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Língua Afiada

Não sou uma super mulher

Nunca consigo fazer tudo o que tenho planeado, há sempre um imprevisto, alguma coisa que demora mais tempo que o esperado, é raríssimo o dia em que me deite e pense – conseguiste! Conseguiste fazer tudo o que te tinhas proposto fazer.

Sei que esta sensação se deve em parte à minha mania de achar que posso sempre fazer mais um bocadinho e que consigo fazer tudo, deve-se à minha auto competição que me diz sempre vá lá esforça-te que vais conseguir derrotar o tempo.

Raramente consigo porque o meu cérebro e as minhas capacidades têm limites e por mais que eu gostasse de conseguir fazer algumas coisas de forma mais rápida, simplesmente não é possível, as coisas demoram o seu tempo.

 

Por exemplo, ontem ao preparar o jantar, estávamos os dois fixados na carne que teimava em não grelhar enquanto todos os acompanhamentos já estavam prontos, a mesa posta, a cozinha arrumada, só faltava mesmo a carne terminar de grelhar e estávamos ali esfomeados e a carne sem cozinhar.

 

O meu dia-a-dia é sempre uma correria, saio de casa a correr seja porque me demorei mais a preguiçar, porque decidi mudar a roupa à última da hora, ora sujei a blusa com base ou me borratei com a máscara de pestanas e tenho de recomeçar de novo ou porque não sei das chaves, quando se tem o tempo contado ao segundo é muito fácil atrasar-nos e não, não posso sair de casa sem maquilhagem.

O meu trabalho é imprevisível, é quase impossível de planear porque por mais listas de tarefas, por mais prioridades que tenha, estão sempre a criar-se novas prioridades e o telefone, essa invenção do demo, não para, é uma dor de cabeça constante.

 

Saio do trabalho quase sempre com a cabeça a mil, trânsito, mais um stress diário, falta de civismo por todo lado, uma constante irritação. Depois de mais de 10h fora de casa, considerando que já houve uma altura em que passava 12, sinto-me sortuda, há ainda um sem fim de coisas para fazer antes do descanso, há jantar para preparar, roupas para tratar, casa para arrumar, dia para as compras, dias para exercício, não há um dia em que não tenha algo para fazer antes da hora de jantar.

 

Janta-se, muitas vezes mais tarde do que o esperado, mas o jantar quer-se sem pressas, é momento de relaxar, colocar a conversa em dia, falar de trivialidades, do trabalho, da atualidade, tenta-se que os smartphones fiquem longe para não atrapalharem a conversa.

Arruma-se a cozinha, arruma-se mais uma ou outra coisa, estende-se ou guarda-se roupa, a rotina é diferente todos os dias, mas não deixa de ser rotina, escolhe-se a ementa do dia seguinte e segue-se o banho.

 

Quando chego a esta altura já só quero sentir a água quente a correr pelas costas, vestir algo confortável e sentar-me no sofá, não há paciência para passar os 3 cremes de corpo das pernas, das mamas e dos pés, colocar o sérum, o creme de noite, o creme de olhos, colocar o creme de pentear, o protetor de cabelo, secar o cabelo com o secador e depois passar a prancha e finalizar com um óleo.

É banho, no máximo um óleo no corpo, máscara no cabelo porque caso contrário não o consigo pentear e um ar do secador para que não fique com uma juba.

 

Quando me sento só quero desligar um bocadinho o cérebro, mas ainda há tempo para alinhar alguns detalhes da vida, há sempre coisas a resolver, pequenas decisões a tomar, posto isto é hora de desligar, uns minutos ao final do dia em que desligo da minha vida para preparar o cérebro para dormir, às vezes resulta, outras nem por isso, deito-me com a cabeça a fazer planos de planos.

 

Chega o fim-de-semana, se a semana tiver corrido bem temos tudo encaminhado em casa, é tempo de lazer, estar com a família, com os amigos, mas há sempre alguma coisa a tratar, seja comprar uma prenda de aniversário ou encher o depósito de gasóleo, dar um ar mais composto ao jardim ou escovar as gatas, há sempre coisas a fazer em casa, por isso se não saímos iremos estar presos nessas coisas.

Se tenho alguns momentos de descanso só quero aproveitar para dormir mais uma hora, ler um pouco, desfolhar a revista que está há um mês por ler, organizar os papéis da carteira, fazer a lista do supermercado.

 

Até me considero uma mulher organizada e metódica, mas ao pé de algumas mulheres que conheço sinto-me uma completa desgraça, sempre impecáveis, cabelos sempre esticados, maquilhagem impecável com direito a batom e a eyeliner, unhas sempre pintadas, roupas impecáveis e variadas. Não, não estou a falar de desocupadas, estou a falar de mulheres com 2 e 3 filhos que têm um trabalho como o meu, que são fadas do lar e ainda têm tempo para fazer trabalhos manuais.

 

Estas super mulheres intrigam-me, como conseguem ter sempre tudo pronto e organizado? Será que é algo que vamos adquirindo com o tempo? Haverá algum manual que nos ensine a ser assim?

Estarei a dormir horas a mais?

Terei de organizar o meu tempo de forma diferente?

Estarei a ver a vida da perspetiva errada? Terei de inverter prioridades?

Estará o meu espírito a contrariar esta tendência?

E vocês sentem-se super mulheres?

Ou sentem-se à parte deste mundo onde tudo parece perfeito e fácil?

 

Quando eu for grande quero ser uma super mulher.

(Ou talvez não.)

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