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Língua Afiada

Fragmentos #3 - Desencontrados - Os dias de Joana (Cap. I)

Joana sentia-se cansada, exausta, o dia tinha sido preenchido e agradável, um encontro de amigos que já não via há mais de um ano é sempre motivo de alegria.

Um dia de brincadeira, sorrisos, muita comida e como seria de esperar muita conversa, amigas de longa data têm sempre muito a contar depois de um ano sem se verem, as conversas retomaram exatamente onde tinham parado, deram-se as novidades, riram-se das vitórias, choraram as derrotas e foi como se o tempo tivesse parado e agora estivessem ali só elas a serem novamente adolescentes, a única coisa que as chamava para a realidade eram os miúdos e os maridos.

 

A certa altura dizia Isabel em ponto de conversa diz:

- Não é que sejamos velhas, mas o corpo já não é o que era, é muito difícil recuperar a forma.

Joana naquele momento sentiu a dor de todas as imperfeições do seu corpo, ela que sempre se orgulhara da sua figura, sentiu-se frustrada por ter desistido de cuidar de si, tentou lembrar-se da última vez que tinha passado creme hidrante no corpo, não conseguia recordar-se.

O dia passado ao redor da mesa, daquela mesa onde tantas conversas se tinham dado rendeu tanto quanto passou a voar, nunca há tempo suficiente para contar tudo, fica sempre tanto para dizer, tanto a perguntar.

 

Na despedida os mesmos votos de sempre.

Isabel – Temos de combinar estes encontros com mais frequência.

Soraia – Dias tão bons como estes não podem ser só uma vez por ano.

Filomena – Sim, temos de nos encontrar mais vezes.

Mas Joana sabia que só ela e Isabel fariam o esforço, não fossem elas estes encontros nunca aconteceriam.

No caminho para casa começou lentamente a perder a alegria, à medida que avança na estrada recordava-se do caminho no sentido oposto e da discussão monumental que tinha tido com o marido, o seu cérebro oscilava entre a discussão e o resto do dia e não conseguia distinguir qual era a realidade em que vivia pois os dois momentos não pareciam fazer parte da mesma vida.

Já em casa tentou abster-se dos seus pensamentos, embora soubesse que só o conseguiria fazer até à hora de dormir, nesse momento não haveria subterfúgio que a pudesse ajudar, iria dissecar toda a conversa e iria martirizar-se com ela.

Ao deitar-se nem o cansaço ou o sono conseguiram evitar que isso acontecesse, lá estava a conversa, a dor da desilusão, a tristeza do vazio, aquela frase a martelar-lhe a cabeça.

 

“Não sei o que estamos a fazer juntos.”

 

Não era primeira vez que ouvia isto, mas quem é que ela estava a tentar enganar, também ela não era inocente, também ela tinha proferido frases semelhantes no calor de uma discussão.

E era o tempo da balança, pesava os pós e os contras, as alegrias e as tristezas, os momentos bons e os momentos maus, a balança era sempre positiva, mas naquela noite estava estranhamente mais equilibrada e isso deixava-a profundamente triste.

E a frase não lhe saía da cabeça, não era o tom, não era a frase em si, não era o momento em que tinha sido dito, era a dualidade, vistas assim as coisas tudo parecia mentira.

Quando chegaram ao encontro Joana usava óculos escuros que lhe tapavam os olhos ainda marejados e ostentava um sorriso postiço que encobria a sua tristeza, as lágrimas secaram e o sorriso foi ficando cada vez mais genuíno, mas no final do dia lá estava novamente a pedra no sapato a incomodar, a ferir.

Não conseguia conceber como é que num só dia se podia sentir miserável e fantástica num espaço de minutos. Adormeceu.

No dia seguinte, acordou e só os papos nos olhos, que disfarçou minuciosamente com maquilhagem, denunciavam o dilema da noite passada, de volta à rotina não teve tempo para pensar na vida, os dias são tão cheios e tão agitados que se consumem à velocidade da luz e era mais um desses dias.

De tarefa em tarefa o dia foi passando, e nessa mesma noite a ideia da discussão já era vaga, e no dia seguinte era apenas uma memória má, mas algo não estava bem, ela sabia-o no fundo do seu íntimo mas fazia um esforço para esconder, para se esquecer.

Não era culpa dele, não era culpa dela, era culpa da vida que os empurrava inevitavelmente para a frente, sem tempo para pensar, analisar, ponderar, era um dia de cada vez, uns sabiam a vitória, outros sabiam a derrota, uns eram ganhos, outros eram perdidos, uns eram bons, outros eram maus, no fim de contas eram dias normais, de uma vida normal.

E era dessa normalidade que Joana não gostava, desse morno confortável que sabia a pouco, dessa vida rotineira e enxabida que teimava em levar sem saber como quebrar o ciclo, deixando-se ir no vagar da correria dos dias.

6 comentários

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    Psicogata 21.06.2016 09:16

    Obrigada :)
    É uma ficção que acredito esteja próxima da verdade de muita gente.
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    Sofia 21.06.2016 09:17

    Muito real mesmo!
    Tu és um espectáculo a escrever.
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    Psicogata 21.06.2016 09:21

    Oh sou nada! Dou uns toques :)
    Até reparei que falta ali uma palavra Vou corrigir eheheheh
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    Sofia 21.06.2016 09:25

    Eu não tenho nenhum jeito para escrever, por isso deixa-me elogiar-te sim?!
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    Psicogata 21.06.2016 09:47

    Eu deixo Sofi :)
    Tu elogia quanto quiseres que eu gosto :)
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