte pensamento: “mas é claro… toda a gente terá uma boa carreira, mas como eu sou prodigiosamente magnífica, de uma forma incomum, a minha vida profissional irá destacar-se na multidão”. Então se uma geração inteira tem como objetivo um relvado verde e com flores, cada indivíduo GYPSY pensa que está predestinado a ter algo ainda melhor:

Um unicórnio reluzente pairando sobre um relvado florido.

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Mas por que motivo isso é uma ilusão? Por que isso é o que cada GYPSY pensa, o que põe em questão a definição de especial:

es-pe-ci-al | adjetivo
melhor, maior, ou de algum modo
diferente do que é comum

 

De acordo com esta definição, a maioria das pessoas não são especiais, ou então “especial” não significaria nada.

Mesmo depois disso, os GYPSYs que estão a ler isto pensam, “bom argumento… mas eu realmente sou um dos poucos especiais” – e aí reside o problema.

Uma outra ilusão é criada pelos GYPSYs quando eles entram no mercado de trabalho. Enquanto os pais da Ana acreditavam que muitos anos de trabalho duro eventualmente lhe renderiam uma grande carreira, Ana acredita que uma grande carreira é um destino óbvio e natural para alguém tão excecional como ela, e para ela é só questão de tempo e escolher qual caminho seguir. Suas expectativas pré-trabalho são mais ou menos assim:

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Infelizmente, o mundo não é um lugar assim tão fácil, e curiosamente carreiras tendem a ser muito difíceis. Grandes carreiras consomem anos de sangue, suor e lágrimas para se construir – mesmo aquelas sem flores e unicórnios – e mesmo as pessoas mais bem-sucedidas raramente fazem algo grande e importante nos seus vinte e poucos anos.

Mas os GYPSYs não aceitam isso facilmente.

Paul Harvey, um professor da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, e expert em GYPSYs, fez uma pesquisa onde conclui que a geração Y tem “expectativas fora da realidade e uma grande resistência em aceitar críticas negativas” e “uma visão inflada sobre si mesmo”. Ele diz que “uma grande fonte de frustrações de pessoas com forte senso de grandeza são as expectativas não alcançadas. Elas geralmente se sentem merecedoras de respeito e recompensa que não estão de acordo com seus níveis de habilidade e esforço, e talvez não obtenham o nível de respeito e recompensa que estão esperando”.

Para aqueles que estão a contratar membros da geração Y, Harvey sugere fazer a seguinte pergunta durante uma entrevista de emprego: “Você geralmente se sente superior aos seus colegas de trabalho/faculdade, e se sim, porquê?”. Ele diz que “se o candidato responde sim para a primeira parte da pergunta mas tem dificuldade com o porquê, talvez haja um senso inflado de grandeza. Isso é por que a perceção da grandeza é geralmente baseada num senso infundado de superioridade e merecimento. Eles são levados a acreditar, talvez por causa dos constantes e ávidos exercícios de construção de autoestima durante a infância, que eles são de alguma maneira especiais, mas na maioria das vezes faltam justificações reais para essa convicção”.

E como o mundo real considera o merecimento um fator importante, depois de alguns anos de licenciada, Ana encontra-se aqui:

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A extrema ambição de Ana combinada com a arrogância, fruto da ilusão sobre quem ela realmente é, faz ela ter expectativas extremamente altas, mesmo sobre os primeiros anos após a saída da faculdade. Mas a realidade não condiz com suas expectativas, sendo o resultado da equação “realidade – expectativas = felicidade” negativo.

E a situação só piora. Além disto tudo, os GYPSYs tem outro problema, que se aplica a toda sua geração:

GYPSYs estão sendo atormentados

Obviamente, alguns colegas de turma dos pais da Ana, da época do liceu ou da faculdade, foram mais bem-sucedidos do que eles. E embora eles tenham ouvido falar algo sobre seus colegas ocasionalmente através de esporádicas conversas, na maior parte do tempo eles não sabiam realmente o que se estava a passar na carreira e na vida das outras pessoas.

A Ana, por outro lado, vê-se constantemente atormentada por um fenômeno moderno: Partilha de Fotos no Facebook.

As redes sociais criam um mundo para a Ana onde: A) tudo o que as outras pessoas estão fazendo é público e visível para todos, B) a maioria das pessoas expõe uma versão manipulada e melhorada de si mesmos e das suas realidades, e C) as pessoas que expõem mais suas carreiras (ou relacionamentos) são as pessoas que estão melhor, enquanto as pessoas que estão tendo dificuldades tendem a não expor sua situação. Isso faz Ana achar, erroneamente, que todas as outras pessoas estão muito bem nas suas vidas, só piorando seu tormento.

 

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É por isso que Ana está infeliz, ou pelo menos, a sentir-se um pouco frustrada e insatisfeita. Na verdade, seu início de carreira provavelmente está a correr muito bem, mas mesmo assim, ela sente-se desapontada.

Aqui vão os conselhos de Tim Urban conselhos para Ana:

 

1) Continue ferozmente ambiciosa. O mundo atual está borbulhando de oportunidades para pessoas ambiciosas conseguirem sucesso e realização profissional. O caminho específico pode ainda estar incerto, mas ele aparecerá com o tempo, apenas entre de cabeça em algo que goste.

 

2) Pare de pensar que é especial. O facto é que, neste momento, a Ana não é especial. É outra jovem profissional inexperiente que não tem muito para oferecer ainda. A Ana pode tornar-se especial trabalhando arduamente por muito tempo.

 

3) Ignore todas as outras pessoas. Essa impressão de que o relvado do vizinho está sempre mais verde não é de hoje, mas no mundo da autoafirmação via redes sociais em que vivemos, o relvado do vizinho parecer um campo florido maravilhoso é normal. A verdade é que todas as outras pessoas estão igualmente indecisas, duvidando de si mesmas, frustradas, assim como a Ana, se apenas se dedicar às suas coisas nunca terá razão pra invejar os outros.

 

Versão original em Inglês aqui.

Versão adpatada em português aqui.

2 comentários

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    Psicogata 13.07.2016 11:01

    Eu acho que deveria ser obrigatório toda a gente fazer uma sessão de terapia todos os anos.
    Num mundo onde tudo parece fácil para os outros é difícil lidar com a adversidade, é complicado quando só as coisas boas são partilhadas aceitar que a vida não é sempre um campo florido de unicórnios.
    Mostram que estão numa viagem de trabalho, mas não dizem que estão há 24h sem dormir, cansados, num país desconhecido sozinhos, com uma enorme pressão para que tudo corra bem.
    Há sempre dois lados de cada história.
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