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Língua Afiada

Estamos na adolescência social

Hoje, questionava se estaríamos a ficar menos inteligentes?

Ressalvando que não considero ter uma inteligência acima da média, embora às vezes possa dar a entender isso em alguns comentários, sei que existem pessoas com mais capacidades que eu e outras com menos.

 

Posto isto, nos últimos tempos em contexto laboral tenho-me deparado com pessoas que se não têm uma inteligência abaixo da média fazem-me crer que eu sou superdotada. Mas como sei que não sou, tenho de constatar que existem pessoas muito pouco capacitadas neste país e o mais assustador é que algumas trabalham em quadros altos de multinacionais.

Sempre existiram pessoas limitadas e pessoas superdotadas, acho que a diferença é que, atualmente, as pessoas não reconhecem as suas limitações, acham sempre que sabem tudo, são incapazes de ouvir, de perguntar, assumem que são conhecedoras de todos os assuntos e têm opinião sobre tudo.

Consequência: passam a vida a cometer erros para os quais arranjam as desculpas mais esfarrapadas, mas de tal forma elaboradas e proferidas com tamanha eloquência que para os mais desatentos parecem válidas.

 

Antigamente as pessoas escusavam-se de falar de alguns assuntos porque tinham receio que os outros percebessem que não tinham conhecimento de causa, preferiam ouvir, investigar e só depois dar uma opinião, hoje as pessoas empolam-se a falar daquilo que não sabem como se fossem peritos.

Parecemos um grupo de adolescentes cheios de razão a relegar os adultos (todos os outros) para segundo plano porque eles não sabem, não entendem como nós, nós somos o centro do mundo e nós é que sabemos e não há lugar a discussão.

 

Com tantos anos de evolução social afinal estamos agora na adolescência, passamos pela infância onde esperávamos que os adultos, aqui representados pelos peritos em determinada matéria nos explicassem como fazer, para a adolescência onde todos sabem tudo, onde todos acham que têm razão e onde os peritos não têm qualquer perícia porque afinal o Google dá todas as respostas.

Estamos numa espécie de adolescência social, a boa notícia é que existe mais espaço para o diálogo, para o questionamento, para mudanças, a má notícia é que algumas pessoas nunca chegam à idade adulta e algumas sociedades poderão nunca chegar.

 

Uma sociedade adulta seria gerida por valores mais altos, paciência, sapiência, pragmatismo, calma, praticidade, igualdade e justiça e uma vez adulta, a sociedade melhoria com o tempo, porque isto de amadurecer depois de sermos adultos é só vantagens.

Gosto de imaginar que é possível construir uma sociedade onde as pessoas sejam valorizadas pelo que realmente são, onde exista igualdade de oportunidades, onde a única coisa que nos define são as nossas capacidades e não a nossa proveniência, a nossa raça, o nosso sexo, a nossa aparência.

Uma sociedade onde ser seja mais importante do que parecer, onde as imitações e as cópias não sejam possíveis porque não serão aceites.

Onde cada individuo valha por si e não por ser filho de alguém, por ser conhecido daquele ou protegido daqueloutro, onde se tirem cursos por vocação e se exerça por aptidão.

Uma sociedade onde o filho do lixeiro seja Presidente da República, não porque colecionou favores durante a vida, mas porque nasceu com capacidade de governar e inspirar.

Uma sociedade amadurecida, sábia e justa.

Não, isto não é uma utopia, utopia é pedir que de um dia para o outro deixem de existir pobres e ricos, existirão sempre desigualdades a menos que sejamos todos pobres, é pedir igualdade de oportunidades.

 

As grandes questões são:

Interessará essa igualdade a quem tem capacidade de mudar as questões chave para que a sociedade seja mais justa?

 

Quem gere as sociedades alguma vez deixará que se deixe de valorizar a proveniência e as relações das pessoas? Alguma vez colocarão os interesses da sociedade antes dos seus interesses pessoais?

 

Pessoas que acreditam nesta igualdade alguma vez chegarão ao poder?

 

Não, porque esta evolução é um processo lento e demorado, que não interessa a quem tem poder de a iniciar.

 

Infelizmente o mais provável é que nunca venha a existir uma sociedade adulta, sábia e justa.

 

Continuaremos indefinidamente na adolescência social.

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