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Língua Afiada

Ninguém conhece ninguém

Se há lição que a vida me tem ensinado é que não conhecemos verdadeiramente ninguém, podemos ter ideia da pessoa, saber quais são os seus valores e princípios e podemos saber se é boa ou má pessoa, mas não podemos afiançar mais do que isso e às vezes nem isso.

As pessoas mudam, crescem, amadurecem, umas tornam-se melhores, outras piores, a idade tende a acentuar os defeitos, mas por vezes dá-nos maturidade suficiente para querermos ser melhores e acentuarmos as virtudes, no fundo tudo depende de nós, todos nós podemos aprender a ser melhores pessoas, mas existem diversos fatores externos que nos mudam, moldam, transformam e nos levam muitas vezes por caminhos que não desejamos.

 

Outra aprendizagem que a vida ensina é que existem muito poucas pessoas genuinamente boas e que essas nem sempre são as que achamos serem, muitas vezes aquela pessoa que é assertiva, direta, frontal e pouco dada a sorrisos e a bajulação é precisamente a pessoa mais bondosa e generosa que encontram.

Até aos 30 anos pensamos que temos tempo para tudo e tendemos a achar que não precisamos de ninguém, somos jovens, fortes e determinados, os problemas são escassos e resolvem-se facilmente, temos vários amigos, vários grupos de colegas, uma vida social preenchida, mas depois a certa altura as diferenças de personalidade, os estilos de vida, as prioridades criam afastamentos, as pessoas não se zangam, simplesmente afastam-se pelas circunstâncias da vida.

Cultivar amizades dá trabalho, implica dar e muitas vezes nem esperar receber, é um ato generoso de amar pessoas a quem queremos bem e que nos fazem bem, mas tal como todas as outras relações não pode ser bilateral, uma amizade é um jogo jogado a dois e há que dar para receber.

 

As pessoas parecem ter-se esquecido do que é a amizade e o seu valor, algumas até da família se esquecem, custa-me a aceitar determinados comportamentos, é-me difícil perceber algumas atitudes e há situações que me deixam profundamente triste e desolada, não é fácil aceitar que não podemos mudar as pessoas, que afinal aquela pessoa não é o que esperávamos e que nunca o será, o caminho é simples é seguir em direções opostas, mas há vazios muito penosos de ocupar, há lugares vagos impossíveis de preencher.

Penso na minha vida e na evolução que ela teve, seria impensável para mim há 15 anos achar que seria assim, nunca pensei encontrar as dificuldades que encontrei, nunca pensei ter que deixar tantas pessoas pelo caminho e nunca imaginei que teria de arrastar outras como um peso morto, que me foram impostas pela lotaria genética.

Às vezes sinto vontade de ir viver para longe, livre, sem obrigações morais e sociais, um corte radical, mas depois penso nas pessoas que não quero deixar para trás e retraio-me.

 

Penso, analiso e chego apenas a uma conclusão, as pessoas estão doentes, adoeceram porque se isolaram, invejam, desdenham, desejam o mal porque não sabem viver de outra forma amarguradas com a vida, deixam-se consumir pelas frustrações e orientam-nas para quem está bem em vez de tentarem perceber o que necessitam de mudar para também elas se sentirem bem.

As pessoas não se conhecem, como pode alguém algum dia as conhecer.

Ninguém conhece ninguém.

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