Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Língua Afiada

Quando o Covid-19 nos bate à porta – Não, não é uma gripezinha

Começou com dores de cabeça, embora não seja habitual ter dores de cabeça, associei ao cansaço do trabalho acumulado com consecutivas noites mal dormidas. Ao terceiro dia acordo com uma espécie de ardor na garganta e uma dor intercostal, nevrítica, desconfiei que pudesse ser Covid-19 por causa da garganta, mas a dor parecia derivada de outra coisa, tomei um benurum e aguardei, como era sábado fiquei em casa, os sintomas amenizaram só para piorar no dia no seguinte.

No Domingo a este quadro juntou-se uma tosse seca, embora muito espaçada e uma pressão no peito, o nosso corpo não mente, percebi que algo de muito errado se passava no meu organismo, quase que sentia algo maligno a tecer uma rede dentro de mim, senti prostração, uma vontade inexplicável de vegetar, estar quieta, sossegada.

Não haviam muitas dúvidas do que se tratava, pelo que na Saúde 24 mandaram-me imediatamente realizar teste, era Domingo, só consegui realizar o teste na segunda-feira e o resultado só chegaria na quarta-feira, mas o diagnóstico estava mais que dado, estava com Covid-19.

Quando às 7:30h da manhã a mensagem chegou nem me dei ao trabalho de alcançar o telemóvel, foi o meu marido que leu o resultado, eu não precisava da mensagem, sabia bem o que sentia e a minha única preocupação era não piorar ao ponto de precisar de oxigénio.

O Moralez estava com esperança que pudesse não ser Covid-19, não sei se era esperança ou querer que não fosse, mas a nossa vontade não comanda a nossa saúde. O próximo passo foi testar a ele e à nossa filha, ele mesmo com sintomas idênticos aos meus, embora um pouco mais ligeiros, testou negativo, a nossa filha sem sintomas testou positivo.

Confinamento, isolamento e esperar que o organismo combata o vírus sem consequências.

Os últimos sintomas a aparecerem foram o nariz congestionado e a perda de olfato e paladar, uma sensação muito estranha não conseguir cheirar absolutamente nada, rigorosamente nada, não é a maior desgraça do mundo, nem sequer é o sentido mais importante, mas a vida é muito diferente sem olfato, felizmente o meu foi recuperado poucos dias depois, voltou gradualmente.

O Covid-19 não é uma gripe, nem nada que se pareça, já tive gripes daquelas bravas que me atiraram à cama durante três dias, com dores no corpo e febre alta, tudo combatível com benurum ou griponal, passando a publicidade, é uma bomba mas uma bomba que resulta e quando necessário um anti-histamínico, com o Covid-19 a experiência é bem diferente.

Àqueles que dizem que isto se cura com benurum posso dizer-vos que o paracetamol às dores do Covid-19 faz cócegas, ajuda, mas não cura e não tira as dores e o mal-estar, para a pressão e dor no peito, respiração ofegante, fadiga constante e necessidade constante de respirar fundo para compensar a falta de oxigénio não há medicamento, há quando a situação complica o internamento para fazer oxigénio e nos piores cenários a ventilação.

Houve uma noite que senti que as coisas poderiam correr muito mal, como sempre que a minha filha chora levantei-me rapidamente e acorri ao quarto dela, estava inquieta, peguei-lhe ao colo e enquanto ela sossegava eu estava a acelerar, o meu batimento cardíaco estava acelerado, comecei a sentir suores frios, a sentir-me enjoada, fraca, impotente, pois por mais que pensasse que tudo correria bem, não sossegava, estava ali naquele limbo que se sente quando se está prestes a ter um ataque de ansiedade, mas não era ansiedade, era Covid-19.

A bebé sossegou, eu regressei à cama inquieta decidida que no dia seguinte acordaria melhor, esta situação repetiu-se novamente na noite seguinte, mas com menos intensidade, aos poucos a dor intercostal foi melhorando e a pressão no peito foi diminuindo e o alívio que é perceber que já não nos dói o peito quando respiramos fundo.

Como é possível termos necessidade de respirar fundo para compensar a nossa respiração e esse simples ato de respirar ser doloroso? É mau, muito mau, o segredo é manter a calma, mas ter consciência que há um ponto em que é preciso contactar o 112.

Tive um acompanhamento espetacular da minha médica de família e da minha enfermeira, sempre presentes, sempre muito atentas e preocupadas e sempre vigilantes, se sentires dificuldade em respirar tens de ligar o 112, não podes deixar uma situação dessas evoluir.

Felizmente não chegou a esse ponto, mas tive receio que pudesse chegar, sou saudável, não tenho qualquer doença diagnosticada, mas tive sintomas, sintomas dolorosos e assustadores.

Ninguém sabe o motivo de umas pessoas terem mais sintomas que outras, talvez um dia consigam entender o funcionamento deste vírus, o que sabem é que este vírus é altamente invasivo e contagioso e que se todos formos contagiados ao mesmo tempo viveremos um caos.

A pressão no SNS já é imensa, os números não param de aumentar, mas há quem prefira focar-se nos erros dos outros para se escusar de seguir as regras e as recomendações, perdoem-me mas só consigo apelidar essas pessoas de ignorantes e estúpidas.

Não se trata de concordar com tudo, não se trata de achar que as autoridades procederam bem e atempadamente, trata-se de fazer a única coisa que podemos fazer proteger-nos a nós e aos nossos o máximo que conseguirmos.

Podemos e devermos reclamar de como esta pandemia tem sido tratada, mas não é inteligente, nem prudente realizar manifestações e a acreditar em teorias negacionistas (convenientes) e de conspiração, neste momento a pandemia existe, é real e pode ser muito dolorosa, pode tirar vidas, a economia é importante, mas de nada nos servirá ter economia se não estivermos cá ou se tivermos de viver com a saudade dos nossos.

Para mim não importa a idade de quem morre, todos podemos morrer a qualquer momento por milhentos motivos, por milhares de doenças ou azares, será que só a mim me faz confusão que uma pessoa, mesmo que idosa, se vá devido ao Covid-19 por falta de cuidados?

Acham justo que se viva uma vida longa e se vá morrer de um vírus porque as pessoas escolheram que a sua vida vale menos do que a de uma pessoa jovem?

Custa assim tanto manter a máscara na cara e manter o distanciamento social? É assim tão importante fazer tudo hoje e agora colocando em risco o futuro?

 

 

P.S. Não foi confirmada a minha fonte (pessoa) de contágio, mas terá sido em contexto laboral.

51 comentários

Comentar post

Pág. 3/3