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Língua Afiada

Pessoas que morrem vivas

É uma afirmação muito forte dizer que alguém morreu para nós, quando a pessoa se encontra viva e de boa saúde.

Se a reação da maioria das pessoas a esta afirmação é dizer-nos que o tempo apazigua as dores e a distância ameniza as convicções, há situações em que o tempo funciona precisamente ao contrário, afirma a morte e confirma as certezas.

 

As pessoas que morrem vivas são pessoas que têm para nós significado, de outra forma não mereciam de nós tamanha rejeição e desprezo, são pessoas cuja importância que outrora tiveram impede que sejam simplesmente ignoradas, dizer que alguém morreu para nós, é muito mais do que ignorar e esquecer, é matar a pessoa no nosso coração e na nossa mente, aniquilando qualquer resquício de vida, de memórias, de história.

Não é um sentimento bom, nem tão pouco fácil, mas situações limite obrigam-nos a recorrer aos mecanismos de defesa mais básicos, um instinto primitivo capaz de proteger a espécie e capaz de nos proteger individualmente dos perigos e ataques, o matar para sobreviver.

 

Matar, mesmo que seja no sentido figurado, não deixa de ser matar, mas em vez de cometermos um crime, programamos a nossa mente para assumir uma morte psicológica, matando qualquer ideia da pessoa e especialmente exterminando qualquer possibilidade de ela fazer parte da nossa vida.

Acredito que com o tempo essas pessoas deixem mesmo de existir para nós, podem respirar, falar, andar, viver, mas para nós são apenas fantasmas desprovidos de qualquer importância ou significado, seres abjetos sem opinião, valor ou intenção, tão inanimados como a pedra que pontapeamos do caminho.

 

Pessoas que morrem vivas não merecem um enterro, é deixá-las desaparecer no tempo, sem legado, história ou memória, a transformarem-se no nada que são.

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