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Língua Afiada

E se as mulheres andassem nuas?

E se todas as mulheres saíssem à rua como nasceram, desnudadas, sem roupas, sem artifícios, sem esconderem a carne, os ossos, a pele, estariam a aliciar os homens?

Estariam elas a provocar a luxúria no sexo masculino?

 

Segundo o ministro do estado de Karnataka G. Parmeshwara as roupas podem ser a justificação dos abusos, no seguimento dos inúmeros abusos ocorridos na noite da passagem de ano em Bangalore na Índia, as declarações do ministro do estado deixam muito desejar.

“Em eventos como a passagem de ano… há mulheres que são assediadas e maltratadas. Este tipo de coisas realmente acontecem.” “[As jovens] tentaram copiar os ocidentais, não apenas em relação à mentalidade, mas até no vestuário”, criticou Parmeshwara.

 

É lamentável, lastimável que este tipo de declarações sejam proferidas da boca de um ministro seja na Índia ou em qualquer outra parte do mundo.

Podemos pensar que este tipo de comentários e eventos só ocorrem fora do Ocidente mas não é verdade, todos os dias mulheres são maltratadas, assediadas, molestadas simplesmente por serem mulheres e não são raras as ocasiões em que ouvimos justificações semelhantes às do ministro indiano.

Acusarem as mulheres que usam decotes pronunciados, saias curtas, roupas justas e provocantes de quererem chamar a atenção é comum, seguindo-se o comentário arcaico e tacanho do “estava a pedia-las” e outros similares.

 

A culpabilização das mulheres por serem vítimas de violência e assédio sexual é tão estúpido e incoerente como acusar alguém de ser roubado por andar com dinheiro.

 

Não se vá mostrar as notas ou o vizinho do lado poderá sentir-se tentado, não se ande de carro topo de gama não se vá tentar alguém que sempre desejou ter esse carro, não se use o relógio caro não vá alguém achar-lhe piada.

Não se ponha a mulher bonita pois alguém pode molesta-la!

A culpa não é do prevaricador que tem instintos primitivos e criminosos que não controla ou não quer controlar, a culpa é da vítima por estar no local errado à hora errada.

 

Isto acontece porque depois de tantos anos de luta, de tantos direitos e conquistas as mulheres continuam a ser ostracizadas em todo lado, não é só em países e culturas distantes, é no nosso próprio país, no trabalho, muitas vezes em casa, é em todo lado.

É nos detalhes que vê-mos a verdadeira cultura e mentalidade das pessoas, não é nos chavões, nas frases feitas, no bater no peito a apregoar que respeitam as mulheres e os seus direitos, isso é o politicamente correto, o que toda a gente quer mostrar, mas que depois não pratica.

 

Pessoalmente não gosto de ver mulheres (e homens) com roupas demasiado provocantes, não por provocarem, mas porque não acho que seja elegante, claro que cada contexto é um contexto e há exceções, mas se as mulheres querem usa-las estão no seu direito.

Muitas vezes já comentei pejorativamente esta ou aquela roupa, porque acima de tudo aprecio o bom gosto e o bom senso, mas daí a justificar um ataque, um comentário impróprio, um olhar nojento, qualquer tipo de agressão sexual física ou psicológica vai uma longa distância.

 

As mulheres deveriam poder andar como bem entendessem sem serem atacadas, se os homens são como cães ao cio, descontrolados e irracionais, que fiquem ao cadeado ou em jaulas, quem não se sabe comportar em sociedade não deve fazer parte dela.

 

As mulheres deveriam poder andar nuas, se assim o entendessem, sem serem assediadas.

Afinal não são os Homens os seres racionais!?

5 comentários

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    Psicogata 04.01.2017 12:10

    Por ainda culparem as mulheres é que muitas sentem vergonha de terem sido agredidas e violadas e não apresentam queixa, uma forma de estar que só favorece os criminosos, é incrível que situações destas sejam ainda tão frequentes.
    As pessoas não sentem empatia e compaixão, não me acredito que não houve uma única pessoa a colocar o homem no lugar dele !
    Mas depois do programa "E se fosse consigo" já nada me surpreende, as pessoas vivem demasiado para si, depois quando lhes toca a elas queixam-se.
    Há ainda muito trabalho de sensibilização a ser feito neste sentido.
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    Sara 04.01.2017 13:46

    é o caso, não apresentou queixa. ele anda por aí, sabe-se lá a quantas mais já fez o mesmo. vê-lo e não poder fazer nada é das coisas que mais me custa.
    ninguém. olhavam para o homem, mas mantiveram-se quietos e calados.
    ainda te conto outra. uma amiga foi sair. estava com uma roupa mais provocante. um rapaz começou a meter a mão onde não devia, ela a tentar afastá-lo... os amigos viram e pensaram que era uma coisa consensual. ofereceram boleia ao rapaz. depois de tudo, ela ainda teve de levar com ele no carro e com os amigos a comentar.
    há muito trabalho a ser feito em inúmeras áreas. e não sei se ainda iremos assistir a essas mudanças... mas tenho dúvidas.
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    Psicogata 04.01.2017 14:06

    É doloroso ver um criminoso ficar impune, especialmente para a vítima:(
    Bastava alguém o ter mandado calar, que estupidez.
    Ela devia ter contado aos amigos, é para isso que os amigos existem para ajudar em caso de necessidade, mais uma vez a vergonha protege o criminoso.
    Há imenso trabalho a fazer, mas não vejo as entidades a fazer nada :(
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    Sara 04.01.2017 18:43

    sabes quem é que faz alguma coisa? as minorias. organizações LGBT, grupos africanos (nomeadamente, africanas LGBT)... e não o digo por pertencer a uma minoria (o que também é usado como motivo para violar!). é o que constato. qual o problema disto? somos pouco ouvidas. só quem é do meio é que sabe das ações, é que nos ouve. porque quase todas as semanas há grupos que se reúnem para debater isto! mas raramente quem importa se mexe, por muitas manifestações que se façam.
    felizmente, há cada vez mais pessoas alerta para isto e que tentam fazer alguma coisa. mas quantas mais melhor, para que se possa fazer a diferença.
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