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Língua Afiada

Os portugueses não têm dinheiro para ter uma vida digna

Escrevi um texto sobre a falta de dinheiro dos portugueses em Janeiro de 2006, após ler uma notícia que referia que “Um casal de 40 anos com dois filhos um de 14 e outro de 10 necessita de 766 euros mensais para ter uma “alimentação digna”.

Este valor é assustadoramente alto para os ordenados que se praticam em Portugal, tendo em conta os restantes encargos de um casal, grande parte dos portugueses não tem dinheiro para ter filhos.

 

Ontem, após ler várias notícias sobre as conclusões do estudo "Rendimento Adequado em Portugal - quanto é necessário para uma pessoa viver com dignidade em Portugal", recordei de imediato esta problemática.

Segundo o estudo, o rendimento mínimo adequado para indivíduo em idade ativa é de 783 euros líquidos, o que significa que um indivíduo que aufere o salário mínimo recebe apenas 74% do que necessita para ter um padrão de vida digno.

Para um casal em idade ativa com um filho de 12 anos, o valor de referência para o rendimento mensal adequado é de 1796 euros. Se ambos auferirem o salário mínimo, mais benefícios em espécie, o seu rendimento mensal é de apenas 67% do rendimento adequado. Percentagem que fica em 60% no caso do valor mínimo do subsídio de desemprego e em apenas 33% no caso do rendimento social de inserção.

 

Para definir o padrão de vida digno, o estudo partiu da construção de orçamentos de referência para cada tipo de família em concelhos não atípicos de Portugal, no cálculo foram incluídos custos com habitação, alimentação e vestuário, tudo o que é necessário para um cidadão ter saúde, segurança, relacionar-se com os outros e sentir-se respeitado e integrado na sociedade.

 

A conclusão mais preocupante do estudo é que de uma forma geral o valor calculado pelas estatísticas oficiais de Portugal para o limiar da pobreza “está bastante abaixo daquilo que foi estimado como rendimento adequado para os diferentes casos apresentados" segundo o apurado no estudo.

O relatório "sugere um desajustamento das escalas de equivalência utilizadas na observação da pobreza, distorcendo o perfil da população em situação de pobreza e subestimando em particular o cálculo da pobreza infantil em Portugal".

 

Resumindo, segundo o estudo tudo estará mal calculado, o ordenado mínimo e consequentemente o subsídio de desemprego, as reformas mínimas e as prestações sociais.

 

Ao longo dos anos tenho percebido que tenho perdido poder de compra, e como eu várias pessoas, a classe média está a diminuir vertiginosamente, pois não existiu um aumento de ordenados proporcional ao aumento do custo de vida.

A propósito das discrepâncias entre os ordenados dos gestores de topo e a média dos ordenados dos colaboradores, fiz uma reflexão que me levou à mesma conclusão, a classe média é muito pequena em Portugal.

 

Um indivíduo para levar uma vida digna tem de auferir um ordenado líquido de 783 euros, o que se traduz num ordenado bruto de mais ou menos 1070 euros, que é só praticamente o dobro do ordenado mínimo.

 

Mas afinal o que é a classe média?

 

Em Portugal, ninguém parece saber, basta recuar até Setembro de 2016 quando no parlamento cada partido apresentou uma definição diferente a propósito do novo imposto sobre o património imobiliário.

 

Na altura o deputado socialista Eurico Brilhante Dias definiu o conceito abstrato de classe média ao jornal Observador como: “É aquele que ganha 800 euros, tem despesas com habitação própria, com educação dos filhos, com transportes, recorre ao Serviço Nacional de Saúde, vive essencialmente do trabalho e dos rendimentos do trabalho. Até onde iria não definiu.

 

Qual o motivo para definirem a classe média a partir de um ordenado tão baixo? A resposta é simples, quanto mais baixa a fasquia para considerar um rendimento de classe média, mais fácil é imputar-lhe impostos mais altos.

A média de ordenados em Portugal rondará os 800 euros brutos, o que dá qualquer coisa como 638,43 euros líquidos dependendo do número de titulares e dependentes.

Agora, alguém que me explique como é que se considera que uma pessoa que ganhe 800 euros brutos pertence à classe média quando:

 

O valor para ter uma vida digna é de 783 euros por pessoa?

O valor que uma família de 4 pessoas necessita para alimentação é de 766 euros?

 

O país está crescer, a dívida pública a diminuir, as contas do Estado, dizem, estão a equilibrar-se.

Mas ainda alguém acredita que a classe política saiba fazer contas?

 

O país está cada vez mais pobre, porque o país somos nós, poderia pedir-vos para olharem à vossa volta e verem quantas pessoas conhecem que ganham 1070 euros brutos, mas não é necessário, se a média é de 800 euros está a vista que há muito mais pessoas a viverem no limiar da pobreza do que se poderia imaginar.

 

As pessoas têm noção disso?

Não creio, um ordenado de 1000 euros brutos é considerado um bom ordenado, tendo por base de comparação o ordenado mínimo, só que feitas as contas, analisando-se o que se deveria ganhar para ter uma vida digna, um ordenado de 1000 euros líquido de impostos deveria ser o nosso mínimo.

 

É mais fácil pensar que os outros é que são muito ricos

do que admitir que nós é que somos pobres.

 

Estamos cada vez mais pobres e o maior problema é que vamo-nos adaptando e nem dá-mos conta de que não é normal termos uma fatia tão grande da população a contar tostões, a tentar esticar o miserável ordenado até ao final do mês, constantemente a fazer ginástica financeira para sobreviver às despesas.

A grande questão é que os nossos pobres de classe média não se veem como pobres, veem antes a verdadeira classe média como rica. É mais fácil pensar que os outros é que são muito ricos do que admitir que nós é que somos pobres.

 

Enquanto a classe média, assim classificada porque dá jeito ao fisco, não acordar para a realidade, andará a viver na amarga ilusão de uma vida digna.

2 comentários

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    Psicogata 06.07.2017 15:34

    Dizem que está, eu não acredito ;)

    Acho que para os ordenados que ganhamos a cultura é cara, especialmente a comparar com outros países, aliás é na visita a outros países europeus que percebo quão pobres somos.

    As estatísticas têm muito que se lhe diga, a maioria dos portugueses tem casa própria porque fica mais barato pagar um crédito do que uma renda, porque existiu um incentivo enorme à casa própria, e é por isso que agora muitas famílias vivem sufocadas com uma dívida que irão pagar durante toda a vida.

    Com os carros passa-se a mesma coisa, fora das grandes cidades, não existem transportes públicos, eu e o meu marido necessitamos ambos de transporte próprio para nos deslocarmos para o trabalho, conheço pessoas que não arranjam trabalho porque não têm meio de transporte próprio e não têm como se deslocar.
    Se passava bem só com um carro em casa? Passava, mas não posso abdicar disso.
    Viaja-se assim tanto? Conheço imensas pessoas que nunca saíram de Portugal, algumas nem a capital conhecem.
    Há realmente um consumismo excessivo, culpa do acesso facilitado ao crédito, as pessoas compram uma televisão e pagam-na durante dois anos! Mas isto faz algum sentido?
    Infelizmente existem bem mais famílias em dificuldades do que aquilo que se julga, só que esticam o orçamento e lá vão vivendo.
    Somos pouco produtivos? Ou somos mal geridos?
    E a economia paralela? Essa não é contabilizada para a produtividade, as horas que se trabalham não pagas também não.

    Respondendo ao teu PS o problema é precisamente o contrário as pessoas ainda não se convenceram que são pobres, que a casa não é delas, o carro também não, que têm a vida hipotecada. Eles acham que são ricos quando não têm verdadeiramente nada.

    Mas fico à espera do teu texto sobre o assunto.
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