Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Língua Afiada

O rescaldo da tragédia de Pedrógão Grande

Tentarei que as linhas sejam breves, mas é difícil resumir tudo o que sinto sobre esta tragédia.

 

Os portugueses adoram ver cabeças a rolar, mesmo que isso não sirva de nada.

Querem a demissão da Ministra da Administração Interna, entendo, concordo no ponto em que o ministério falhou na articulação e no apuramento das responsabilidades, mas o que é isso significa realmente? Nada, eu gostava que pedissem com a mesma veemência uma mudança, uma verdadeira mudança na gestão das florestas. Demitir uma Ministra para vir outra ou outro e continuar tudo igual, não resolve nada.

 

Importa mais a identidade de um pseudónimo do que o conteúdo.

Sebastião Pereira parece ser mais procurado que D. Sebastião em dias de nevoeiro, não entendo o porquê da urgência em se saber a verdadeira identidade do jornalista, por algum acaso é o único a culpar o Governo? Não, mas talvez seja o único a além-fronteiras e num meio com tanta expressão.

Tivessem tanta urgência em encontrar culpados talvez existissem menos incêndios em Portugal no próximo verão.

 

Os portugueses são muito unidos, mas só para petições

Foi criada uma petição para colocar os presos a limpar matas, o que eu gostava mesmo era de ver os presos a serem novamente presos por invadirem propriedade privada.

Como se o problema das matas portugueses se resolvesse com trabalhos forçados.

 

Os portugueses são muito solidários, mas só depois das tragédias.

Tivessem metade da união para defender o país da corrupção e da fraude seríamos grandes, fizéssemos valer esta solidariedade e união na política e na justiça e com certeza haveriam muito menos tragédias em Portugal.

 

Os portugueses não aguentam uma piada (um peido)

Se o contexto foi adequado? Não, se é preciso cruxificar o rapaz por isso? Não.

Mas os portugueses são especialistas a passar pessoas de bestas a bestiais e depois novamente a bestas, uma declaração ou uma vitória é o suficiente para ir de um extremo ao outro.

 

Os portugueses gostam é de esmiuçar a dor dos outros

Criticamos Judite de Sousa que teve uma atitude deplorável, mas depois é ver o rol de notícias sobre as tragédias, sobre as famílias, explora-se a vida de quem partiu e explora-se a dor de quem ficou. Esmiúça-se tudo ao ínfimo detalhe, com entrevistas, testemunhos, lágrimas, imagens, expõe-se a dor e volta-se a expor em programas de informação que nada mais informam que o país sofre.

Já o tempo de antena dado aos especialistas, aos verdadeiros especialistas, não aos comentadores de serviço, é inócuo, perde-se no meio da exploração da dor.

Os portugueses gostam de vender e consumir os detalhes mais sórdidos, uma pena que não esmiúcem o que realmente importa.

 

O que fica da tragédia é o mesmo de sempre, somos um povo solidário porque é moda, porque fica bem bater com a mão no peito nas redes sociais, porque eleva o ego e diminui a culpa, o que gostamos mesmo é de saber detalhes mórbidos, de arranjar um culpado para encerrar o assunto e depois seguir contentes e alegres para as férias de verão, sem que tenha sido feito realmente alguma coisa para mudar.

Na próxima tragédia, porque ela acontecerá se nada mudar, voltaremos a erguer as mãos para o céu, a comover-nos com as imagens, a ajudar com o que conseguirmos, mas os culpados continuarão impunes, a floresta continuará à mercê do dinheiro e a gestão do país na mesma miséria contínua.

Somos todos culpados, mas custa admitir que este país é assim porque deixamos, porque preferimos gastar o nosso tempo com coisas que não nos tiram o sono, porque preferimos consolar-nos nas frases comuns “os políticos são todos iguais”, “não há alternativas”, “ é o país que temos”.

 

Esquecem-se que o país somos nós e somos nós que o fazemos.

Portugal é nosso, mas os portugueses esqueceram disso, a última vez que reclamaram esse direito foi em 1974, tenho pena que se tenha restaurado a democracia só para a deixar cair na hipocrisia.

 

8 comentários

  • Imagem de perfil

    Psicogata 29.06.2017 10:14

    Não pediram desculpas, nem pedirão, como raramente pedem.
    Em Portugal é normal as culpas morrerem solteiras, é o jogo do empurra, desviam as atenções para o que não interessa.
    Esqueci-me de comentar a atitude de Passos Coelho, mas já eram tantos pontos.
  • Imagem de perfil

    Andy Bloig 29.06.2017 10:31

    É giro é compararem o que se passou a Entre-os-Rios e quererem apagar os milhares de incêndios florestais que acontecem por todo o país, todos os anos. Este ceifou uma quantidade de vidas muito alta mas, já morreram muitas pessoas em fogos florestais, como foram poucas em cada, foram acidentes.
    A maioria das vezes a culpa não morre solteira... não é é a culpa que a sociedade acha que devia ser, pois tudo é previsível e depois do mal acontecer, toda a gente já sabia e já tinha apresentado soluções.

    Do Passos nem o culpo a ele... só acho muito engraçado vários "especialistas e comentadores" reclamarem a demissão da ministra e nem piarem sobre quem lançou o boato que o Passos comentou. Esse é que em vez de andar a justificar-se e chamar BURROS a quem ouviu, devia chegar-se para o lado, pois é presidente da Misericórdia de Pedrogão e já foi presidente da câmara durante 16 anos, sendo candidato nas próximas eleições.
  • Imagem de perfil

    Psicogata 29.06.2017 10:49

    Eu também acho que um caso não tem nada a ver com o outro, há incêndios todos os anos, este infelizmente teve mais vítimas, mas era uma questão de tempo até acontecer uma tragédia destas. Se é para responsabilizar tem de se responsabilizar todos os anteriores ministros.

    Também acho, ninguém questiona de onde veio a informação? Claro que não, estão mais interessados em descobrir o Sebastião.
    Dualidade de critérios, parece uma caça às bruxas.
  • Imagem de perfil

    Andy Bloig 29.06.2017 13:17

    É que se compara algo que podia ser evitado, se tivesse existido manutenção, com algo que a principal culpa foi mesmo a falta de conhecimento das pessoas. Se é para comparar, aquilo que se passou naquelas estradas (só se fala de 1 mas, existiram mortos em 4 estradas/caminhos, próximos mas, diferentes) é a mesma coisa que um incêndio num prédio... toda a gente vai para os elevadores, mesmo sabendo que devem fugir pelas escadas.

    O problema do Sebastião é que é alguém que se apresentou como representante dos portugueses, usando coisas das redes sociais e uma visão muito distorcida daquilo que é notícia por cá. Não sei se é verdade mas, existe um site online onde um, suposto, jornalista também publicava notícias daquele género e parou de o fazer, quando "começou a caça ao Sebastião". Pode ser coincidência mas, não acredito nelas. Infelizmente, o "sebastião" é mais um exemplo do que NÃO é jornalismo mas, uma forma de fazer dinheiro.
    Sendo interessante que se pede a cabeça da ministra (e do governo) e se desculpe alguém que é o ponto de contacto entre a população e os superiores, por andar a espalhar boatos horríveis que atinge aqueles que devia proteger. Se é para existir igualdade, aquele era o primeiro a saltar fora. Se andou a espalhar boatos para benefício próprio, foi apanhado, devia ser o primeiro a assumir que não cumpriu aquilo que é o cargo que tem, muito menos ter capacidade para dirigir uma autarquia... não precisa de comissões de 6000 pessoas mais 200 empresas de consultadoria para analisar o caso.
  • Imagem de perfil

    Psicogata 29.06.2017 14:03

    Acho que o pior de tudo é que se aproveite para fazer política, é só para o que serve, nada mais.
    Não se apura responsabilidades efectivas, pedem-se cabeças, esquecem-se que no lugar dessas nascerão outras e o problema permanece.
    Resumindo, bem resumido é o que esta a acontecer, um jogo político.
  • Imagem de perfil

    Andy Bloig 29.06.2017 14:45

    É por isso que as coisas ficam na mesma e se aparecer alguém a querer mudar, vai encontrar presidentes de juntas ou câmaras ou a assembleia municipal, a protestar que precisa de mais 100 milhões para cumprir isso, pois os 14 BMW que compraram no ano anterior não permitem ir para a floresta ou que as autarquias não tem ninguém que possa tratar do ordenamento florestal, pois os milhões que gastam a actualizar o PDM, é pago a consultoras que apresentam relatórios.
    Tudo é política para encher bolsos e no fim quem se lixa é o mexilhão.
  • Imagem de perfil

    Psicogata 29.06.2017 14:49

    O problema é sempre o mesmo, a corrupção, o dinheiro não é gasto onde é devido, ninguém quer saber e continuamos a ter uma gestão desastrosa.
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.