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Língua Afiada

Paradoxo - Querer ser diferente quando se odeia a diferença

Existe uma vontade generalizada de se querer ser e, sobretudo, parecer diferente, como se o que é tido como normal fosse uma doença contagiosa, “ter uma vida normal” seja lá o que isso for, porque o conceito é tão mutável e diferente que é por isso impossível de definir, é considerado mau, medonho, assombroso e impeditivo de ser feliz.

A vida normal de uma pessoa é quase sempre sinónimo de banal, vulgar, desinteressante, uma vida que ninguém quer para si, porque todos acham que são diferentes, especiais de alguma forma e por isso pensam que têm ou merecem uma vida especial.

 

As pessoas tentam ser diferentes e inspiradoras de várias formas, seja pelo sucesso no seu trabalho, pela sua imagem, pelas relações sociais que têm, pelo dinheiro que ostentam, na hora de se mostrarem diferentes e superiores todos os trunfos são válidos.

Nesta incessante sede de afirmação pela diferença e pela inspiração as pessoas moldam-se ao que consideram ser uma vida de sonho que possa ser invejada, as redes sociais foram o melhor presente para quem sempre quis ser e mostrar algo que não é.

 

Por toda a parte é possível ver-se afirmações pela diferença, afirmações que têm as mais diversas origens, há no entanto dois extremos que elevam esta necessidade ao ridículo, de um lado os que querem ser, fazer, gostar de algo porque é tendência, porque é moda, do outro lado os que não querem ser, fazer, gostar de algo precisamente porque está na moda.

Umas adoram ser as primeiras a seguir tendências, outras adoram ser as primeiras a ridicularizar tendências, e esta posição por vezes é levada tão a sério que as pessoas de lados opostos chegam a desprezar-se.

 

Curioso que no meio de tanta necessidade de ser diferente se despreze a diferença, a diferença inata, real, concreta, que não pode ser manipulada, alterada, fabricada.

Não suportamos encarar a diferença porque ela é incómoda, preferimos desviar o olhar, recorrer a lugares comuns, esconder-nos no preconceito e focar-nos na nossa normalidade, a mesma normalidade que desprezamos e da qual tanto queremos fugir.

Renegamos raças, credos, tradições, culturas, modos de vida, gastronomias, profissões para mais tarde descontextualizarmos toda a essência de um povo ou cultura para beber dele inspiração para tentarmos ser diferentes.

 

Odiamos o que é diferente, passamos a vida a tentar ser diferentes, quando somos todos iguais.

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