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Língua Afiada

Os portugueses e o dinheiro dos outros

Em Portugal há um estigma que paira sobre os ricos e afortunados, quem tem dinheiro, nem precisa ser muito, basta ser mais do que a pessoa que o está a criticar é sempre mal visto, ou porque tem pais ricos, ou porque teve sorte, ou porque é saudável, ou porque não teve nenhum percalço na vida, mérito e esforço raramente são associados ao sucesso e à fortuna.

Em casos de grande sucesso inventam-se até causas maldosas para o aparecimento do dinheiro, pode ser contrabando, roubo, fraude, exploração, é tudo uma questão de imaginação. Não sou ingénua ao ponto de pensar que estes casos não existem, existem claro e conheço alguns, mas nem todos os ricos enriquecem ilicitamente e conheço vários casos que enriqueceram graças ao sentido de oportunidade, esforço e inteligência.

 

Irrita-me profundamente este estigma e irrita-me ainda mais que se olhe para quem tem mais do que nós com inveja e desprezo, como se a pessoa tivesse feito algo de mal, isto piora substancialmente quando não há um historial que justifique o sucesso.

Quando existem cunhas, favores, heranças, as pessoas toleram, mas quando se sobe a pulso e se ganha mais do que a média não se é tolerado, existe sempre uma espécie de desdém de quem olha e vê um exemplo de uma pessoa que tinha tudo para levar uma vida banal, mas de que alguma forma consegue brilhar.

Odeio este pensamento mesquinho e tacanho dos portugueses, pessoalmente adoro estar rodeada de pessoas bem-sucedidas, não é por pessoas ricas monetariamente, mas por pessoas que souberam enriquecer em ideias, que conseguiram ir mais além do esperado, pessoas que sobressaem ou pela inteligência ou pelo trabalho árduo, admiro muito quem com pouca formação e com pouco apoio conseguiu alcançar o sucesso.

 

Este pensamento pequeno não afeta só as pessoas de sucesso, afeta todas as pessoas, na medida que qualquer pessoa que esteja ou pareça estar melhor na vida do que o típico pobre português é alvo de escrutínio e crítica.

Não é preciso estar-se bem de vida, ganhar-se muito bem, basta que se tenham prioridades e gastos diferentes, porque as pessoas nunca avaliam as diferenças, avaliam apenas o que ostros têm ou fazem que eles não têm ou não fazem.

Pessoalmente já tive alguns dissabores com estas comparações ridículas, das nossas relações somos dos casais que mais viajam, eu acho que viajamos pouco, conheço quem viaje muito mais, mas para pessoas que raramente saem de Portugal e que só costumam fazer férias uma vez por ano, nós parecemos muito viajados e ricos, já que associam o viajar a ter dinheiro.

Não fazem eles ideia que às vezes gastamos menos do que eles nas férias, porque pode-se visitar um país por 500€ ou por 1000€ tudo depende de quando se compra, como se compra e o que se compra.

 

Não pagamos casa (ainda) e por isso assumem que temos mais rendimento disponível e que o gastamos, se é verdade que temos mais rendimento disponível, também é verdade que não o gastamos, porque fazemos de conta que não o temos, porque sabemos que um dia o dinheiro que não nos sai da conta para a prestação de uma casa, será o bolo para uma casa.

Por isso reviro os olhos sempre que alguém me diz – Ah vocês viajam porque não pagam casa!

Ninguém assume que viajamos porque poupamos para viajar ou porque nos esforçamos a trabalhar, a desculpa é sempre porque temos menos despesas do que eles ou porque temos a sorte de ganhar mais, mesmo que ninguém saiba quanto ganhamos e quais são as nossas despesas.

 

O que essas pessoas não sabem é que poupamos muito mais do que a maioria pelo simples facto de não fazermos ideia de quanto iremos necessitar para uma casa, quem tem um crédito, sabe quanto lhe sai ao final do mês da conta, embora haja flutuação nas taxas de juro, há um valor base e há um valor a pagar e podem organizar a sua vida em função desses valores.

Quando não se faz ideia do valor tende-se a juntar o mais possível, pois tudo o que se junta pode ser importante no futuro, odeio pensar em dívidas e juros, nunca compramos nada a crédito e só essa ideia dá-nos arrepios aos dois, por isso poupamos, muito.

Poupamos por opção e por hábito, não valorizamos bens materiais, não nos deslumbramos com marcas, não valorizamos automóveis, apesar de ambos gostarmos de tecnologia só investimos em gadgets quando necessário e são sempre compras altamente ponderadas, as únicas coisas em que abrimos os cordões à bolsa é na alimentação e em experiências, especialmente as que envolvem viajar.

 

Gosto da nossa vida, temos um bom equilíbrio entre o que ganhamos e gastamos e como o gastamos, mas essas opções, essas prioridades parecem agastar muitas pessoas, não chega a ser inveja, porque a maioria dessas pessoas querem-nos bem, é uma espécie de irritação que têm, que sinceramente não consigo entender, pois o que os outros ganham ou gastam a mim não me afeta rigorosamente em nada.

Tomara eu estar rodeada de ricos, todos eles bem-sucedidos, além de saber que nunca precisaria de socorrer nenhum familiar ou amigo financeiramente, não teria ainda de levar com as suas irritações.

A maioria dos portugueses não poupa, não sabe onde gasta o dinheiro, não faz uma boa gestão financeira, mas adora gerir o dinheiro dos outros, mesmo que não saiba quanto é, o dinheiro dos outros é sempre mais, estica, só o deles é que não.

 

Getto & GastamWikipedia: Getto & Gastam or alternatively Getto y Gastam are a rap/reggaeton duo made up of Getto from Río Piedras and Gastam from Ponce, Puerto Rico respectively. The duo is signed to Buddha's Productions and have been involve in the infamous clash with Pina Records.

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