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Língua Afiada

Crédito mal parado, bolha imobiliária, matemática, uma lição

A partir de 1 de Julho de 2018 entram em vigor três novas medidas propostas pelo Banco de Portugal para combater o crédito mal parado.

Serão impostos 3 limites ao crédito:

 

1 - Ao rácio entre o montante do empréstimo e o valor do imóvel dado em garantia (LTV – loan-to-value):

- De 90% para créditos para habitação própria e permanente;

- De 80% para créditos com outras finalidades que não habitação própria e permanente;

- De 100% para créditos para aquisição de imóveis detidos pelas instituições e para contratos de locação financeira imobiliária.

 

2 – De 50%, ao rácio entre o montante da prestação mensal calculada com todos os empréstimos do mutuário e o seu rendimento (DSTI – debt service-to-income), com as seguintes exceções:

- Até 20% do montante total de créditos concedidos por cada instituição abrangidos pela presente medida, em cada ano, pode ser concedido a mutuários com DSTI até 60%;

- Até 5% do montante total de créditos concedidos por cada instituição abrangidos pela presente medida, em cada ano, pode ultrapassar os limites previstos ao DSTI.

 

3 – À maturidade original dos empréstimos:

- De 40 anos nos novos contratos de crédito à habitação e crédito com garantia hipotecária ou equivalente, e convergência gradual para uma maturidade média de 30 anos até final de 2022;

- De 10 anos à maturidade nos novos contratos de crédito ao consumo.

 

Estas medidas aparecem em boa hora certa, depois da preocupação crescente com o aumento dos créditos e com o aumento dos preços dos imóveis, aumento esse que já despertou a atenção do FMI que alertou para o perigo de se estar a criar uma nova bolha imobiliária, sendo necessário colocar alguns limites ao endividamento das famílias.

Há dois pontos sobre os quais não deveria ser necessário legislar, qualquer instituição financeira saberá fazer contas e não precisa de regras para uma boa gestão, não é prudente emprestar um valor igual ou superior ao imóvel, em caso de incumprimento o que acontece ao banco? Fica com um imóvel que vale menos do que o montante em dívida.

 

O mesmo se passa com o rendimento disponível fixo, se uma família tem rendimentos de 1000€ não faz sentido que tenha um empréstimo de 600€/mês, mesmo que existam rendimentos não declarados (infelizmente ainda acontece) ou rendimentos suplementares como prémios e remunerações por horas extra, rendimentos não garantidos e que podem desaparecer, foram os primeiros a ser cortados com a última crise.

 

O crédito mal parado não é apenas culpa dos portugueses quererem viver acima das suas possibilidades, é também dos bancos que incentivaram durante anos e anos o consumo desenfreado, aliás têm estes mais responsabilidade, pois se uma entidade financeira nos diz que conseguimos pagar, se nos apresenta tantas facilidades é normal que o cliente se deixe levar pelas contas desta, supostamente ninguém quer perder dinheiro, só que os bancos não fizeram contas e esqueceram-se de avisar.

Este aumento de consumo, em especial o aumento de compra de casa própria preocupa-me, sei que é uma questão de tempo até que a bolha rebente nas nossas vidas, as pessoas ver-se-ão confrontadas com imóveis de valor inferior ao da dívida, os bancos com mais imóveis que dinheiro e o ciclo da crise repetir-se-á.

 

A solução parece-me fácil, repetir até à exaustação que as pessoas precisam de fazer ou aprender a fazer contas, é tudo uma questão de matemática, se ganho 100 não posso gastar 110, da mesma forma que precisam de aprender que na vida nada é garantido e não é sustentável adiantar todo um futuro na esperança que tudo corra bem e que se vá ganhar muito dinheiro.

 

O Joãozinho tem 4 maças no cesto, na macieira estão mais 4 maçãs por colher, a mãe pergunta-lhe:

- Quantas maçãs tens Joãozinho?

- Tenho 8 mamã.

- Tens 4, só vejo 4 maçãs no cesto.

- Tenho 4 que já colhi, mais 4 que irei colher.

- Então ainda não tens 8.

 

Entretanto o Joãozinho decide subir a macieira para colher as outras 4 maçãs, mas a meio percebe que não chega ao topo, o tronco é demasiado frágil para suportar o seu peso e os braços demasiado pequenos para alcançar as maçãs.

Desce cabisbaixo e diz:

- Afinal só tenho 4 maçãs mamã.

- Sim filho, só tens 4 maçãs. Que te sirva de lição, na vida só podemos fazer contas ao que temos e nunca ao que esperamos ou sonhamos ter.

 

 

4 comentários

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    Psicogata 11.04.2018 16:43

    Recordo-me de em 2007 e 2008 andar a ver apartamentos para comprar e o que as imobiliárias e os amigos nos diziam era surreal, era compra, compra e pede dinheiro extra para o carro, para os móveis, para uma viajem, era pedir, só por pedir, algumas pessoas pediam sem necessitar só pela facilidade.
    Tudo isso me causava imensa confusão, pois tinha bem presente a escalada de juros que tinha existido uns anos antes e que entalou muitas famílias.
    Os bancos facilitaram tanto, mas tanto, foi um descaramento.
    Essa medida que falas irá mudar muita coisa e ainda bem, é preciso que as pessoas entendam que não podem estar constantemente a viver de especulação, na antecipação de rendimentos e proveitos de investimentos não seguros. É preciso gerar dinheiro com capitais próprios e não com empréstimos e financiamentos.
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    Andy Bloig 11.04.2018 18:36

    Entre 1998 e 2007, isso era coisa normal. Se a casa custava 75000 e o banco a avaliava por 80000, só te dava 70000 (lá para 2003-2006, até davam os 100% da avaliação...). Não tinhas possibilidade de dispor dos 5000, o banco aumentava a avaliação da casa para 100000 euros e já te davam 87500, em troca de em vez de pagares em 30 anos, pagavas em 45, para manter a prestação dentro dos valores de esforço mensal.
    Mesmo assim, ainda falta mexer nos créditos pessoais. Há muita gente com percentagens loucas que lhes permitem obter empréstimos para consumo em menos de 2 horas. Pela simples razão que usam muito o cartão de crédito e as financiadoras olham para que não tem falhas de pagamentos... o pior é quando chegam aos 10 créditos simultâneos e algo corre mal. E devia ser obrigatório passar pelo ponto de uma financiadora/banco, verificar se o cliente cumpre as coisas (acontece o mesmo no caso da conta básica dos serviços bancários) e quantos cartões, créditos e pagamentos tem activos. Só que, alguns bancos ainda o fazem (pois tem de ser dada uma autorização para ser feita a consulta ao BdP), agora aquelas financiadoras "relâmpago", raramente, o fazem a quem já teve créditos deles.
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    Psicogata 11.04.2018 18:42

    Nessa altura era um espetáculo, conseguia-se tudo, mesmo que as pessoas não tivessem grandes condições para pagar o banco esticava e tinha que dar.
    Os créditos pessoais até dá dó, já vi pessoas a fazerem créditos para dar telemóveis de 800€ aos filhos com a roupa tão gasta que estava quase transparente, vale tudo para ter o que está na moda e o que os outros têm.
    Penso que o BdP terá tomado uma nova medida contra estes créditos, uma imposição que as lojas só podem fazer uma percentagem das vendas a crédito e que necessitam de ter uma faturação superior a x, agora não me recordo dos valores, mas muitas lojas mais pequenas e até sites online deixarão de poder vender a crédito, isto terá acontecido porque temos lojas que vendem 98% dos produtos a crédito.
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