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Língua Afiada

Os portugueses não querem trabalhar?

Ferraz da Costa. “As pessoas não querem trabalhar, as empresas não conseguem contratar” no jornal i.

Mão-de-obra é a maior ameaça à hotelaria” salário médio na Hotelaria é superior aos mil euros” declarações no âmbito do 2.º Business Breakfast da Publituris Hotelaria

 

Não fosse a gravidade da situação e estaria a chorar de tanto gargalhar.

 

Multiplicam-se as notícias sobre a alegada falta de mão-de-obra em Portugal à mesma velocidade que se multiplicam os comentários pejorativos a quem se recusa a trabalhar.

Neste jardim à beira-mar plantado critica-se tudo e todos, faça-se o que se faça, se nos sujeitamos a trabalhar por umas migalhas estamos a contribuir para a precaridade do trabalho, se decidimos ficar em casa somos subsídio-dependentes mesmo quando não recebemos subsídio nenhum.

 

atividades e serviços realizados fora da legislação laboral explicam como é que sobrevivem milhares de pessoas que não trabalham

Infelizmente parecem existir cada vez mais pessoas alheadas da realidade, há um grande estigma social contra os particulares que recebem subsídios do Estado, todos sabemos que há uma franja da sociedade que não faz nada para deixar de depender de subsídios, mas engane-se quem pensa que são todos uns malandros que não querem trabalhar, se há os pobres de espírito que não têm cabeça, ambição e discernimento para singrarem na vida, há também os chico-espertos que recebem subsídios porque simplesmente trabalham à margem da lei e são várias as atividades que permitem fazê-lo, algumas altamente lucrativas, amas, picheleiros, eletricistas, trolhas, prestação de cuidados a idosos, explicações, limpeza de casas, gestão de condomínios, restauração só para citar algumas. A estas acrescem ainda os serviços de design, informática, contabilidade, solicitadoria, engenharia, entre outros, assim como a agricultura, artesanato e compra e venda, atividades realizadas por baixo do pano faturadas a 1/3 do valor real ou simplesmente não faturadas.

 

Estas atividades e serviços realizados fora da legislação laboral explicam como é que sobrevivem milhares de pessoas que não trabalham e justificam a recusa de alguns trabalhos, porque aceitar um trabalho de oito horas semanais pelo ordenado mínimo não é rentável na maioria dos casos, pois se lhe retirarmos os custos de transporte e alimentação, o subsídio de alimentação é quase sempre insuficiente para pagar as despesas, o que sobra é uma miséria, pensando-se a disponibilidade, os custos e os ganhos e a balança pende para permanecer em casa e viver de “biscates” que muitas vezes apuradas as contas são mais rentáveis que um emprego.

 

não há empregos para quem tem mais de 35 anos

 

Conheço vários casos de mulheres que optam por ficar em casa após serem mães, não é porque não gostam de trabalhar, mas porque simplesmente o que ganham retirando o valor dos transportes, alimentação, creches e ATL não justifica que trabalhem, acabando por abdicar da sua carreira para efetivamente pouparem no orçamento familiar.

Tenho conhecimento ainda de vários casos de pessoas que só não se despedem porque se o fizerem não têm direito a nenhuma compensação, pois estão fartas de serem exploradas, gostavam de arriscar algo novo, mas quando passam os olhos nos anúncios de emprego sentem um arrepio na espinha, não há empregos para quem tem mais de 35 anos, pedem recém-licenciados com experiência, disponibilidade total, viatura própria, três ou mais línguas, pedem mesmo estagiários sem remuneração, um ou dois meses à experiência, sem rendimento, já li e ouvi propostas que julguei serem impensáveis, como devolver a parte paga do estágio ao abrigo do IEFP à entidade empregadora.

 

olhamos de lado quem nos rouba umas migalhas por receber um subsídio para o qual descontou, mas aplaudimos quem rouba milhões da União Europeia

Empresas que exigem horas extras não remuneradas e que descontam um atraso de 2 minutos, que não admitem pessoas sindicalizadas, que fazem assédio emocional aos funcionários, chantagem e pressão psicológica são mais que muitas, aliás raro é ouvirmos relatos de empregos fantásticos com ordenados condignos.

São essas as mesmas empresas que recebem subsídios chorudos que desaparecem magicamente, curiosamente não vejo ninguém insurgir-se contra as empresas subsídio-dependentes que em vez de criarem emprego e investirem em tecnologia surripiam os fundos para casas luxuosas e carros de alta cilindrada, mas esses são espertos, sabem dar a volta ao sistema.

 

Esta mentalidade nunca levará Portugal a bom porto, olhamos de lado quem nos rouba umas migalhas por receber um subsídio para o qual descontou, mas aplaudimos quem rouba milhões da União Europeia, essa instituição de caridade para oportunistas, já se sabe se é para roubar que se roube em grande.

desengane-se quem pensa que exportamos apenas licenciados, na construção civil estima-se que tenham emigrado mais de 200 mil trabalhadores,

 

Com esta realidade querem mesmo que existam trabalhadores dispostos a serem explorados? A crise aguçou o engenho, floresceu toda uma economia paralela ao mesmo tempo que exportamos mão-de-obra qualificada para outros países europeus, desengane-se quem pensa que exportamos apenas licenciados, na construção civil estima-se que tenham emigrado mais de 200 mil trabalhadores, agora segundo o Sindicato da Construção Civil de Portugal estão a angariar reformados para fazer face à procura.

É claro que com esta conjetura as pessoas não aceitam trabalhar pelo ordenado mínimo e muito menos regressam de um país onde ganham três, quatro, cinco vezes mais do que ganham em Portugal.

 

Foram-se aguentando os funcionários públicos, a classe média-alta e alta e as pessoas que têm empregos estáveis, que mesmo não tendo ordenados em condignos vão ficando pela família, pelos amigos, pela casa, pelas raízes, pela segurança, pelo sol, pelo amor, pelo receio, pela idade, são vários fatores que os vão fazendo ficar, mesmo sabendo que teriam mais sorte lá fora.

 

é preciso que o topo acompanhe a base e crie condições para captar e reter mão-de-obra,

Estamos perante um problema gravíssimo a oferta não se adequa à procura, a economia paralela aumenta, é um ciclo vicioso, o primeiro passo já foi dado, a recusa de trabalhar para comer, agora é preciso que o topo acompanhe a base e crie condições para captar e reter mão-de-obra, isso implica um tipo de gestão e orientação que os portugueses os patrões portugueses não têm.

Estamos em fase de crescimento, adivinham-se tempos prósperos, mas não conseguiremos crescer acima da média europeia e consolidar empresas e empregos se a estratégia não mudar. É preciso criar mais empregos e melhores, permitir a progressão nas carreiras e nas empresas, acabar com as discrepâncias entre a base e o topo e acima de tudo fiscalizar a aplicação dos fundos de desenvolvimento europeus.

 

Enquanto cidadãos precisamos abandonar a economia paralela, exigir faturas, não recorrer a serviços não faturados seja de que ordem for, tem de ser um trabalho, um esforço conjunto para surtir efeito, devemos ser exigentes e críticos em todas as situações, com o cidadão, mas também com as empresas, sem esquecer os governantes, é deles que deve vir o exemplo.

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