Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Língua Afiada

Os meus filhos são mais inteligentes que os teus

Não gosto de começar textos com expressões como: no meu tempo, na minha altura, antigamente… não gosto, para além de me sentir uma idosa a fazê-lo, sinto-me como o velho do Restelo a resistir à mudança, só que há mudanças e mudanças.

 

No meu tempo, não é assim há muito tempo, as crianças tinham apenas um papel na escola – aprender – isso significava respeitar os professores, estudar e ter aproveitamento escolar e de preferência com boas notas, tirar más notas estava fora de questão, não era equacionável, tínhamos apenas uma responsabilidade sermos bons estudantes.

Não sei precisar quando se começou a premiar notas positivas, mas comecei a aperceber-me que os pais começaram a recompensar os filhos por terem aproveitamento escolar, sou a favor do reforço positivo, mas deve-se recompensar algo que é regra?

 

Premiar uma criança por tirar uma nota positiva não é o mesmo que premiar uma criança por dizer bom dia e boa noite?

Recompensar por algo que é expectável não é o mesmo que ensinar que quaisquer coisas que se façam bem serão alvo de recompensa?

 

Como se não bastassem estas recompensas, escolas e professores criaram outras formas de recompensa e valorização, diplomas e quadros de mérito e excelência, tudo serve para que as crianças se sintam motivas a tirar boas notas, mais uma vez, o que é que se espera de uma criança? Que se esforce e tire boas notas, sem que para isso figure num quadro ou obtenha um diploma, mas parece que há uma necessidade recorrente de mostrar o valor das crianças.

 

A pergunta é que se coloca é a seguinte:

Precisarão as crianças destes estímulos ou serão os pais que necessitam deles para se envolverem na vida escolar dos filhos?

 

No final do ano letivo de 2015/2016 foi um desfile de pautas nas redes sociais, pais e, maioritariamente, mães exibiram orgulhosos as notas dos filhos e divulgaram ao mundo o orgulho desmedido pela conclusão de mais uma etapa dos filhos, fosse ela apenas concluir o infantário. Agora, no fim do primeiro período do ano letivo 2016/2017, mostram-se testes e avaliações, tudo para enaltecer a suprema inteligência da prole.

 

É normal os pais sentirem orgulho com os feitos dos filhos, é sempre um deleite partilhar com eles as suas conquistas por mais pequenas que sejam, mas será normal e saudável os adultos gabarem-se e concorrerem entre si pelas conquistas dos filhos?

 

Não é, é absurdo e ridículo, em frações de segundos os pais passam a ser as crianças que discutem quem é que tem o filho mais inteligente, o mais calmo, o mais bem comportado, chegam ao cúmulo de debater a saúde dos filhos.

 

A lição que passa é que tudo é uma questão de competição, mas para além disso não basta que sejam os melhores é preciso mostrar ao mundo que são os melhores, enquanto se fomenta a competitividade, fomenta-se o stress, a ansiedade e a frustração, sentimentos com os quais nenhuma criança deveria lidar, as crianças naturalmente querem agradar os pais, não é preciso que os pais lhes coloquem fasquias ainda mais altas para lhes causarem mais stress.

 

Paralelamente há o alimentar do ego aos que conseguem o mérito e a excelência, a formatação da criança para ser especial, quando ela é apenas mais uma no meio de tantas crianças especiais, não são todas especiais cada uma à sua maneira?

Como se sentirá essa criança quando na vida adulta, ou ainda na adolescência, descobrir que afinal não é assim tão especial?

 

Tenham juízo, ter aproveitamento escolar é o que se espera de uma criança, mesmo que estes tirem boas notas a tudo, antes de acharem que têm um superdotado em casa passem pelo Facebook dos pais dos colegas de turma dos vossos filhos se calhar perceberão que os deles tiraram as mesmas notas, afinal é para isso que eles estão na escola horas intermináveis e depois ainda passam outras tantas em centros de estudos, a vida deles é estudar, às vezes até demais, é normal que tirem boas notas.

 

Gabem-se da felicidade dos vossos filhos e não das suas notas, afinal o que é mais importante na vida de uma criança é que ela seja imensamente feliz.

5 comentários

  • Imagem de perfil

    Psicogata 13.12.2016 12:05

    Obrigada

    Eu acho que existiu evolução em muita coisa, mas a Humanidade continua igual a si mesma, egoísta, egocêntrica e vaidosa.
    Estas comparações e competições só servem para causar desconforto a pais e a filhos, um stress que poderia ser evitado.
    Não tenho nada contra a que publiquem fotos dos filhos, cada um define a privacidade como bem entende e eu vou acompanhando os filhos de amigos mais distantes assim, mas gabarem-se dos feitos dos filhos é estúpido.
    Tenho uma amiga que está constantemente a gabar-se da filha, é irritante, especialmente porque quando se está com a miúda ela é mal-educada e convencida, porque será?

    Eu concordo com reforços positivos, mas premiar não ter negativas é demais, é suposto não se ter negativas, especialmente na primária.
  • Imagem de perfil

    Heidiland 13.12.2016 12:13

    Eu também vou acompanhado o crescimento dos filhos dos meus amigos pelo Facebook, mas há limites sobre o que se deve ou não partilhar. As pessoas parecem que desconhecem os perigos aos exporem demasiado as suas vidas e dos seus filhos online.
    Infelizmente tenho um caso similar na família, a miúda com cinco anos disse ao pai o seguinte: "Pai, diz às outras pessoas que não precisam de dizer que eu sou bonita, porque eu já o sei". O mais inacreditável é o pai contar isto como se fosse uma coisa espetacular.
    As pessoas não conhecem o meio termo: ou castigam os filhos pelas negativas ou premiam as crianças para não terem negativas. Eu gosto de observar o que os outros fazem de errado para eu não cometer os mesmos erros
  • Imagem de perfil

    Psicogata 13.12.2016 12:26

    Há pessoas que abusam, especialmente porque há muita gente que não define as definições de privacidade em condições.
    A criança com cinco anos já está convencida que é bonita de tal forma que já se farta de ouvir elogios, sinceramente o que acho pior é que o pai contar isso como algo espectacular.
    Também eu gosto de observar e conversar para aprender, se tenho excelentes exemplos, tenho outros péssimos, é aprender com ambos :)
  • Imagem de perfil

    Heidiland 13.12.2016 12:42

    Aprender com os erros e inspirarmo-nos com os sucessos. Felizmente tenho muito bons exemplos de crianças bem educadas, queridas e muito sensíveis com o próximo. No entanto fico sempre com o pé atrás com estes "paizinhos". Já em miúda não gostava deles e agora em adulta não os suporto. Colocam uma pressão desmesurada nos filhos ou então enaltecem a criança ao ponto de a tornar insuportável. Parece que é complicado entender que ninguém é melhor do que ninguém.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.